Capítulo 5 - O Ceifador e a Escrava
O silêncio era pesado. De morte.
Anayê varria o horizonte com os olhos, mas não enxergava vida. Nenhum animal, nenhum som. Só árvores mortas, retorcidas como garras.
Ela apertou os braços.
— Isso tudo… — murmurou Boyak. — É culpa de Astaroth.
O nome caiu como um peso.
— Os asseclas dele drenam tudo — continuou. — Terra, gente… esperança.
Anayê desviou o olhar.
— Eles não drenam… — disse baixo. — Eles esmagam. A esperança na fortaleza é quase uma lenda, uma coisa vil.
— A esperança não é vil. Mas depende em quem está a sua esperança. Se estiver em alguém como Astaroth, bem…
O vento passou seco entre as árvores mortas.
Boyak lançou um olhar de canto.
— Nos reinos livres é diferente.
A moça fitou-o. Seu rosto transmitia uma tranquilidade que inquietava, uma calma que nunca vira em ninguém. Os maggs só demonstravam raiva e desprezo, os escravos só ofereciam medo e desespero, e os generais expressavam apenas obediência e religiosidade cega. Porém, ele era diferente. Mesmo ali, diante de tamanha devastação e crueldade, contemplava uma paz imperturbável em seu semblante. Como ele consegue ficar tão… despreocupado?.
— Eu sei que sou bonito — ele disse de repente — mas você pode parar de me encarar?
Anayê piscou, confusa.
— Bonito?
Ele pensou por um segundo.
— Certo… talvez “irresistível” seja mais preciso.
Ela soltou um riso curto, quase sem querer, e isso a assustou mais do que o silêncio.
Boyak sorriu de canto.
— Cuidado — disse, debochado. — As pessoas podem ter problemas sérios com a sua beleza.
— Mas você não parece ser uma delas.
— Acredito que não. Mas a culpa não é minha por ser tão perfeito.
O cavalo bufou como se discordasse. Os dois explodiram em risadas.
Dessa vez, ela se permitiu rir alto. E como era gostosa a sensação de ouvir sua própria risada.
E, por um instante, o mundo pareceu menos morto.
Boyak puxou uma pêra do alforje e jogou para ela.
— Come. Vai precisar de força.
Anayê segurou a fruta com cuidado, ainda desconfiada. Deu uma mordida. Doce.
Quase estranho demais depois de tanto tempo.
— Posso perguntar uma coisa?
— Já perguntou.
Ela ignorou.
— De onde você é?
Boyak pensou por um instante.
— Não sei se pertenço a algum lugar — respondeu. — Mas, no momento, moro nas Colinas Alegres com meu mestre.
O nome soou errado naquele cenário morto.
— Parece um bom lugar…
— É — ele deu de ombros. — Tirando meu mestre.
— Ele é ruim?
— Ele é… chato.
Anayê quase sorriu.
— Se esse lugar é tão bom — ela continuou. — por que você veio pra cá?
Pela primeira vez, o ar dele mudou.
— Porque alguém precisa vir.
Ela ficou quieta.
— Sou um ceifador — ele completou.
— Ceifador de aberrações?
— O próprio.
— Achei que fossem só histórias.
— Às vezes eu também acho.
Ela o analisou.
— Então… você mata monstros?
— Quando eles colaboram.
— E quando não colaboram?
— Eu insisto.
Anayê soltou um pequeno riso, mas logo ficou séria de novo.
— Na fortaleza diziam que vocês não existem.
— É compreensível — Boyak coçou a cabeça, seu tom era de desculpas. — Não temos um comando ou guilda, nem somos muito unidos. Cada ceifador faz o seu próprio caminho.
— Eu ainda acho difícil acreditar — disse.
Boyak apontou para o horizonte.
— Você viu a torre cair, não viu?
Ela travou.
— Foi você?
— Mais ou menos. O fato de todos acharem que a fortaleza de Astaroth nunca vai ser atacada facilitou o processo.
— Então você é louco.
— Bastante.
Anayê sentia uma aura de orgulho que pairava sobre Boyak.
— Mesmo assim, acho que te devo um obrigado. Afinal, se você não tivesse feito essa loucura, eu não teria conseguido escapar da fortaleza.
— Agradeça quando estivermos nos reinos livres.
— Então que assim seja.
O sol começou a morrer no horizonte. E com isso, sombras longas e estranhas misturadas ao ar frio apareceram.
Boyak escolheu um pequeno platô para passarem a noite e os dois começaram a procurar galhos para uma fogueira.
— Pelo menos isso aqui presta — Boyak comentou. — Madeira morta queima melhor.
Anayê ainda não tinha tirado suas conclusões sobre Boyak e não estava totalmente convencida dessa história de ceifador, mas era o que tinha por enquanto. Contudo, ele me tratou com dignidade. Ninguém me tratou assim nos últimos dez anos.
Boyak suspirou.
— Lá vem aquele olhar…
Ela desviou rapidamente.
— Não é nada.
— Você encara como se estivesse julgando minha alma.
— É difícil não fazer isso de onde vim.
— Justo.
Ele juntou mais alguns galhos.
— Mas sabia que dá pra falar também?
Ela hesitou.
— Eu… só estou tentando entender você.
— Vou compreender se estiver apaixonada por mim — ele disse, dramaticamente.
Ela não conseguiu evitar a risada.
— Qual é? Outras pessoas também já se apaixonaram por mim em um dia.
— Convencido.
— Obrigado.
— Quer saber uma coisa? — ela continuou, tentando disfarçar — você não fica por baixo, né?
— Nunca.
Ela abriu um sorriso se sentindo inteiramente bem por dizer o que pensava. Não se saíra tão mal quanto achava. Na verdade, aquele dia estava sendo totalmente satisfatório simplesmente por poder conversar com alguém de igual para igual.
— Me diz… — ela perguntou, mais leve — vocês fazem fogo com as mãos?
— Não exatamente.
— Então como funciona?
Ele se levantou.
— Existem quatro tipos de ceifadores…
O vento passou e Boyak se deteve por um instante. Sentira algo estranho. Não conseguia distinguir o que exatamente. Então, continuou:
— Manipuladores. Evocadores. Usuários de armas sagradas…
Anayê escutava com atenção, mas percebeu quando os olhos do ceifador foram para a floresta.
— …e potencializadores — ele terminou.
— E você?
— Esse aqui — apontou para si. — Força pura.
Ela recolheu outro galho.
— Tipo… quanto forte?
— O suficiente pra abrir uma montanha em duas partes.
Ela arregalou os olhos.
— Tá dizendo que pode esmagar minha cabeça?
— Deixe-me ver… — ele comparou o tamanho de sua mão com o tamanho da cabeça dela. — Ficaria como uma laranja esbagaçada.
— Eca! Muito obrigada pela imagem mental — ela reclamou.
O vento parou.
Boyak paralisou. O semblante congelado em uma expressão séria.
Anayê percebeu na hora.
— O que foi?
— Cuidado!
Boyak se moveu abandonando os galhos antes que os olhos dela acompanhassem. Um empurrão bastou para Anayê ser lançada para trás e rolar pelo chão até bater as costas em um tronco.
— Agh! — berrou de dor.
Ergueu o rosto, tonta.
Boyak já estava à frente, imóvel em posição de ataque.
E, um instante depois, algo pousou levantando poeira seca e galhos esmigalhados.
Anayê estremeceu quando enxergou uma silhueta alta no meio da poeira. O que é aquilo?, pensou sentindo as pernas estremecerem.
A criatura deu um passo e o som se assemelhava à ossos raspando. Curvada e magra com o torso aberto e ossos brancos à mostra. Dedos finos como garras pendiam de seus braços compridos. A pele… não era pele. Era algo rasgado, transformado, misturado.
A cabeça se moveu, oval e disforme, como um cérebro vivo, e três olhos grandes demais apareceram. Não tinha nariz, mas uma boca escura exalando fumaça e baba preta.
Anayê nunca estivera diante de tamanho horror. Apenas olhá-lo fazia seu corpo inteiro arrepiar.
Uma aberração.

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