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    11 de abril de 2024, quinta-feira.

    Victor acordou logo cedo, antes mesmo do despertador soar. Ao conferir o horário no celular, percebeu que ainda era cedo. Ele se espreguiçou, ainda deitado. 

    Virou-se para o lado e viu Aki encolhida sob o lençol, com um braço apoiado debaixo do travesseiro e a respiração tranquila e os cabelos desgrenhados caídos sob o rosto. Ele sorriu, resistindo ao impulso de chamá-la imediatamente, e a observar, em silêncio, por alguns momentos.

    “Vou acordá-la quando o despertador tocar.”

    Após sua rotina matinal, inclusive tomar um banho para se sentir mais revigorado, acabou optando por um visual mais casual do que no dia anterior: calça jeans escura, camisa polo cinza e tênis pretos. Sabia que, antes de qualquer discurso, teria de lidar com o “trabalho de bastidores” do evento, e não queria se limitar com roupas formais demais.

    — Hm… Já acordou? — A voz sonolenta da garota veio da cama, quando ele saiu do banheiro. 

    — Já. — Ele conferiu o horário. — Você pode dormir mais um pouco se quiser, ainda temos tempo. Eu só estou me adiantando, mas ainda vou ler alguns arquivos sobre a associação. — Explicou. 

    Ela se sentou na cama, com os cabelos bagunçados e os olhos piscando lentamente, como se hesitasse entre sair da cama ou continuar ali. 

    — Essas viagens são cansativas. Como você consegue dormir tão pouco e ficar tão bem? — Comentou, num tom de incredulidade. 

    — Talvez seja… — Ele pensou um pouco, se aproximando da cama e sentando. — Costume? 

    Ele afirmou, num tom de pergunta. Ela, por sua vez, deu um sorriso e deitou, com os braços abertos e a barriga pra cima, de olhos fechados, com uma mecha do cabelo tapando seu rosto.

    — Estou exausta… — Murmurou, de forma preguiçosa e manhosa. 

    Quando abriu os olhos, se surpreendeu com o rosto de Victor já muito próxima do seu:

    — Não precisa levantar agora. Vamos nos encontrar na associação dez horas. Ainda são sete e vinte. Eu te acordo às oito e meia. Você vai ganhar mais de uma hora de sono. — Propôs, afastando uma mecha e depositando um beijo na sua testa. 

    Ela piscou, com um sorriso no rosto: — Você vai me deixar mimada se continuar assim… — Brincou. 

    — Eu acho que você já está… — Respondeu, num tom provocativo e brincalhão. 

    Ela então agarrou ele pelo pescoço, fazendo com que ele se desequilibradas e caísse na cama, ao seu lado, envolvida pelos seus braços: 

    — Bobo! Agora está preso! — Exclamou, de forma acusatória. Mas caiu na risada antes de terminar o papel. 

    — Está bem animada, em… — Victor murmurou. Após dar-lhe um beijo: — Está ansiosa? 

    — Muito… mas uma soneca iria fazer bem. — Ela bocejou, enquanto se espreguiçava. — Me acorda às oito e meia, então? — Pediu e ele concordou. 

    Ela virou para o lado, embora achasse que seria difícil voltar ao sono, ainda mais depois daquela cena de agora pouco. Sua atitude em agarrá-lo fez seu coração ficar inquieto e acelerado. 

    “Por que fui brincar assim?!” — A pergunta ecoava interiormente. 

    A japonesa não demorou até que, realmente, pegou no sono novamente. Aproveitando o momento, Victor sentou-se na mesa e abriu o notebook, acessando um relatório enviado para ele recentemente pelo senhor Paulo, com informações gerais da associação e do evento. 

    “Está tudo já bem organizado. Mas eles optaram por botar a mão na massa do que contratar uma empresa para isso…” — Ponderou, analisando parte do texto. “É uma ONG, afinal…”

    O tempo passou um pouco mais rápido do que percebeu e o barulho do alarme ecoou, despertando-o de sua atenção concentrada na tela. Levantou o olhar, desviando-o do computador, e encontrou Aki ainda entregue ao sono.

    Ela estava deitada de lado agora, virada para a janela, o lençol enrolado de maneira displicente pelas pernas, como se tivesse travado uma pequena luta com ele durante aquele cochilo. Por conta do calor que fazia, a colcha mais pesada permanecia dobrada aos pés da cama.

    O pijama, um conjunto leve de algodão azul-escuro com pequenas flores brancas, estava um pouco amarrotado, denunciando suas viradas de um lado para o outro. A barra da blusa subira discretamente, revelando um pedaço de pele clara na altura da cintura. Os cabelos, soltos, caíam parcialmente sobre o rosto, misturando-se à sombra projetada pela luz que entrava pelas frestas da cortina.

    Victor sorriu sozinho, percebendo como aquela desorganização toda tinha seu encanto. Ela respirava devagar, num ritmo quase hipnótico, e, de vez em quando, fazia um leve movimento com os lábios, como se estivesse prestes a dizer algo, mas recuasse para continuar sonhando.

    Desejou que ela continuasse daquele jeito, e o desejo de tirar uma foto veio novamente. Ele negou, mas ainda admirava aquela tranquilidade e serenidade que ela transmitia ali, mesmo sabendo que, dentro de pouco tempo, a correria do dia tomaria conta dos dois.

    A brisa que vinha da janela misturava-se ao cheiro suave do sabonete dela, e, por um momento, ele se perguntou como a vida poderia ser tão simples, tão boa e tão complicada ao mesmo tempo. Por que tudo não se resumia àquela tranquilidade, apenas? 

    Respirou fundo, ajeitou uma mecha que cobria o rosto dela e, com um toque leve no ombro, chamou baixinho:

    — Aki… está na hora. Vamos. 

    Ela ainda resmungou algo, virando para o outro lado, antes de realmente despertar do sono. Ela se sentou. 

    — Bom dia…

    Victor estava ajudando na organização física da festa, enquanto Aki estava ajudando algumas voluntárias a encher e amarrar bexigas. Mesmo não falando português, ela tentava se comunicar, usando gestos e algumas palavras que lembrava, como “bom dia”.

    Duas das auxiliares sabiam falar um pouco de inglês e elas tentavam se entender. Quando Victor passou por ela e observou aquela cena, riu, feliz, sentindo que ela estava se esforçando para ajudar no evento. 

    Um sentimento melancólico o atingiu, pensando: “Como pude deixar isso de lado por tanto tempo? É inacreditável o que o luto pode fazer com a gente…” — Ponderou, mas não deixou isso o abalar, mantendo sua responsabilidade e ajudando uma equipe de voluntários a carregar algumas caixas mais pesadas. 

    Ao término dessa tarefa, ele pôde ver Aki, dessa vez, cercada por três crianças, que gesticulavam animadamente, segurando bexigas em mãos, enquanto, aparentemente, uma das ajudantes tentava lhe explicar o que as crianças falavam. Seu coração foi inundado por um sentimento quente e reconfortante. 

    A entrada já estava decorada com um arco de balões amarelos e brancos, enquanto dentro do salão principal várias mesas redondas começavam a ganhar toalhas coloridas. Já estava quase na hora do início do evento e tudo sob controle. 

    — Vocês vão se arrumar aqui ou no hotel? — Marina perguntou, se aproximando. 

    — Não trouxemos roupa. Ficou tudo lá. Ou seja, vamos nos arrumar lá.  — Victor explicou.

    Depois de um breve diálogo, eles se despediram. Chegando ao quarto, após alguns minutos, estavam escolhendo com qual roupa voltariam ao evento. 

    Aki optou por um vestido de tom azul escuro, médio, de mangas curtas e se trocou no banheiro, após um banho. Certificou-se de pegar o seu colar, que alinhava o pingente no decote do vestido; um par de brincos delicados com pedrinhas brancas; seu anel; e a pulseira de miçangas. Tirando os acessórios da orelha, todos os outros tinham um grande valor sentimental para ela. 

    Victor pegou uma camisa social branca, calça social preta e sapato preto. Ele ajeitou a fita e a pulseira, antes de, finalmente, conseguirem sair do quarto e voltarem à sede da associação.

    Ao chegarem, foram recebidos por vários colaboradores e “funcionários”, inclusive parceiros de outros projetos. A maioria o cumprimentava e fazia um comentário de algo como: “que bom que você voltou”, “a “Brilho Feliz” precisa mesmo de você”, dentre outros.

    Um dos convidados era um vereador, de nome Denilson, dono de um projeto muito importante da região, sendo uma boa parceria da “Brilho Feliz”. Outro, chamado José Geraldo, era um microempresário, que dispunha do seu empreendimento para ajudar em um dos núcleos da “Brilho Feliz”. E assim, com vários “pequenos”, no fim, se tornava algo “grande”, que ajudava muitas e muitas famílias. 

    Victor, embora tivesse passado por momentos de recaída, agora enxergava com clareza o valor de cada pequena engrenagem que mantinha todo aquele sistema em movimento. Sabia que nada daquilo funcionaria sem pessoas e empresas comprometidas nos bastidores.

    Seus olhos varreram o salão até pousarem sobre uma figura que ele fazia questão de encontrar naquela noite: senhor Ronaldo, um dos empresários mais influentes ligados à Brilho Feliz. Além de ser um apoiador de longa data da associação, Ronaldo era o fundador da TransGlobal Brasil, ou simplesmente TGBs — uma gigante do setor de logística internacional.

    O trabalho da TGBs ia muito além dos negócios. A empresa fornecia transporte gratuito ou com grandes descontos para a distribuição de cestas básicas, roupas e suprimentos às comunidades atendidas pela Brilho Feliz. Era um apoio vital, que fazia a diferença no alcance e na agilidade das ações sociais.

    Para Victor, porém, havia também um propósito estratégico. Ele via, naquele encontro, a oportunidade perfeita para propor algo ambicioso: expandir a presença da TGBs no mercado asiático, utilizando os eventos internacionais da Elegance Affairs como porta de entrada e vitrine para novos negócios.

    Na primeira oportunidade, ele avançou até aquele homem, que tinha uma característica física marcante: sua careca quase lustrosa. Apesar disso, todos os envolvidos, principalmente na “Brilho Feliz”, respeitavam-o grandiosamente. 

    — Boa noite, senhor Ronaldo. Há quanto tempo! — Victor o cumprimentou, se aproximando, estendendo a mão para um aperto profissional. 

    — Caramba, quanto tempo eu não te vejo, Victor! Como você está?! — O homem se levantou, o cumprimentando, com um sorriso caloroso. — Como andam os negócios? E quem é essa moça bonita? 

    — Essa é Aki, minha namorada. Se o senhor não se importar, podemos conversar em inglês, para deixar ela a par da situação? Ela não fala português. 

    — Claro. — Respondeu, no outro idioma. 

    A conversa então seguiu, com Victor explicando toda a sua trajetória desde o fatídico dia de alguns anos atrás. Afinal, seu objetivo era se aproximar de Ronaldo e queria que ele entendesse todos seus motivos e ambições. 

    Foram alguns minutos de conversa, com Aki se surpreendendo pontualmente em alguns momentos. Victor detalhou alguns pensamentos e intenções, que até ali, ela não sabia, como quando ele realmente tentou contra si mesmo, tomando uma dose muito acima do recomendado de medicamentos. 

    Ela sentiu uma dor aguda no peito, como se uma lâmina a perfurasse. Ouvir o relato de seu namorado, mesmo agora, era doloroso. Só de imaginar todo o sofrimento, tudo que suportou e passou, chegava a ser agoniante.

    “O Victor realmente foi muito forte! Me sinto muito honrada em ser sua namorada!” — Aki pensou, enquanto ele continuava contando mais detalhes naquela mesa. 

    Porém, mesmo que quisesse, Victor, como fundador da “Brilho Feliz”, ainda precisava ser um bom anfitrião e dar atenção aos demais. Então, pegou o contato do senhor Ronaldo e se retirou, já deixando, antecipadamente, sua ideia esboçada. Pelo menos da primícia, ele havia se interessado, falando que parecia uma boa oportunidade. 

    Continuou passeando por entre as mesas, cumprimentando várias pessoas e trocando palavras rápidas, até que se encontrou com outro convidado que queria, mais especificamente, uma mulher: Rafaela. 

    Ela tinha cabelos médios, castanhos e lisos, com cílios destacados e olhos castanhos. Sua pele cor de jambo combinava perfeitamente com seu vestido vermelho, social,  midi, justo ao corpo. 

    — Olá, Victor! Há quanto tempo! — Ela cumprimentou, logo se levantando e dando um abraço em Victor, seguido por dois beijinhos no rosto. 

    — Aki, essa é a Rafaela, uma amiga da família. E Rafaela, essa é a Aki, minha namorada. 

    — Você é muito bonita, Aki. — Rafaela respondeu em inglês, quando percebeu que Victor as apresentou nesse idioma. — E você está morando no Japão, não é? 

    — Sim, estou morando lá. Bom, como você sabe, passei um período turbulento. Mas agora eu estou de volta. E queria te propor algo. Esse encontro foi uma ótima oportunidade. 

    — E o que seria? — Ela se inclinou levemente para o lado, apoiando a mão na mesa. 

    Enquanto conversavam, após se sentarem, Tábata se aproximou da mesa e os cumprimentou. 

    — Ei, Aki, pode me dar uma mãozinha ali na cozinha? — Tábata pediu, com Aki cedendo e a acompanhando. 

    “Parece que elas vão se dar bem…” — Victor pensou e logo voltou a atenção para Rafaela. 

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