Capítulo 125 | O Silêncio da Deusa(1)
O sol da manhã entrava pelas frestas das janelas de madeira e iluminava as partículas de poeira que flutuavam sobre a mesa de jantar. Havia pão fresco, queijo de cabra e uma tigela de azeitonas. Aylla, esposa de Átalo, falava sobre os preparativos para o mercado e a necessidade de comprar tecidos novos, em um tom de voz animado. Átalo, no entanto, mantinha os olhos fixos no prato de cerâmica. Ele mastigava o pão lentamente e, sempre que ela terminava uma frase, ele esboçava um sorriso rígido, movendo apenas os cantos dos lábios.
Do outro lado da mesa, Hermes mantinha as costas eretas e os braços cruzados, encarando Átalo sem desviar o olhar ou mesmo piscar. O silêncio do mensageiro era uma pressão física no ambiente. Quando Átalo finalmente levantou a cabeça e seus olhos encontraram os de Hermes, ele parou de mastigar. Sua pele ficou mais pálida e ele permaneceu imóvel por alguns segundos.
Átalo empurrou a cadeira para trás num ruído seco contra o chão de pedra. O movimento interrompeu a fala da esposa no meio de uma frase sobre o preço do linho. Ele limpou a garganta e passou a mão pelo pescoço, onde a sombra da espada de Hermes estivera na noite anterior.
— Eu devo um pedido de desculpas a vocês — começou Átalo num tom de voz firme e profundo, mais formal e diferente do que mantinha antes com seus convidados. — Eu não fui sincero sobre quem eu sou.

Sêneca parou com a taça de água a meio caminho da boca. Magno estreitou os olhos, parando de descascar uma fruta.
— Meu nome é Átalo — continuou ele, olhando para a esposa, que agora o encarava com uma expressão de total confusão. — Sou o príncipe primogênito de Pérgamo. Eu saí do palácio há meses e todos acreditam que estou morto ou desaparecido. Recebi vocês nesta casa não apenas por hospitalidade, mas porque precisava de uma fachada. Meu plano era usar a presença de estrangeiros para criar uma distração e escapar desta cidade com minha esposa.
Sêneca colocou a taça na mesa com o cenho franzido e a boca entreaberta. Magno soltou um estalo com a língua, em reprovação. Hermes continuou imóvel.
— Rogo perdão — repetiu Átalo. — Nunca foi minha intenção causar-lhes dano algum.
— E qual era o seu plano exato? — a voz fria de Hermes cortou o silêncio pesado que se instalara. — As estradas para o sul foram destruídas pela floresta. Navios são raros agora. Como você pretendia sair daqui apenas usando a nossa presença?
Átalo respirou fundo.
— O plano era simples. Minha esposa iria até os guardas do palácio e afirmaria ter visto o príncipe Átalo entrando na floresta leste. Isso forçaria o exército a concentrar todos os homens e ferramentas naquela área, cortando a vegetação de forma incessante para me encontrar. Eles abririam um caminho antes que a floresta pudesse se regenerar. Nós aproveitaríamos esse corredor para fugir para o sul antes que a farsa fosse descoberta.
Magno soltou uma risada curta e seca.
— Que genial. Os trabalhadores achariam essa uma ótima ideia. Eles dizem que cortam um galho e dois crescem no lugar antes de o sol se pôr. — Gesticulando com a faca que tinha em mãos e com parte da boca obstruída por uma lasca de maçã que havia acabado de morder, ele completou. — Não há força humana, nem exército, que consiga manter um caminho aberto naquela mata. Você seria engolido pelas raízes em uma hora.
Átalo assentiu, sem contestar.
— Eu percebi isso. Por isso tenho ido ao Templo de Afrodite todas as noites. Eu rezo para que ela abençoe nossa fuga. Para que o amor que sinto por minha esposa seja o escudo que nos permita passar pelas árvores sem que qualquer mal nos atinja. Eu peço que ela nos permita viver longe desta cidade.
Hermes deu um riso curto, debochado.
“Se ele bem soubesse como ela preferiria que eles se perdessem lá dentro.”
— E ela respondeu?
O olhar de Átalo se dirigiu a Hermes com fervor e certeza.
— Sim — sua voz gozava de ampla convicção. — Eu a ouço. Sempre que rezo diante daquela estátua, eu ouço a voz dela.
Hermes crivou as sobrancelhas com os olhos mais abertos do que conseguia notar. Descruzou os braços e se inclinou para a frente. Ele analisou cada músculo do rosto de Átalo, procurando por sinais de mentira, insanidade ou uma piada de mau gosto. O príncipe sustentou o olhar e a expressão firme.
— Isso é impossível — afirmou Hermes de forma categórica. — Afrodite não atende mais aos mortais. Ela e Eros tiveram uma briga severa e, desde então, ela se retirou do contato direto. Ela não responde orações há mais de cem anos.
Sêneca, que estava em silêncio, interveio:
— Talvez eles tenham se reconciliado, Hermes. O tempo passa de forma diferente para os deuses.
Átalo olhou de um para o outro, confuso. Ele não sabia se seus convidados eram homens de fé extrema ou se estavam apenas zombando de sua situação. Sêneca levantou-se da mesa.
— Preciso ir — disse o velho. — Encontrei um registro na biblioteca que pode mudar o rumo da nossa jornada. É um livro que trata da natureza do que estamos enfrentando.
Hermes ergueu uma sobrancelha para Sêneca e acenou positivamente. Magno também se levantou e limpou as mãos na túnica.
— Eu também tenho coisas a investigar — disse o gatuno. — Agora que sei que o Sávio é o príncipe, algumas peças do que ouvi nas tavernas começam a fazer sentido.
Antes que Magno passasse pela porta, Átalo se colocou à frente dele. O príncipe tinha agora uma postura de realeza, os ombros largos e o queixo erguido.
— Magno, peço que não revele nada do que ouviu aqui a ninguém na cidade — solicitou Átalo com seriedade.
Magno estalou a língua no céu da boca e revirou os olhos.
— Por que todos embaixo dos céus acham que eu sou o idiota que vai sair causando problemas por aí? — resmungou ele, enquanto saía da casa.
A porta se bateu com um estrondo atrás dele.
Hermes olhou para Átalo e para Aylla atrás dele, que ainda parecia em choque.
— Não se preocupem com ele — disse Hermes. — Magno é o idiota mais confiável que vocês encontrarão em toda a Grécia.

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