Track 36. BAD COMMUNICATION

8 de maio, 20 horas, Serra
Era uma noite linda, parecia ser possível ver os aglomerados de estrelas das espirais da galáxia. O silêncio era tanto que se podia escutar os grilos, nada de carros, nada de postes de iluminação de placas. Eram apenas Nami e Hitomi hospedadas em uma elegante pousada na paz da natureza.
— Ahhhh! É isso! Um dia pra relaxar! — disse Hitomi, utilizando um robe de seda, sentando-se na cama após um bom banho quente. Sua expressão era relaxada, o que no dia a dia era difícil de ver, já que estava sempre tendo que lidar com a pressão das marcas de moda.
— Temos que agradecer a Sayuri, que ficou com a Hana pra gente. — comentou Nami, enquanto estava abaixada, de frente para uma mesinha, acendendo um fósforo.
Nami tinha montado um lugar com conchas e velas perfumadas. Quando as chamas do fósforo alcançaram o pavio da vela, um cheiro ao mesmo tempo adocicado e cítrico preencheu o lugar.
— Sim, temos! Sayuri é um anjo! — respondeu Hitomi, que logo depois sentiu o aroma no ambiente e comentou. — Isso é vela perfumada? Você gosta dessas coisas, né!
— Essa é de laranjeira! É calmante. — afirmou. — Depois dessa temporada de desfiles e catálogos, você precisa!
— Ah, Nami! Muito obrigada! Você é um anjo também! — agradeceu Hitomi, que estava amorosa naquele dia.
Nami se sentou ao lado de Hitomi na cama, as duas se abraçaram e acariciaram os cabelos uma da outra. Elas queriam aproveitar os momentos juntas naquele lugar relaxante.
Show da Ayu, Pavilhão de Eventos, 20 horas e 30 minutos
O pavilhão de eventos era novidade na cidade. Apesar dos acabamentos ainda não estarem totalmente finalizados, já era possível fazer feiras, exposições e até shows no local. A construção era simples e resistente, com estruturas metálicas reforçando todo o local.
Para a grande atração da noite, estruturas modulares foram montadas para que se tivesse espaço para os camarins e equipe técnica. O palco havia sido feito para o evento, seu tamanho era expressivo e contava com uma passarela para as apresentações.
Estruturas de iluminação, guindastes e cordas de segurança permitiriam que a performance fosse executada com maestria, afinal, aquele não era apenas um show. Não era um simples show, era um concerto, com direito a canto, banda, dança e teatro.
Akiko chegou animada, cumprimentando Minami e Aino, que já estavam na fila.
— Oii! — cumprimentou Minami.
— Finalmente! Achei que não vinham mais! — disse Aino, com as mãos na cintura, olhando todos chegarem.
Para o show foram Minami, Aino, Yukino, Akiko, Naoko, Hikaru e Seki. Todos pegaram a ala VIP, que ficava bem pertinho do palco e tinha lugares marcados. A entrada foi liberada para todos, que logo encheram o lugar.
Depois do tempo de todos sentarem, as luzes foram apagadas para anunciar que logo o show começaria. Os canhões de luz iluminaram o lugar. E faixas de luzes em verde e azul piscavam combinando com a música melancólica e eletrônica de abertura.
Quando o instrumental inicial cessou, Ayu apareceu no palco em um vestido branco e prata e apenas uma asa de anjo. Loira, de olhos azuis celestes, usava maquiagem em tons prateados e os cabelos estavam encaracolados para o primeiro ato.
Logo após, uma troca de roupa rápida trouxe um visual mais leve e músicas tocadas eram mais alegres. Os bailarinos dançavam pelo palco em roupas coloridas e Ayu agora estava mais próxima ao público.
Yukino cantava todas as músicas. Akiko, Minami e Aino sabiam apenas as mais famosas e Hikaru curtia o som, sem saber acompanhar. Os mais deslocados eram Seki e Naoko, que apenas assistiam.
— Animado, né!? — comentou Seki, que não sabia se estava gostando ou não do concerto.
— Pois, é. Pelo menos a banda é bem boa. — respondeu Naoko, que prestava mais atenção nos instrumentais.
Depois de um momento longo apenas com os dançarinos e a banda, Ayu surgiu novamente no palco. Desta vez ela estava com seu habitual cabelo liso e um vestido enorme e rodado, todo em rosa, digno de uma princesa.
Enquanto o show acontecia na maior beleza e graciosidade, a banda tocava com maestria as músicas pop com uma pegada rockish. Uptempo, midtempo, sumerish, quaisquer que fossem os ritmos. E, como tudo era impecável, eles também se vestiam de acordo com o tema do show.
Casacos de manga longa e calças de alfaiataria, combinados com a luz dos holofotes. A sensação era de calor, e quem parecia estar sofrendo mais com isso era o baterista, um garoto jovem, cabelos pretos, pele clara e olhos azuis celestes.
“Que… calor…”, pensou o jovem, que já estava quase passando mal com aquele traje.
Rapidamente ele encontrou uma solução. Ao seu lado havia uma pequena mesinha com uma garrafa de água. Em um movimento rápido e discreto, ele pegou a garrafa, abriu às pressas e derramou a água em seu rosto. A sensação térmica diminuiu rapidamente, mas seus cabelos, rosto, camisa e parte do casaco acabaram ficando encharcados, pingando pelo chão.
— EITA! — exclamou o baterista com o olhar nervoso de quem sabia que havia feito algo errado.
À sua frente estava Ayu, encarando-o com desprezo. O olhar claramente avisando o rapaz que eles teriam uma conversa séria.
“Ela viu, vai me matar”, pensou ele, lendo o olhar da cantora.
Após mais esse ato foi anunciado um intervalo de meia hora para mudança de palco, figurinos e para a banda e dançarinos descansarem um pouco. Mas nem todos foram direto para o intervalo.
No camarim de Ayu, ela, que ainda estava com o vestido rodado, e o baterista, que já havia retirado a jaqueta, discutiam sobre o ocorrido. Não era uma discussão acalorada, e pelo tom de voz dos dois, parecia que já se conheciam bem. Ambos conversavam de igual para igual.
— Onde você tava com a cabeça? — ela perguntou. — Você NÃO pode se molhar nos meus shows. Meu público NÃO quer ver isso.
— Ei, ei, calma! Tava quente, só isso! — respondeu o baterista, incomodado com o sermão.
— E você acha que não tá quente pra mim? Tô vestida de bolo! — retrucou.
— Eu já entendi! Vai insistir muito nessa discussão? — reclamou ele, impaciente.
— Ahhhhhhh…, só não traumatize meus fãs! — pediu ela, levando uma mão no rosto e desviando seu olhar de desespero para os lados.
“Traumatizar?, pensou o baterista, achando ela exagerada.
— Vai fazer o que agora? — ela perguntou.
— Vossa majestade permitiria a seu servo descansar nas proximidades? — perguntou o baterista, em tom de deboche.
Ayu escutou as palavras do membro da banda e começou a rir. Para não gargalhar muito alto, levou sua mão até a boca.
— Vá, plebeu! — permitiu ela, entrando na brincadeira.
— Agradecido! — o baterista cumprimentou fazendo reverência e se retirou, seguindo para a parte de fora do pavilhão.
A parte externa do pavilhão ficava no pátio municipal e era uma área arborizada com locais para sentar e apreciar a paisagem. E indo para área externa estava Yukino, com um sorriso de orelha à orelha, que ela não conseguia segurar.
“Ahhh! Que massa! Tá tudo lindo! Quase tive um ataque!”, seus pensamentos gritavam dentro de sua mente enquanto ela tateava a construção de concreto e caminhava até o banco mais próximo.
Ela conseguiu encontrar um banco bem próximo à parte de trás do lugar, embaixo de uma árvore frondosa. Silencioso, o lugar contrastava com a entrada principal que estava cheia de pessoas que haviam decidido sair para dar uma volta.
“Ainda bem que a Akiko vai cuidar do meu lugar pra eu tomar um ar!”.
Ela se sentou, apreciando daquela noite de outono que estava quente para a época e sem nuvens no céu. O que possibilitou uma linda visão das estrelas.
Mas o momento solitário dela durou pouco, logo um rapaz sentou-se ao seu lado, meio jogado, apoiando sua cabeça no banco. Pouco depois se ajeitou um pouco e abaixou a cabeça, tentando tirar um cochilo.
Yukino encarava fixamente aquele rapaz de cabelos negros e com corte estilo wolfcut mais curto. A pressão mental que ela exercia com aquele olhar era tamanha que ele se sentiu desconfortável, como se estivesse sendo julgado.
— Olha… — disse ele, abrindo seus olhos azuis celestes e olhando para Yukino, incomodado. — Você poderia parar de me encarar como se eu fosse um serial killer? Eu só vim descansar.
— Ah, bom descanso. — disse ela, virando o rosto, esnobando ele.
“Vai ficar um climão…”, pensou ele ao ver a reação.
— Fã da Ayu? Veio no show. — perguntou o rapaz, tentando quebrar o gelo.
“Que pergunta idiota”, ele pensou, mas seu rosto não deixou transparecer que ele estava incomodado consigo mesmo.
— Sim, sou. — respondeu Yukino, de maneira ríspida.
“MDS, que pergunta idiota. Por que eu estaria aqui se não fosse?”, foi o que ela pensou enquanto o respondia. A jovem fez questão de continuar séria para que o rapaz entendesse que a estava incomodando.
— Eu curto a banda do irmão dela, já ouviu? — ele tentou mudar de assunto.
— Ah, sim! A Black Dragon. — afirmou Yukino, sem muita animação.
— Conhece!? Já ouviu então? — ele perguntou, mas agora em seu rosto havia um sorriso animado.
— Já… já sim… — disse Yukino, ainda sem se empolgar.
“Não vou dizer pra ele que não tive interesse.”, ela pensou, tentando segurar a cara de desgosto.
— Bem que me pareceu que você curtia rock! — comentou o garoto.
“Massa! Tá conhecida.”, ele pensou, abrindo um sorriso discreto, parecendo estar orgulhoso com o que a garota havia falado.
O rapaz então analisou Yukino de cima a baixo. Seus olhos percorreram com cuidado as roupas e acessórios que ela utilizava. Depois de checar o visual dela, seu olhar se voltou ao rosto da garota, onde permaneceu.
— Esse seu visual parece combinar mais com um show de rock do que de pop. — disse ele carregando um sorriso discreto.
— Tem regra agora pra que roupa usar pra ouvir cada música? — retrucou Yukino, que deu de ombros, fechando seus olhos, franzindo sua sobrancelha e inclinando seu rosto, em sinal de total descontentamento com as observações do rapaz.
“Que brava!”, pensou o rapaz, dando um respiro mais forte por causa do jeito dela. Ele até achou engraçado o jeito direto de Yukino, mas não deixou transparecer.
Após verificar o horário, ele se levantou, mas antes de continuar caminho, disse:
— Bom, acabou o intervalo. Bom show!
— Já!? Obrigada, você também!
Os dois seguiram em lados opostos e Yukino correu para o seu lugar, ao lado de sua amiga.
— Amiga! Demorou! — comentou Akiko.
— Ah, eu fui tomar um ar. — respondeu Yukino, que não quis comentar nada sobre o rapaz que havia encontrado na rua.

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