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    A caminhada tinha se tornado algo muito mais leve.

    Depois de simplesmente… dizermos o que estava em nossas mentes, era como se algo tivesse se largado do meu ombro.

    Eu olhei levemente de lado para Yuki, que tinha um pequeno sorriso no canto do rosto, assim como eu.

    “Ainda bem…”

    Conforme andávamos, continuei sentindo as gotas pesadas da chuva caindo no meu ombro.

    Devido ao fato de eu inclinar o guarda-chuva para o lado dela, para que não ficasse molhada.

    Mas aquilo não importava no momento.

    O que eu mais pensava era em como ela também teve a mesma preocupação sobre a mão quente no dia da virada.

    Não sabia o motivo de ela ter ficado remoendo aquilo a ponto de não conseguir me encarar direito, mas eu apenas sabia de uma coisa.

    “Que boba…”

    — Shin — a voz suave dela me puxou de volta, me chamando com aquele mesmo tom que me fazia prestar atenção.

    — Sim?

    Ela olhou para a frente, como se estivesse reunindo algo na mente dela.

    — Sabe… de vez em quando, é bom parar de pensar um pouco só nos outros ao seu redor. — ela falou com calma mas com um pequeno beicinho, e aquilo me deixou intrigado. — Você deveria começar a pensar em você mesmo um pouquinho mais.

    Antes que eu pudesse responder algo, ou sequer entender o que ela queria dizer com aquilo, eu senti os seus dedos no tecido do meu braço direito.

    Ela me… puxou para o seu lado, e logo eu senti as gotas pararem de pingar no meu ombro esquerdo.

    Eu só consegui ficar paralisado.

    Meu rosto tinha começado a arder no mesmo segundo. Como se os céus finalmente tivessem parado a chuva, e o sol forte tivesse focado apenas no meu rosto.

    Nossos ombros se tocaram, e eu só consegui ficar ainda mais tenso.

    — Tá… — foi o que eu consegui dizer… ou murmurar.

    Continuamos a andar, mas, dessa vez, mais pertos um do outro.

    “Ela acabou notando meu ombro…”

    Talvez a melhor escolha realmente tivesse sido ter oferecido o meu guarda-chuva para ela. O vento logo começou a ficar levemente mais intenso, e a chuva não dava sinal de parar nem tão cedo.

    Se ela tivesse continuado com a relutância dela e decidisse ficar esperando…

    O som rápido de um carro passou do nosso lado no mesmo segundo, cortando qualquer tipo de pensamento. Aquilo fez com que a água da estrada fosse lançada em nós.

    “Droga.”

    Minha calça tinha ficado ainda mais molhada do que já estava.

    “…..!?”

    Quando eu acabei me chegando para o lado por causa do carro, comecei a sentir algo quente e macio nas costas da minha mão.

    Eu olhei de canto para baixo, e… era também as costas da mão dela.

    Meu olhar subiu rapidamente das mãos para ela.

    Yuki também tinha percebido aquele contato, notei isso porque ela também olhou para baixo e desviou quando viu que eu iria olhar.

    “Ah…”

    Eu… travei ainda mais do que quando ela me puxou para perto, junto da minha cara que devia estar vermelha.

    Aquilo continuou por um… dois… alguns segundos. E eu esperava um de nós notar, ou fingir notar, para tirar as mãos dali.

    Mas aquilo simplesmente não aconteceu.

    Assim como na noite da virada do ano, tínhamos consciência do que estava acontecendo. Ainda assim, nem eu nem Yuki recuamos daquele momento.

    Nossas mãos… simplesmente continuaram ali, tocando a cada passo que dávamos sob o guarda-chuva.

    Mais uma vez… tendo contato quente em meio ao frio do começo do ano.

    “Grande Sorte…”

    Nem eu e talvez nem ela, queria tirar as mãos daquele lugar.

    Na verdade, eu sentia a vontade de virar a mão, e entrelaçar os meus dedos no dela.

    “…..!”

    O silêncio da caminhada até a casa tinha se intensificado, mas, diferente do primeiro, não era denso. Era… diferente, de algum jeito.

    Quando finalmente avistamos a casa dela, naturalmente, nossas mãos deveriam se separar.

    Mas não foi isso que aconteceu.

    — Vamos ficar aqui… mais um pouquinho…? — ela murmurou timidamente, em frente ao portão da casa dela.

    — A-ah… sim… — respondi, olhando para o outro lado, enquanto nossas mãos ainda se tocavam.

    Continuamos ali, apenas parados e… aproveitando aquele momento morno debaixo da chuva por algum tempo.

    Era tão… bom.

    Sentia que eu poderia ficar ali pelo resto da noite.

    Mas isso parou quando viramos para trás, vendo o farol de um carro, que havia estacionado ali, nos iluminar.

    Saindo da porta rapidamente, veio logo ele.

    Kaito.

    — Ah!

    Rapidamente, nossas mãos se separaram.

    — Ei! O que vocês dois tão fazendo aí parados na chuva, hein!? — Kaito falou alto, enquanto corria até a entrada. — Querem ficar ensopados mesmo, é!?

    — …Kaito! Onde você tava? — Yuki falou, com uma leve dificuldade.

    Ele tirou o casaco de cima da cabeça dele, colocando a chave na fechadura da porta da casa deles.

    — Como você tava demorando, resolvi ir na escola ver o motivo — Ele abriu a porta, e então se virou e olhou diretamente pra mim, com aquele mesmo sorriso no rosto. — Mas acho que não era preciso…

    — Ah, sim… — consegui responder.

    Yuki então virou na minha direção, e olhou pra mim timidamente.

    — Obrigado por ter me trazido, Shin…

    Eu a olhei por um segundo, também levemente tímido.

    — Não foi nada.

    Kaito nos encarava através da porta semiaberta, totalmente óbvio que ele estava ali.

    — Entrem logo, tá frio aí fora! — Ele finalmente disse, quando notou que nós dois não falamos mais nada. — Shin! Vai me ajudar a fazer o jantar de novo, né!?

    Mais uma vez… eu travei.

    — F-foi mal! Preciso ir logo pra casa! — comecei a andar assim que Yuki se abrigou na entrada da casa.

    Se eu ficasse ali mais um instante, ou ele me convencia a ficar ou insistiria em me levar de carro até casa.

    Lembrando do que aconteceu da última vez, eu preferi correr logo antes que ele tentasse falar algo.

    — Boa noite, Yuki!

    — Te vejo amanhã, Shin!

    — Boa noite só pra Yuki…? E eu, Shin!?

    Me despedi deles, com um sorriso no canto do rosto.

    A água das poças respingavam na estrada enquanto eu corria sobre elas.

    A chuva ainda continuava intensa, enquanto vários carros iam e viam pela estrada

    Em meio a aquele temporal, eu apenas sentia meu corpo quente, como se o sol de verão estivesse presente nos céus de inverno.

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