Índice de Capítulo

    — Ei, amora — Heitor chamou.

    Anayê ergueu os olhos. Desde o raiar do dia, ele não parava de chamá-la daquele apelido e agora já era o meio do dia, embora o sol estivesse escondido entre nuvens espessas.

    — Ainda tem dinheiro aí? — ele perguntou.

    Ela assentiu.

    Fenrir observava a conversa limpando o suor do pescoço e do rosto.

    Do lado esquerdo da estrada, havia uma construção de madeira de dois andares com uma placa pregada num poste onde estava escrito: Estalagem do Pescador.

    — Precisamos abastecer o estoque de comida — Heitor explicou. — A próxima estalagem está muito longe daqui.

    — Tá certo.

    Anayê pegou um saco de moedas da sua sela e lançou para o ceifador.

    — É tudo o que tenho.

    — É mais do que suficiente.

    O ceifador saltou do cavalo.

    — Volto em um instante.

    Heitor entrou na estalagem e Fenrir aproveitou para desmontar e se sentar numa mureta de pedra que cercava o terreno do estabelecimento. Era um fardo terrível respirar, caminhar e sentar e o sofrimento era dobrado depois que Heitor propusera os exercícios pela manhã. Ele cerrou os olhos, frustrado consigo. A refeição de cedo tivera o mesmo gosto de um copo de água.

    — Você precisa parar? — Anayê perguntou.

    — Não — mentiu.

    Odiava aquelas perguntas e o olhar de pena que a ceifadora destinava a ele.

    — Tem certeza? Eu…

    — Já disse que não! — vociferou.

    Ela se assustou com a reação. Fenrir não comentou mais nada e continuou limpando o suor, ignorando a dor na garganta pelo esforço.

    Naquele momento, Heitor saiu da estalagem com dois sacos, dois odres e outros suprimentos, e lançou o saco com algumas moedas para Anayê.

    — Temos tudo o que precisamos.

    E tiveram até a noite chegar.

    Quando Fenrir se aproximou do alforje e buscou alimento, notou que só havia um pedaço de carne seca.

    — Acabou a comida? — perguntou, fitando Anayê sentada diante uma fogueira.

    — Como assim?

    Ele mostrou o alforje vazio.

    Anayê se levantou e franziu o cenho.

    — Isso está errado. Eu só comi um pedaço de pão e carne agora — revelou.

    Os dois olharam para Heitor, dormindo no chão; braços cruzados, ronco leve, expressão tranquila.

    — Heitor! — Fenrir chamou.

    Nenhuma resposta.

    — HEITOR!

    O ceifador despertou, levemente assustado, piscando os olhos sem parar.

    — O que…? — ele coçou os olhos avermelhados.

    — Cadê a comida que você comprou? — Anayê indagou.

    — Hã? Comida? — Heitor fez uma careta de sono.

    Fenrir mostrou o alforje para ele.

    — Ah…

    A expressão dele mudou para constrangimento. 

    — Foi mal?

    — “Foi mal”? — Anayê cruzou os braços.

    Heitor coçou a cabeça.

    — Acho que fui comendo um pouco durante a viagem…

    — Um pouco? — Fenrir repetiu incrédulo.

    — Bem… talvez bastante.

    — Você disse que a próxima estalagem está muito longe — Anayê relembrou. — O que vamos comer agora?

    Heitor esfregou as mãos, constrangido, e mirando a fogueira.

    Anayê suspirou fundo enquanto Fenrir colocava o alforje no lugar.

    — Podemos procurar alguma casa ou fazenda e comprar comida, ainda restaram algumas moedas — Heitor sugeriu.

    — E temos outra escolha? — Fenrir indagou, debochado.

    ***

    Encontraram uma fazenda na tarde do dia seguinte e Heitor foi até lá negociar com o morador como um pedido de desculpas. O estômago de Fenrir resmungava de fome e de dor e ele massageava os pés enquanto assistia Anayê treinando com o ovo. Agora, ela conseguia levitar o objeto por quase dez centímetros sem quebrá-lo ou arremessá-lo para longe.

    Fenrir colocou a bota e caminhou até a ceifadora.

    — Tem certeza de que esse Heitor é confiável? — ele perguntou com a voz baixa.

    Anayê deixou o ovo repousar em suas mãos antes de se virar para o ceifador.

    — Ele ajudou a salvar sua vida — ela disse.

    — E isso o torna imediatamente confiável?

    — O que está querendo dizer?

    Fenrir cruzou os braços.

    — Nós vimos o rosto dele num cartaz de procurado.

    — Você diz isso depois de quase ser morto por pessoas que adoravam uma aberração como se fosse um deus?

    A fala o pegou em cheio e reduziu a sua coragem de continuar. Mesmo assim, não podia ignorar o pensamento insistente de que havia algo com Heitor.

    Anayê sustentou o olhar, esperando a reação por parte do ceifador.

    — O problema é que você confia em qualquer um disposto a ajudar — Fenrir disparou.

    — Ele salvou a sua vida — ela repetiu, enfatizando cada palavra como se a primeira vez não tivesse sido suficiente.

    Fenrir descruzou os braços e virou a cabeça para o descampado verde que se estendia até o horizonte onde uma bonita casa de madeira se destacava.

    Uma nuvem escondeu o sol e lançou uma sombra sobre os dois.

    — Você está se sentindo como um empecilho no nosso caminho e quer descontar na pessoa que mais nos ajudou nesses últimos dias — ela comentou.

    — Uma situação não tem nada a ver com a outra — ele defendeu.

    — Então, fala. Confessa que não se sente frustrado! Que não está com raiva por ter acabado desse jeito.

    Fenrir hesitou com a mandíbula travada. As palavras vieram e ficaram engasgadas na garganta diante do olhar desafiador da ceifadora.

    — Amora! — era a voz de Heitor. — Molenga! Eu consegui!

    Ele se aproximava depressa da dupla.

    Anayê ficou imóvel e assistiu Fenrir suspirar e caminhar para seu cavalo.

    ***

    Heitor estava certo. Eles não encontraram nenhuma casa o dia inteiro. As árvores grandes deram lugar à um prado esverdeado e campos que se perdiam no horizonte. Quando a noite chegou, o frio ficou ainda mais rigoroso e a uma leve garoa deixou a situação pior.

    Eles acamparam próximos à uma ponte que cortava um grande abismo, se agasalharam o melhor que puderam, mas não foi possível acender fogueira naquela noite.

    Anayê observava Fenrir em silêncio e ele, por sua vez, continuava calado, exceto quando se queixava de dores consigo mesmo.

    — Amanhã — disse Heitor. — Pretendo elevar seu treinamento para o próximo nível.

    O semblante da ceifadora se acendeu semelhante a uma fogueira quase apagada que recebe novo combustível.

    — Foi uma ótima notícia para uma noite tão fria — ela comentou.

    — Então aproveite para dormir e descansar bastante.

    ***

    Eles acordaram pouco depois das primeiras luzes do amanhecer tingirem o céu cinza. Heitor levantou, cambaleante e bocejando, e caminhou para pegar o odre em sua sela, porém não o encontrou. Vasculhou a bolsa e o outro lado da sela sem resultado.

    Anayê acabara de se acordar e tentava enxugar os cabelos do orvalho da manhã.

    — Está procurando isso?!

    Ambos olharam para Fenrir que segurava um odre aberto. Heitor semicerrou os olhos.

    — Eu te avisei, Anayê — Fenrir falou.

    — O que está acontecendo?

    — Cheire.

    Ele entregou o objeto e Anayê aproximou do nariz. Cheirava a cerveja. Ela mirou Heitor com surpresa.

    — A comida não acabou anteontem — Fenrir afirmou. — Ele gastou o seu dinheiro com bebida!

    A ceifadora passou a visão pelo odre e depois para o ceifador imóvel ao lado do cavalo.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota