Índice de Capítulo

    Calixto ouviu os passos de Teseu e Licaão se afastarem e escolheu não comentá-los.

    A linha de defesa manteve a posição por mais dez minutos de silêncio. Os soldados começavam a sentir o peso da espera — a tensão dos músculos ao segurar o escudo sem ter nada para bloquear, a imaginação que preenchia o silêncio com tudo o que não aparecia. Um soldado mais jovem ao centro da linha limpou o suor do rosto com o dorso da mão. Outro respirou fundo e soltou o ar devagar.

    Então a figura saiu da mata.

    Veio sozinha. Sem arma. Com o passo tranquilo. A tocha da muralha iluminou o rosto quando ela se aproximou o suficiente.

    Silvo se levantou na plataforma.

    — Essa não é… — A surpresa na voz dele era real. — A curandeira do assentamento?

    Os homens na linha trocaram olhares. Alguns abaixaram as lanças por instinto — era a curandeira, era Mines, a mulher que havia passado dias entre eles, que conhecia os nomes dos filhos de cada soldado, que tratava ferimentos com um sorriso no rosto, que falava com calma e movia as mãos com leveza.

    Calixto estreitou o olhar. Não abaixou a espada.

    — Silvo… — Ela chamou, com uma intenção estranha na voz.

    Silvo sentiu um arrepio e rangeu os dentes.

    — Portão fechado. — ele gritou para o grupo abaixo com firmeza. — Ninguém abre.

    Mines parou a vinte metros do portão. Ela ergueu os olhos para a plataforma e encontrou o olhar de Calixto com uma naturalidade e leveza que contrastava com a tensão de todos os outros. O sorriso que apareceu em seu rosto trouxe um arrepio para a linha de soldados. Mais largo que sempre. Sem o calor usual.

    — Calixto. — A voz de Mines atravessou a distância com clareza antinatural, sem o desgaste do ar entre elas. — Você sempre foi perspicaz. É uma pena que a perspicácia chegue tarde demais.

    Theo colocou a mão no ombro de Calixto.

    — O que está acontecendo? — Ele disse, baixo.

    — Não sei. — Calixto avançou dois passos na plataforma sem tirar os olhos da figura à frente. — Mas não é a mesma mulher.

    Mines levantou a mão direita com a palma aberta. No centro da palma, algo brilhou por uma fração de segundo; escuro, estranho, aprofundava-se como um buraco de escuridão na mão da mulher. O brilho pulsou uma vez no centro.

    Então, a escuridão se expandiu de repente, direto da mão de Mines. Para todas as direções.

    A noite caiu.

    Total, súbita, absoluta. As tochas se apagaram todas de uma vez, como se algo houvesse sugado o ar de cada chama simultaneamente. A lua desapareceu. As estrelas sumiram. A escuridão que cobriu Nova Arcádia tinha uma densidade que a escuridão comum de noites sem lua nunca produziu. Ocupava o espaço entre os objetos de uma forma que tornava o ar espesso, pesado, desorientador.

    A linha de defesa entrou em colapso imediato. Confusão. Homens que não viam o escudo ao lado, que não identificavam a voz do comandante a dois metros, que escutavam os próprios passos e não os distinguiam dos de outros.

    — Segurem a linha! — A voz de Theo dominou o caos. — Escudos juntos! Se você sente o escudo do companheiro, você está no lugar certo!

    — Acendam tochas! — Calixto desceu a plataforma às cegas, com a mão no corrimão de madeira. — Silvo! Onde está Silvo?

    — Aqui. — A voz do batedor soou a um metro dela. — Não consigo ver quase nada. O que está acontecendo?

    — Quase? — Calixto fechou os dedos no braço dele. — Fique comigo. Você é meus olhos. Não consigo enxergar absolutamente nada.

    Silvo arregalou os olhos e encarou sua superior com tensão.

    Do outro lado do portão fechado, o chão começou a tremer. Pesado, com um longo espaço entre os impactos, como se as criaturas do outro lado tivessem massa maior ou pressa menor, ou os dois. O portão rangeu contra os ferrolhos. As tábuas de madeira flexiram.

    Silvo ergueu os olhos e forçou a visão contra a treva quase absoluta que caíra sobre o acampamento.

    — Theo. — Calixto gritou na direção da voz do comandante. — Alguma coisa está chegando!

    — Eu sinto. — A resposta chegou seca, focada. — Lanças para frente. O que não consegue ver, escuta.

    O portão cedeu. A madeira no centro apodreceu de uma só vez, como se algo a houvesse consumido em segundos por um toque externo. A abertura revelou a escuridão do lado de fora, idêntica à de dentro.

    Então, uma gota de suor escorreu da nuca arrepiada de Silvo, no exato instante em que Nesso entrou.

    A cabeça apareceu primeiro — larga, com cabelos negros e longos que caíram sobre ombros que pertenciam a outra escala de criatura. Os olhos eram vermelhos, com a luminosidade de brasa de animal noturno. O tronco humano sobre o corpo equino curvou-se para passar pela abertura do portão destruído, e quando Nesso se endireitou dentro dos muros de Nova Arcádia, o teto de nenhuma construção do assentamento o teria comportado. Quatro centauros menores cruzaram o portão logo atrás, em silêncio.

    Mines avançou pelo portão estourado e se pôs ao lado da monstruosidade. Sua mão erguia-se à altura do peito com um vácuo obscuro a agitar-se sobre ela.

    Ao redor das pernas de Nesso, as sombras se moviam. Formas baixas e amorfas que se deslocavam rentes ao chão sem fazer som, sem deixar rastro visível — criaturas compostas de escuridão que se separavam da escuridão maior por terem intenção própria. Elas se espalharam pelas ruas de Nova Arcádia em silêncio, cada uma delas seguindo um rumo. Ninguém parecia ver ou ouvir nada ao redor. Exceto pelo paralisado Silvo.

    A voz de Mines veio de algum ponto dentro das muralhas, invisível na escuridão.

    — A espada de Arcádia. Nada mais. — mantinha um ar compadecido, quase materno, mas guardava sob cada frase um sorriso ardiloso. — Aguardem a entrega da arma e pouparemos o assentamento.

    Ninguém respondeu.

    Theo apertou o punho sobre o cabo da espada, fechou os olhos e caminhou até o centro de seus homens.

    O rosto de Nesso se curvou grotescamente sob a forma de um sorriso amarelo.

    O primeiro centauro avançou.


    O mundo ficou completamente escuro enquanto Plutarco conduzia o último grupo de civis até a entrada das câmaras de pedra.

    Ele ficou parado no meio da rua com as mãos estendidas à frente, sem ver nada. Ao seu redor, os civis que ainda não haviam entrado na câmara reagiram com gritos abafados. Crianças choraram. Alguém caiu. Lycomedes gritou ordens lá de dentro com a voz que não vacilava mesmo quando o chão sumia sob os pés.

    Plutarco entrou na câmara e ficou junto à parede de pedra até que Lycomedes o alcançou no escuro pelo toque.

    — Todos dentro? — O administrador perguntou.

    — Acho que sim. — Plutarco não tinha certeza. Não conseguia ver a entrada.

    — Fique aqui.

    — Lycomedes. — Plutarco segurou o pulso do homem antes que ele se afastasse. — Teseu está lá fora.

    O silêncio de Lycomedes durou um segundo.

    — Eu sei. — E ele foi.

    Plutarco ficou onde estava pelo tempo que levou para entender que ficar não era o que pretendia fazer. Depois, caminhou até a saída às cegas, com a mão na parede de pedra como guia, e saiu para a rua.

    A escuridão na rua era a mesma. Os sons do combate chegavam da direção norte — golpes de metal, o estalo surdo de escudos, as vozes de Calixto e Theo que ele reconhecia pelo ritmo mesmo sem entender as palavras. Uma pausa breve, depois um impacto que fez o chão vibrar sob os pés. O estrondo de algo grande.

    Plutarco virou as costas para o som e caminhou na direção da encosta.

    Ele bateu no ombro de alguém no escuro antes de vê-la.

    O brilho azul apareceu à altura do peito de Sophia. A flor de erva-da-lua que ela segurava na palma iluminou um metro de chão e o rosto da garota ao mesmo tempo. Ela havia parado ao sentir o impacto e o encarava com os olhos arregalados, a mão da flor recuada por instinto protetivo.

    — O escriba… — A surpresa na voz dela durou um instante.

    — Sim. — Ele ajeitou a bolsa de pergaminhos no ombro e olhou para a mão iluminada da garota de canto. — Minha querida… Faria o prazer de me acompanhar no resgate do pequeno Teseu?

    Sophia demorou a responder. Olhou em volta, então a própria mão, assentiu e caminhou.

    A base da encosta apareceu como uma parede de sombra sólida. Sophia ergueu a erva-da-lua e o brilho azul revelou o que a escuridão escondia — raízes. Grossas, vivas, emergidas da rocha em intervalos que formavam degraus irregulares mas firmes. A parede inteira coberta de madeira viva que vibrava com uma energia baixa e constante.

    Plutarco tocou a raiz mais próxima com dois dedos. A superfície estava morna.

    — Pelos deuses. — Ele murmurou, então rangeu os dentes. — Aquele selvagem fez o garoto usar seus poderes enquanto ferido!

    Levou a mão ao cinto onde a pena ficava. Depois a baixou. Havia momentos em que a anotação esperava.

    — Isto é digno de um épico!

    Sophia já colocava o pé no primeiro degrau. A luz que se afastava logo inviabilizou as anotações, então, ele as guardou na memória e seguiu.

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