Capítulo 96 - Conflitos Internos Explodem
Heitor não conseguiu sustentar o olhar da ceifadora e desviou a cabeça para a ponte.
Mas Fenrir não estava disposto a deixar o assunto acabar em silêncio.
— É por isso que está sendo procurado, não é? Vive enganando os leigos como nós — Fenrir disparou, visivelmente irritado.
Heitor baixou a cabeça, olhou para os próprios pés, ergueu os olhos diretamente para Anayê. Ela mantinha o semblante surpreso, o mesmo que ele vira na face de sua mulher antes de deixá-lo. Sentiu o peito apertado, o chão torto, a visão turva.
— Responde, seu covarde!
— Já chega, Fenrir — Anayê se levantou.
Ela entregou o odre para Fenrir e mirou o ceifador culpado.
— E então? — ela desafiou. — Acho que merecemos uma explicação.
Heitor suspirou fundo e as lágrimas começaram a rolar pelo rosto. Odiou ser visto daquela maneira, ser capturado naquele erro. Como tinha chegado tão longe? Onde perdera o controle total de suas vontades?
— Me desculpem — ele finalmente falou. — Eu sinto muito.
Fenrir ia abrir a boca, mas a ceifadora segurou seu braço e o encarou. Foi um simples segundo, mas transportou Fenrir imediatamente para seu julgamento no Ribeiral. Anayê tinha destinado olhar semelhante naquela ocasião. A tensão em seus ombros diminuiu devagar.
— Começou como um escape… — Heitor contou, enxugando as lágrimas na roupa. — De uma missão fracassada. Não fui rápido o suficiente para parar a aberração e uma pessoa perdeu a vida.
Uma lufada de ar passou entre eles, mais calmo e mais quente do que na noite anterior.
— Então me abandonei nos braços do vinho para esquecer.
Deu uma risada amarga.
— E, era só isso, apenas um meio para passar por uma situação ruim — Varreu os céus nublados. — Mas, rapidamente, se tornou rotina. — Voltou a encarar os ceifadores. — E, quando percebi, não conseguia largar.
Ele suspirou com os olhos perdidos no horizonte de suas lembranças.
— A minha esposa percebeu o abismo antes de mim. — O semblante dele se contorceu de dor. — Ela tentou me ajudar. Tentou me impedir de afundar. — As palavras travaram na garganta por um momento. — Eu, um grande ceifador orgulhoso, não quis ouvir. E recebi o que merecia… ela me abandonou.
As mãos começaram a estremecer e ele as fechou em um punho decidido.
— Desde então, é assim, missão após missão, aberração após aberração… odre após odre. — Olhou de relance para o odre na mão de Fenrir. — Acho que me acostumei a não enfrentar meus próprios problemas — Uma pausa silenciosa. — Quando encontrei você, amora, foi o mesmo que encontrar uma versão minha esquecida no tempo. E quanto mais conhecia vocês, mais queria estar aqui. Olhando como se fosse um espelho de mim mesmo.
Uma curva suave passou por seus lábios, mas desapareceu rapidamente.
— Eu realmente te enganei, amora. Menti pra você, molenga.
Eles vislumbraram o ceifador. Agora, era uma versão totalmente diferente do forte e incrível Heitor de dias atrás. E, em seus corações, isso foi mais poderoso do que qualquer coisa que ele tinha feito antes.
— Talvez nossos caminhos devam se separar agora — Heitor afirmou. — É o melhor a se fazer.
Entretanto, Fenrir deu um passo à frente e coçou a cabeça, brigando com as palavras na cabeça. Anayê estreitou os olhos.
— Eu fui rejeitado pelo meu próprio povo — começou. — E, se tivesse sido rejeitado por Anayê e o mestre das colinas verdes, talvez também estivesse como você.
Heitor ergueu os olhos.
— Mas, a única coisa que me ajudou, foi parar de esconder meus erros. E talvez você já esteja nesse caminho.
A ceifadora ao lado dele concordou com a cabeça.
— Nós não vamos abandoná-lo — Anayê interpolou. — Não se estiver disposto a mudar.
Heitor examinou ambos, incrédulo. Ele também perdera o hábito de destinar segundas chances a terceiros, ou mesmo acreditar na lógica da recuperação. Era a primeira reflexão séria em muito tempo em que considerava a possibilidade de cura.
Clap. Clap. Clap.
O som de palmas ecoou pela ponte.
Os três direcionaram seus olhares para um sujeito robusto, de grandes feições, trajado com uma túnica de cor mostarda. Os passos dele faziam a madeira da ponte ranger.
Então apontou diretamente para Heitor.
— Heitor caolho! — disse, cheio de satisfação. — Finalmente te encontrei.
O ceifador mais velho estreitou o olho visível enquanto analisava o recém-chegado. Vasculhou a memória procurando reconhecer aquele rosto, mas não encontrou nada.
— E você seria…? — o ceifador questionou, cruzando os braços.
O indivíduo abriu um sorriso tranquilo e fez uma mesura exagerada. As mangas largas da túnica deslizaram pelos braços, revelando inúmeras tatuagens negras espalhadas pela pele.
— Permita-me apresentar — disse com certa elegância na voz. — Kelsin, da ordem da coruja branca.
Anayê e Fenrir trocaram um olhar rápido.
— É um prazer conhecê-lo.
— Humpf. Ouvi falar, um bando de feiticeiros brincando com magia profana — Heitor falou de modo zombeteiro. — Neste caso, é um desprazer conhecê-lo.
O sorriso de Kelsin aumentou ao invés de desaparecer.
Anayê e Fenrir observavam em silêncio e cheios de dúvida e anseios sobre a relação do homem tatuado com o ceifador de tapa-olho. Ambos só tinham conhecido um feiticeiro durante o caso no Ribeiral e o dito cujo era, na verdade, um charlatão.
— O que deseja? — Heitor perguntou.
— Bem, isso é difícil de explicar — Kelsin começou dotado de teatralidade.
O jeito refinado, os gestos calculados e a falsa cordialidade do sujeito lembraram a Anayê de Oscari, o conselheiro do rei de Skell.
— Em resumo, preciso lutar com você para tomar uma decisão — o feiticeiro revelou.
Heitor franziu o cenho.
— Você quer lutar comigo?
Kelsin concordou com a cabeça.
Heitor soltou uma risada descompensada e depois caminhou na direção do sujeito.
— O que vai fazer? — Anayê indagou.
O ceifador ergueu a mão e falou:
— Fiquem de fora. Essa é uma ótima oportunidade para mostrar-lhes como um ceifador de verdade luta.
Fenrir e Anayê encararam, preocupados e confiantes ao mesmo tempo. Desde então tudo o que presenciaram do poder de Heitor tinha sido a sua breve participação na eliminação de Elchor.
— Isso foi bem rápido — Kelsin pontuou.
— Nunca fujo de uma briga — Heitor disse parando a alguns metros do feiticeiro.
Uma luz tímida do sol passou por uma brecha entre as nuvens iluminando os rivais diante da ponte.
— Algo mais que eu deva saber? — o ceifador indagou. — Alguma regra? Algum recado para enviar a ordem depois que você perder?
Kelsin sorriu.
— O senhor é mais divertido do que o anterior. — E então o semblante do feiticeiro brilhou de modo malicioso. — Será que vai implorar mais também?
Fenrir estremeceu. A dor nos ossos parecia pequena perto da conclusão que atingiu naquele instante. Ele concluiu algo terrível sobre si, ainda não estava preparado para entrar num combate outra vez. Não apenas pela dor, mas pelo medo.
Por outro lado, Anayê também sentia receio. Depois da briga com Elchor e a quase morte de Fenrir, ela não queria mais subestimar qualquer inimigo, por mais inofensivo que parecesse.
— Garoto, você não me mete medo — Heitor retrucou e flexionou os ombros. — Tem noção de quantas aberrações mais feias e poderosas eu já enfrentei?
— Soube que uma quase lhe arrancou o olho — Kelsin comentou se divertindo.
— Ah, sim… aquela foi uma batalha espetacular — Heitor disse, imaginativo. — Lutamos a noite inteira sem parar. Sangue, fogo, gritos… — A curva do sorriso aumentou. — Mas, no fim, alguém tinha que cair.
— História interessante.
— Será que você me dará uma história parecida?
Kelsin esfregou as mãos.
— Pode crer que sim.

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