Índice de Capítulo

    O sol começou a se pôr e tingir o céu com tons de laranja escuro e roxo.

    Os guardas já preparavam as correntes para fechar as pesadas portas de madeira. O grupo atravessou a saída pouco antes do fechamento.

    Eles caminharam cerca de trezentos metros para longe da muralha e encontraram um espaço plano de terra próximo a um pequeno córrego. O som da água corrente era o único ruído além do vento nas folhas.

    Teseu juntou galhos secos caídos perto das árvores e formou uma pequena pilha no centro do acampamento. Usou uma pederneira e bateu a pedra contra o aço repetidas vezes até que as faíscas incendiassem a folhagem seca na base da pilha. 

    O fogo crepitou e iluminou os rostos dos três.

    Plutarco abriu a bolsa, tirou um pedaço de pão duro e quebrou em três partes. Ele entregou os pedaços para Teseu e Licaão. 

    — Considerando o que ouvimos na praça, essa criatura é perigosa — disse, mastigando o pão com dificuldade. 

    Ele engoliu e apontou para Teseu com o naco na mão. 

    — Com suas novas habilidades de comunicação animal, a tarefa não deverá ser difícil. Você pode usar sua mente para falar com a besta e pedir que ela deixe a estrada.

    Licaão engoliu sua parte do pão em duas mordidas, então olhou para Plutarco através das chamas da fogueira. 

    — O fato de elas o entenderem não significa que o obedecem, cronista.

    Plutarco coçou o nariz enquanto olhava para as chamas.

    — Ele fez isso com Ethon. A águia atendeu ao comando dele.

    — Uma águia domesticada pelos deuses não é uma fera territorial selvagem — Licaão respondeu. — Feras famintas e predadores não costumam fazer acordos de passagem.

    Ele virou para Teseu. 

    — Se a criatura tomou a estrada sul como seu território de caça, o instinto dela ditará ataque assim que pisarmos na zona de visão. Ela não vai escutar a sua voz na cabeça dela, garoto. Vai focar na carne do seu pescoço.

    Teseu espetou um galho na fogueira, empurrando uma brasa para o centro.

    — Com Ethon deu certo. Se não funcionar, nós lidamos com ela de outra forma.

    Licaão perdeu a atenção de repente.

    Ele virou o pescoço rapidamente em direção às árvores do outro lado do córrego. Seus músculos tencionaram. Ele apoiou as mãos nos joelhos e levantou o corpo ligeiramente do chão para ficar em posição de alerta.

    — O que foi agora? — Plutarco perguntou, parando de mastigar.

    — O mesmo cheiro de antes. — Licaão olhou fixamente para a escuridão absoluta entre os troncos das árvores. — Mais perto desta vez.

    Teseu levantou e puxou a espada curta da bainha por dez centímetros, a lâmina de metal brilhou. Ele andou até a margem do córrego e forçou a visão contra as sombras. 

    Não havia movimento. Não havia som de galhos quebrando. Havia apenas a água fluindo e a escuridão. Empurrou a lâmina de volta para a bainha com um clique metálico seco.

    — Faremos turnos de vigília apertados esta noite — Teseu anunciou e voltou para o fogo e sentou-se na terra fria. — Eu fico com o primeiro turno. Plutarco, você pega o segundo. Licaão, você faz o terceiro até o amanhecer.

    Ninguém contestou. Plutarco enrolou-se em seu manto grosso de lã e deitou-se perto da fogueira, apoiando a cabeça em sua bolsa.

    Licaão fez o mesmo no lado oposto, mas manteve o rosto voltado para as árvores do córrego. Demorou muito tempo para fechar os olhos.

    Teseu permaneceu sentado, enquanto mantinha o fogo aceso com pequenos galhos. Ele olhou para o céu sem nuvens, observando as estrelas brilhantes. 

    O silêncio da noite preencheu o acampamento.

    Ele esfregou os dedos da mão e sentiu a textura calosa de sua própria pele, e pensou novamente na natureza exata da escuridão que tocou em Mylae. Esperou  em silêncio a passagem das horas até o seu turno terminar.

    Em dado momento da noite, buscou de olhos fechados por um canal com a natureza. O som que vinha da noite, a brisa, a água. Ele as escutou, mas os sussurros não convinham para aquilo que queria.

    A Ninfa.

    “Por que se recusa a me contatar?”

    Era estranho.

    Apesar de pensar isso, e de certa forma isto até lhe tirar o sono, a impressão que lhe acompanhava e incomodava era a de que sequer havia qualquer contato. 

    Desde a voz que ouviu em Mylae, aquela que o ordenou a usar as vinhas da verdade, não havia ouvido uma única vírgula da ninfa. Parecia que ela estava longe demais para ouví-lo. Ou talvez…

    “Não!”

    Crack!

    Ele abriu os olhos e se levantou de pronto.

    A noite na mata o convidava a se aprofundar. Sua mão subiu lentamente ao cabo da espada. Ele respirou pausadamente, concentrado no respirar da própria floresta.

    Nada.

    Teria ouvido coisas.

    Vuush! Clack!

    Seus olhos se arregalaram e ele sacou a espada. O silêncio voltou como se nunca tivesse ido embora. A fogueira crepitava lentamente atrás de si.

    Por cima do ombro, fitou os dois colegas que dormiam. Com os olhos mais uma vez crivados no labirinto verde, respirou fundo.

    Avançou, a passos leves e curtos, com a espada em mãos.

    Os olhos atentos captavam toda a imensidão negra à frente com atenção. Farfalhantes, as folhas grunhiam acima quase como um aviso pérfido. A noite não parecia contente.

    Quando passou a primeira leva de árvores, parou.

    Tudo parecia normal. Quieto. Quieto demais.

    “Onde estão os esquilos? Os pássaros?” Seus olhos vagaram mais uma vez em direção a todos os cantos. Cada pedra, cada árvore, cada galho.

    Foi quando avistou.

    No casco de uma árvore, uma perfuração estranha. Aproximou-se com cautela extrema.

    De um buraco no tronco de um pinheiro, um líquido escorria.

    Uma camada fina de suor se formava na testa do rapaz. Seus dedos foram em direção ao corte e tocaram a substância. Espessa como seiva.

    “Talvez um esquilo?” Questionou-se. “Essa perfuração parece muito profunda…”

    Quando levou os dedos úmidos ao nariz, arregalou os olhos.

    — Acônito… — Sussurrou.

    Hiss… Hisss… Hiss

    Um ruído estranho surgiu em seus ouvidos. Com a mão firme na espada, contornou a árvore.

    Seu coração pulou uma batida quando ele viu, no chão, uma criatura de corpo alongado, retorcida sobre a raíz exposta da árvore.

    Uma cobra de cor negra, como ele nunca havia visto antes. O mais surpreendente, no entanto, era o fato de ainda estar viva com mais da metade de sua cabeça separada do corpo.

    Algo havia tentado decapitá-la, e quase conseguiu. Quase.

    Paralisado, a boca do rapaz se abriu lentamente enquanto ele dava um passo para trás.

    Mas os sussurros da cobra o fizeram parar. O sibilado grotesco que vinha da metade restante que ligava a cabeça ao corpo saía engasgado e sofrido.

    Teseu, que havia vivido por um ano em meio a essas criaturas, já não sentia medo algum. Aquela visão, pelo modo como a Ninfa o havia ensinado ser, deveria despertar a consternação.

    Agora ainda, ele entendia, ou melhor, sentia o que a cobra dizia. Isto era o pior de tudo.

    Olhou em volta mais uma vez, deu-se conta de que nada os acompanhava, e se aproximou da miserável criatura. Com sua espada em mãos, ele suspirou.

    Fechou os olhos e ergueu-a.

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