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    25 de maio de 2024, sábado.

    As pouquíssimas e quase imperceptíveis nuvens no horizonte não eram o suficiente para conseguir esconder os raios do majestoso sol dourado que raiava por detrás das montanhas da belíssima paisagem natural de Nagano. 

    Victor observava o nascer do sol da varanda enquanto aproveitava a leve brisa refrescante, temendo que, durante o dia, o calor fosse insuportável como previa a meteorologia. 

    Divagando sobre algumas horas atrás, um esboço de um sorriso que não se desenvolve totalmente permanecia em seu rosto, com seus olhos brilhando — talvez pela lembrança ou pelo brilho dourado que refletia nos seus olhos. 

    Em seus pensamentos via Aki sorrindo e a sensação do toque de seus lábios da noite anterior ainda permanecia com ele. 

    “Queria um pouco mais…” 

    Pensou em determinado momento. 

    Seu olhar varreu o cenário deslumbrante à frente até o alto, que nada mais era que uma imensidão azul com alguns rabiscos esporádicos de nuvens fracas sobrevoando ali. Imaginava que quando fosse meio-dia, mal conseguiria espiar naquela direção e provavelmente estaria com a sensação de estar derretendo. 

    “E ainda nem é verão…” 

    Ainda pensativo, não percebeu a aproximação de Aki, sempre tão cautelosa em seus passos. O seu corpo foi, de repente, envolvido pelos braços quentes da sua namorada, abraçando-o por trás. 

    — Bom dia, Victor! Sabia que estaria aqui!

    O coração inquieto no peito confirmava o pequeno susto… e pela presença dela também. 

    — Bom dia, Aki! Você acordou cedo hoje. — comentou, com um tom de provocação. 

    — Vai começar logo cedo? — protestou, em falsa indignação. O sorriso nos lábios denunciava a encenação e a risada de Victor em resposta apenas confirmava a cumplicidade. 

    — O dia está muito bonito! Nagano é realmente espetacular. 

    Aki já o havia soltado e agora estavam um do lado do outro, apoiados na grade de proteção da varanda. 

    — Sim. Essa vista me traz muitas lembranças da infância. Eu adorava ver o amanhecer. 

    Victor olhou para ela de canto, admirando aquele rosto sendo iluminado pela luz de tons quentes. 

    — E sempre ficava linda desse jeito quando observava ele? — Seu tom fingindo estar despretensioso. 

    Aki corou e o rubor foi visível nas suas bochechas, quando ela virou-se para ele com uma das mãos tentando tapar o rosto. 

    — Você faz isso de propósito! Aposto que quer me deixar com vergonha! Devo estar igual a um tomate! 

    Victor riu, a abraçando. 

    — Sim, é para te ver assim, toda fofa. 

    Por mais que a garota ficasse com vergonha, era inegável que adorava esses momentos ao lado de Victor. Desde as brincadeiras e comentários bobos, até esses elogios que a deixavam com o rosto queimando. 

    E para o brasileiro não era diferente. Embora pudesse dizer que era um homem maduro e vivido, esses momentos que somente o casal entende e aprecia eram os mais importantes para a intimidade dos dois. 

    Aquele momento significava algo essencial para eles: a cumplicidade e carinho. Quando finalmente mudaram de assunto, Victor comentou sobre estar pensando em preparar o café da manhã, porém, estava esperando ela acordar para que lhe ajudasse. Seguiram então para a cozinha. 

    Cercados por paredes brancas e utensílios organizados, começaram a preparar tudo que planejaram. Levou alguns minutos até que terminassem o preparo. Colocaram tudo à mesa e Aki foi chamar seus familiares. Todos se reuniram na mesa para a refeição matinal. 

    — Isso está maravilhoso! — Hana comentou com um sorriso largo. 

    — Foi o Victor que preparou. — Aki confirmou, apontando para o namorado. 

    — Bem… na cozinha, eu tento fazer o meu melhor. Acho que por isso fica bom. — respondeu, meio tímido, temendo que a última parte soasse esnobe. 

    — O irmãozão é igual um chef! — Haru exclamou com a boca cheia e as palavras saindo “mastigadas”. Quase não deu para entender a pronúncia. 

    Eles riram, mas foi repreendida por Shouto. A pequena fez beicinho e Aki e Fuyu ficaram ao lado dela, afagando os cabelos dela. 

    Shouto acabou rindo discretamente, quando comentou: “Por isso ela é tão mimada…”

    Em resposta, Fuyu e Aki responderam algo como “Mas ela é tão fofa.”

    O clima estava leve e divertido, quando um barulho chamou a atenção de todos.

    DING DONG!

    — O irmãozão Natsu chegou! — Haru correu, animada, para abrir a porta. 

    — Cheia de energia… — Victor cochichou com Aki e ela riu, balançando a cabeça em confirmação. 

    O irmão mais velho entrou e cumprimentou todos, exceto Victor, com um beijo e abraço. Quando chegou no brasileiro, apertou sua mão com um sorriso caloroso: — E aí cunhado! Ainda me sinto com vergonha de te abraçar, mas futuramente você não vai escapar do grande carinho do Natsu! Haha! 

    Com um sentimento de vergonha alheia, Haru o puxou pela camisa, arrastando-lhe de perto de Victor. “Não aja como um imbecil, Natsu!”

    A gargalhada foi genuína e generalizada. 

    Finalmente já havia se passado o lanche da manhã e eles estavam conversando agora. Todos estavam distribuídos na sala, alguns no sofá, mas Natsu e Victor estavam sentados no chão. 

    — Que calor é esse! E não são nem onze horas! — Victor exclamou em determinado momento, se jogando de costas no chão.

    — Está quente mesmo. A previsão é de que até uma hora esteja pior, se isso te consola. — Victor zombou, arrancando uma risada de Aki e Fuyu. 

    — Ah é, seu pestinha! Está do lado deles, né? — Natsu apontou o indicador para Fuyu, em afronta. — A Yumi já sabe que você tem medo de dormir no escuro? Bobão! 

    Fuyu estreitou os olhos, aceitando o desafio de ofensas.

    — Não, não sabe! Mas a Sayuri já deve saber que “O Grande Natsu” corre igual uma princesa indefesa quando vê uma barata. Hahaha! — Um momento raro de Fuyu, com uma risada quase escandalosa. 

    Os olhares estavam na discussão dos dois, principalmente por parte de Victor e Aki, que já sabiam das histórias e estavam se divertindo muito com aquele momento, mas durante um intervalo das ofensas, uma voz feminina soou, fazendo os dois irmãos sentirem um frio na barriga. 

    — Yumi? Sayuri? Quem são essas, em meninos? — Hana perguntou com um tom sério e incrédulo. 

    O casal de namorados trocou um olhar cheio de graça pela cena, aguardando em silêncio o desenrolar. Natsu foi o primeiro a tentar se justificar e começou a gaguejar, não falando nada com nada. Fuyu levantou e deu um cocão nele, mandando ele calar a boca e explicou para a sua mãe o que estava acontecendo. 

    Isso não amenizou o choque materno, indignada pelos filhos não terem contado das suas novas amigas, que eram amigas tão próximas de Aki e, possivelmente, interesse amoroso dos dois garotos. 

    — Está vendo, Haru? Não seja como esses dois patetas. Nunca esconda nada de sua mãe. — Hana falou com falso choro, mas verdadeiramente sentida pela ocultação de informação. 

    — Eu nunca vou esconder nada de você, mamãe! — Haru respondeu prontamente, pulando no colo dela. 

    — Boa menina! É assim que se faz! — Aki comentou, iniciando um movimento para acariciar a cabeça da caçula. 

    — Você não é o melhor exemplo, não é Aki?! — Natsu protestou imediatamente. — Aliás, nem o Victor. A mamãe já sabe do casamento?! 

    Aki congelou no lugar com a mão ainda no ar e olhou para o Victor procurando uma resposta, que estava tão perdido quanto ela. Que casamento? Do que Natsu estava falando? Eles não tinham falado nada além da pretensão de realmente realizarem a cerimônia. 

    — Do que você est… — Aki foi interrompida. 

    — Casamento?! — Shouto saltou do sofá, após alguns segundos de atraso, processando o que tinha ouvido.

    Natsu rolou no chão de rir da reação exagerada do pai e da cara de espanto de Hana, que não conseguiu dizer uma palavra, paralisada. 

    — Estou só brincando. Eles não estão escondendo nada. — confessou após alguns segundos. Porém, no fundo, percebeu que preferia ter ficado calado, quando o olhar fulminante do pai o encontrou. 

    Após levar uma baita bronca dos pais pela brincadeira, pois levaram um enorme susto, a conversa se normalizou. Hana foi até a cozinha preparar o almoço e Aki a acompanhou. Shouto precisou sair e levou Fuyu com ele, deixando Natsu, Victor e Haru sozinhos na sala. 

    Haru estava contando para os dois como estava sendo na escola e que estava participando de um projeto novo que apresentariam antes das férias de verão se iniciarem. A empolgação e animação era visível em seu rosto. Depois, foi a vez de Natsu contar um pouco de como tem sido seus últimos dias. 

    — Ei, irmão Natsu, essa Sayuri é bonita, né? — Haru perguntou, inocentemente, com os olhos brilhando. 

    Ele coçou a cabeça, desconcertado e com as bochechas levemente coradas. 

    — Bem, ela é sim. Ela é muito bonita. — respondeu. — Mas não somos namorados ainda. Ela é só uma amiga. — justificou, cometendo o mesmo deslize de Aki há um tempo atrás e ele percebeu isso, dando um tapa em si, pensando: “Idiota!”.

    — Acho que não deve demorar. A Sayuri não para de falar de você para a Aki. — Victor provocou. 

    Haru deu um salto do sofá, se colocando em pé. 

    — Oba! Vou ter uma irmãzona nova. 

    — Calma aí! Espera! Eu acabei de dizer que não somos namorados. 

    — Você disse “ainda”, bobão! — Haru mostrou a língua para ele, rindo. 

    O almoço ficou pronto depois de alguns minutos. Shouto já havia chegado junto com Fuyu. Inclusive, na conversa que tiveram pouco antes de se sentarem à mesa, Shouto reforçou o encontro com Victor à noite para beberem e, dessa vez, Natsu se manifestou, dizendo que queria participar. 

    A refeição foi servida e todos se saciaram. Victor ajudou Aki e Haru a lavarem a louça e arrumar a cozinha. Enquanto estavam finalizando a limpeza, Haru comentou: 

    — Irmã, está muito quente! Eu quero um sorvete. 

    Aki olhou para Victor e ele acenou, concordando. 

    — Não é uma má ideia! Vamos todos juntos tomar sorvete. O que acha? 

    — Oba! Eu quero! Vou lá chamar o irmãozão Natsu e o Irmãozão Fuyu! — Haru correu para a sala e contou a novidade aos irmãos. 

    — Ela realmente é cheia de energia… — Victor comentou, rindo.

    Os cinco caminhavam pela calçada, indo até a praça onde vendia os dorayakis da senhora Nanami. Dentre os vários carrinhos de lanche, um deles era de sorvete e funcionava durante o dia até o início da noite. 

    Victor, Natsu e Fuyu conversavam muito entre eles, indo uns três passos atrás de Aki e Haru, que caminhavam à frente de mãos dadas. 

    — Eles “estão” tão amiguinhos, né? O irmãozão Victor é demais. 

    Aki riu, feliz pela cena que presenciava. Enquanto isso, o papo do grupo de trás chegou em relacionamentos, quando Natsu perguntou: 

    — Vocês vão se casar quando? — Alto o suficiente para que Aki também ouvisse. Ela parou os passos e olhou para ele, pensativa, mas suas bochechas já estavam coradas.

    — Quando estivermos prontos, né, Aki? — Victor trocou olhar com ela, que assentiu. Mais algumas palavras foram ditas e já estavam caminhando de novo. 

    — Ei, Irmãzona, você não está preparada para casar com o Victor? — O olhar inocente de Haru carregava dúvida e ansiedade.

    — Para falar a verdade… — Aki se abaixou, como se contasse um segredo para ela. — Sim, eu estou. Se pudesse, me casaria hoje ainda com ele. Mas é mais difícil do que parece… 

    — Eu sinceramente não entendo. Se já está preparada… mas, enfim, acho que sou muito nova para entender isso. Relacionamentos amorosos parecem complicados. — Haru falou, convicta de suas palavras. 

    Aki caiu na gargalhada pela forma que aconteceu. Natsu perguntou o que tinha acontecido e ela respondeu apenas “nada”. 

    Chegaram, então, ao local. Sentaram num banco debaixo de algumas árvores, enquanto Victor, Fuyu e Haru foram buscar os sorvetes. 

    — Estou impressionado. O Victor está muito diferente. E ele é um cara muito legal. — Natsu comentou, despretensiosamente. 

    — Você ainda não viu como ele é incrível de verdade. — respondeu automaticamente. 

    — Viu? Você está apaixonadinha por ele! — Natsu provocou, mas a resposta da irmã o deixou sem graça. 

    Apesar do rubor nas bochechas ao falar as palavras, Aki tinha convicção plena delas:

    — Sim. Eu estou apaixonada pelo Victor. Eu o amo muito. Se fosse possível, me casaria agora com ele. — Ela tapou o rosto com as mãos. — Ah, você é um idiota! Me fez falar sem pensar! Que vergonha!

    Nesse momento, ela poderia jurar que estava saindo fumaça de seu rosto. “Ah, Haru, você me fez pensar demais nisso e acabei falando sem querer. Vou te pegar de cócegas, sua pestinha!” 

    Natsu caiu na gargalhada, dizendo para não se preocupar, que não ia caçoar dela por aquilo. 

    — Apesar disso, você não reagiu como eu esperava. Está ficando sem graça. — protestou o irmão. 

    Aki ponderou alguns segundos antes de responder: 

    — Para falar a verdade, irmão, eu não tenho motivos para esconder isso. Eu realmente gosto dele de uma forma que não sei explicar. Ele faz meu mundo ser muito mais divertido e colorido. E essa é a última vez que me abro para você. Não se acostume! — falou apressadamente no final. 

    Natsu sorriu genuinamente e afagou os cabelos dela: 

    — Você também é uma bobona. 

    Enquanto começavam uma mini discussão, o sorvete chegou. Eles sentaram e aproveitaram cada colherada da sobremesa gelada. Nesse momento, trocaram palavras simples, também contaram fofocas que ficaram sabendo e algumas expectativas familiares. Por fim, quando acabaram, voltaram para casa. 

    Victor e Aki ficaram um pouco mais apreensivos, já que tinham uma grande e importante decisão a se tomar mais tarde, em relação ao trabalho. Porém, isso não impediu de falarem com Natsu e Fuyu, a sós, sobre Sayuri e Yumi. 

    Os dois pareciam duas crianças falando das garotas e, tanto Aki quanto Victor pensaram algo como “estão apaixonados”. 

    Já estava por volta das dezoito horas, quando Victor ficou a sós com Hana e Shouto, após Natsu, Aki, Fuyu e Haru terem ido a uma loja de conveniência. O brasileiro aproveitou a oportunidade:

    — Senhor Shouto, senhora Hana, eu queria conversar a sós com você sobre um assunto. Podemos? 

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