Capítulo 95 - Conflitos Internos
— Ei, amora — Heitor chamou.
Anayê ergueu os olhos. Desde o raiar do dia, ele não parava de chamá-la daquele apelido e agora já era o meio do dia, embora o sol estivesse escondido entre nuvens espessas.
— Ainda tem dinheiro aí? — ele perguntou.
Ela assentiu.
Fenrir observava a conversa limpando o suor do pescoço e do rosto.
Do lado esquerdo da estrada, havia uma construção de madeira de dois andares com uma placa pregada num poste onde estava escrito: Estalagem do Pescador.
— Precisamos abastecer o estoque de comida — Heitor explicou. — A próxima estalagem está muito longe daqui.
— Tá certo.
Anayê pegou um saco de moedas da sua sela e lançou para o ceifador.
— É tudo o que tenho.
— É mais do que suficiente.
O ceifador saltou do cavalo.
— Volto em um instante.
Heitor entrou na estalagem e Fenrir aproveitou para desmontar e se sentar numa mureta de pedra que cercava o terreno do estabelecimento. Era um fardo terrível respirar, caminhar e sentar e o sofrimento era dobrado depois que Heitor propusera os exercícios pela manhã. Ele cerrou os olhos, frustrado consigo. A refeição de cedo tivera o mesmo gosto de um copo de água.
— Você precisa parar? — Anayê perguntou.
— Não — mentiu.
Odiava aquelas perguntas e o olhar de pena que a ceifadora destinava a ele.
— Tem certeza? Eu…
— Já disse que não! — vociferou.
Ela se assustou com a reação. Fenrir não comentou mais nada e continuou limpando o suor, ignorando a dor na garganta pelo esforço.
Naquele momento, Heitor saiu da estalagem com dois sacos, dois odres e outros suprimentos, e lançou o saco com algumas moedas para Anayê.
— Temos tudo o que precisamos.
E tiveram até a noite chegar.
Quando Fenrir se aproximou do alforje e buscou alimento, notou que só havia um pedaço de carne seca.
— Acabou a comida? — perguntou, fitando Anayê sentada diante uma fogueira.
— Como assim?
Ele mostrou o alforje vazio.
Anayê se levantou e franziu o cenho.
— Isso está errado. Eu só comi um pedaço de pão e carne agora — revelou.
Os dois olharam para Heitor, dormindo no chão; braços cruzados, ronco leve, expressão tranquila.
— Heitor! — Fenrir chamou.
Nenhuma resposta.
— HEITOR!
O ceifador despertou, levemente assustado, piscando os olhos sem parar.
— O que…? — ele coçou os olhos avermelhados.
— Cadê a comida que você comprou? — Anayê indagou.
— Hã? Comida? — Heitor fez uma careta de sono.
Fenrir mostrou o alforje para ele.
— Ah…
A expressão dele mudou para constrangimento.
— Foi mal?
— “Foi mal”? — Anayê cruzou os braços.
Heitor coçou a cabeça.
— Acho que fui comendo um pouco durante a viagem…
— Um pouco? — Fenrir repetiu incrédulo.
— Bem… talvez bastante.
— Você disse que a próxima estalagem está muito longe — Anayê relembrou. — O que vamos comer agora?
Heitor esfregou as mãos, constrangido, e mirando a fogueira.
Anayê suspirou fundo enquanto Fenrir colocava o alforje no lugar.
— Podemos procurar alguma casa ou fazenda e comprar comida, ainda restaram algumas moedas — Heitor sugeriu.
— E temos outra escolha? — Fenrir indagou, debochado.
***
Encontraram uma fazenda na tarde do dia seguinte e Heitor foi até lá negociar com o morador como um pedido de desculpas. O estômago de Fenrir resmungava de fome e de dor e ele massageava os pés enquanto assistia Anayê treinando com o ovo. Agora, ela conseguia levitar o objeto por quase dez centímetros sem quebrá-lo ou arremessá-lo para longe.
Fenrir colocou a bota e caminhou até a ceifadora.
— Tem certeza de que esse Heitor é confiável? — ele perguntou com a voz baixa.
Anayê deixou o ovo repousar em suas mãos antes de se virar para o ceifador.
— Ele ajudou a salvar sua vida — ela disse.
— E isso o torna imediatamente confiável?
— O que está querendo dizer?
Fenrir cruzou os braços.
— Nós vimos o rosto dele num cartaz de procurado.
— Você diz isso depois de quase ser morto por pessoas que adoravam uma aberração como se fosse um deus?
A fala o pegou em cheio e reduziu a sua coragem de continuar. Mesmo assim, não podia ignorar o pensamento insistente de que havia algo com Heitor.
Anayê sustentou o olhar, esperando a reação por parte do ceifador.
— O problema é que você confia em qualquer um disposto a ajudar — Fenrir disparou.
— Ele salvou a sua vida — ela repetiu, enfatizando cada palavra como se a primeira vez não tivesse sido suficiente.
Fenrir descruzou os braços e virou a cabeça para o descampado verde que se estendia até o horizonte onde uma bonita casa de madeira se destacava.
Uma nuvem escondeu o sol e lançou uma sombra sobre os dois.
— Você está se sentindo como um empecilho no nosso caminho e quer descontar na pessoa que mais nos ajudou nesses últimos dias — ela comentou.
— Uma situação não tem nada a ver com a outra — ele defendeu.
— Então, fala. Confessa que não se sente frustrado! Que não está com raiva por ter acabado desse jeito.
Fenrir hesitou com a mandíbula travada. As palavras vieram e ficaram engasgadas na garganta diante do olhar desafiador da ceifadora.
— Amora! — era a voz de Heitor. — Molenga! Eu consegui!
Ele se aproximava depressa da dupla.
Anayê ficou imóvel e assistiu Fenrir suspirar e caminhar para seu cavalo.
***
Heitor estava certo. Eles não encontraram nenhuma casa o dia inteiro. As árvores grandes deram lugar à um prado esverdeado e campos que se perdiam no horizonte. Quando a noite chegou, o frio ficou ainda mais rigoroso e a uma leve garoa deixou a situação pior.
Eles acamparam próximos à uma ponte que cortava um grande abismo, se agasalharam o melhor que puderam, mas não foi possível acender fogueira naquela noite.
Anayê observava Fenrir em silêncio e ele, por sua vez, continuava calado, exceto quando se queixava de dores consigo mesmo.
— Amanhã — disse Heitor. — Pretendo elevar seu treinamento para o próximo nível.
O semblante da ceifadora se acendeu semelhante a uma fogueira quase apagada que recebe novo combustível.
— Foi uma ótima notícia para uma noite tão fria — ela comentou.
— Então aproveite para dormir e descansar bastante.
***
Eles acordaram pouco depois das primeiras luzes do amanhecer tingirem o céu cinza. Heitor levantou, cambaleante e bocejando, e caminhou para pegar o odre em sua sela, porém não o encontrou. Vasculhou a bolsa e o outro lado da sela sem resultado.
Anayê acabara de se acordar e tentava enxugar os cabelos do orvalho da manhã.
— Está procurando isso?!
Ambos olharam para Fenrir que segurava um odre aberto. Heitor semicerrou os olhos.
— Eu te avisei, Anayê — Fenrir falou.
— O que está acontecendo?
— Cheire.
Ele entregou o objeto e Anayê aproximou do nariz. Cheirava a cerveja. Ela mirou Heitor com surpresa.
— A comida não acabou anteontem — Fenrir afirmou. — Ele gastou o seu dinheiro com bebida!
A ceifadora passou a visão pelo odre e depois para o ceifador imóvel ao lado do cavalo.

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