Capítulo 149 | Pancrácio(1)
Hermes e o sileno mantiveram a guarda erguida no centro da praça. O silêncio predominava entre os espectadores. Magno engoliu em seco na lateral da arena, observando a diferença brutal de massa muscular entre os dois competidores. O ladrão deu um passo para trás e acenou com a cabeça, autorizando o início do combate franco.
Sileno flexionou as pernas grossas e disparou para a frente, utilizando todo o peso do seu corpo largo para gerar momento físico.
A criatura encurtou a distância em uma fração de segundo e desferiu um soco direto de direita, visando o centro do rosto do adversário. O punho enorme cortou o ar com um zumbido grave e audível.
Hermes via tudo com clareza, reconheceu a impossibilidade física de parar aquele volume de força. O deus inclinou o tronco para a esquerda e deslizou o pé direito pelo calçamento, saindo milimetricamente do raio de alcance do golpe.
O punho da fera passou a um centímetro da sua orelha.
Sem perder a estabilidade, Hermes pivotou sobre o calcanhar esquerdo e desferiu dois socos curtos e rápidos nas costelas desprotegidas do sileno. Mas o impacto resultou em um som oco.
A camada espessa de pelos, gordura densa e músculos rígidos absorveu a energia cinética dos golpes. O sileno não recuou um único milímetro.
Sileno girou o quadril e lançou um gancho de esquerda aberto, mirando a têmpora do humano, que se abaixou sob o braço do adversário e recuou três passos rápidos, reestabelecendo a distância segura.
Eles se encararam por um instante, respiravam profusamente.
O sileno bufou e avançou novamente, agora em uma sequência agressiva e contínua. Ele desferia golpes largos, cruzados e ganchos em sucessão rápida, forçando Hermes a recuar constantemente pelo calçamento rachado. O deus da velocidade esquivava-se com movimentos mínimos e eficientes, balançando a cabeça e o tronco de um lado para o outro.
Em um dos recuos, Hermes encontrou um pilar tombado às suas costas. O espaço de evasão acabou. O adversário percebeu a limitação espacial, plantou os cascos no chão e desferiu um soco frontal com força máxima, projetando todo o seu peso para esmagá-lo contra a pedra.
O rapaz abaixou-se em um movimento brusco e rolou para a direita. O punho do sileno colidiu em cheio contra o pilar de mármore maciço e o estilhaçou. Uma teia de fissuras espalhou-se pela superfície do pilar, e pedaços de rocha voaram pelo ar, levantando uma nuvem de poeira branca.
Aproveitando a guarda baixa do adversário após o impacto na pedra, Hermes saltou do chão e cravou um chute lateral direto na articulação do joelho direito da fera e, imediatamente após o contato do pé, desferiu um soco reto na base da garganta do sileno. A criatura engasgou, tossiu de forma áspera, mas não tombou.
A sua resistência física era aterradora.
Sileno girou o corpo com os olhos injetados e alterou o padrão de ataque. A fera fingiu um cruzado de direita longo e previsível. Hermes identificou a trajetória e esquivou-se para a esquerda, baixando levemente o ombro para preparar um novo contra-ataque na costela.
Foi um erro de cálculo induzido. O cruzado era apenas uma finta.
O balanço do braço direito parou no meio do ar, travou as pernas e disparou um gancho de esquerda vertical e perfeito, rasgando o espaço de baixo para cima.
Hermes não teve tempo de afastar o rosto ou erguer o antebraço.
O punho brutal da criatura colidiu em cheio contra o centro da face. O impacto monstruoso levantou o corpo de Hermes do chão, lançando-o para trás em uma parábola violenta.

Hermes voou por dois metros e atingiu o calçamento de costas, quicando na pedra antes de rolar até parar.
A visão do deus escureceu por um segundo inteiro. Um zumbido agudo ensurdecedor preencheu os seus tímpanos, abafando os gritos dos silenos e ninfas ao redor.
Hermes sentiu o sabor espesso de ferro inundar a boca. O seu nariz estava quebrado, completamente deslocado para a direita. O seu lábio inferior estourou contra os dentes, jorrando sangue vermelho e quente que manchou o seu queixo, o peito nu e a clâmide negra presa ao seu ombro.
Uma tontura severa embaralhou o seu labirinto. Ele apoiou as palmas das mãos no chão de pedra e forçou os braços a erguerem o seu tronco. O mundo girava. Ele cuspiu uma poça de sangue escuro no calçamento, piscou os olhos repetidas vezes para limpar a visão turva e forçou um dos joelhos a dobrar para apoiar o seu peso.
Sileno interrompeu o seu avanço. A criatura abaixou a guarda, olhou para os próprios nós dos dedos levemente ralados e, em seguida, olhou para Hermes se levantando do chão. A expressão da criatura mudou da agressividade cega para um choque genuíno.
— Um crânio mortal comum deveria ter rachado sob esse impacto. Como você ainda está de pé?
Hermespuxou o ar pela boca de forma ruidosa, pois as vias nasais estavam bloqueadas pelo sangue e pela cartilagem destruída. Ergueu o braço direito, segurou o próprio nariz quebrado com o polegar e o indicador e puxou o osso de volta para o centro do rosto com um estalo seco e nauseante. E
Depois, cuspiu mais sangue na pedra, estabilizou as pernas trêmulas, limpou a boca com as costas da mão e ergueu os punhos novamente, assumindo a posição de combate.
O anfitrião resolveu mudar a tática.
Abandonou a postura de socos francos, abaixou a cabeça e encurtou a distância de forma abrupta. Antes que Hermes pudesse esquivar ou recuar, o sileno chocou o o ombro contra seu peito e fechou os braços grossos ao redor do seu tronco.
Então,ergueu-o do chão, prendendo seus braços contra as próprias costelas num abraço brutal. A pressão foi imediata. Os músculos do sileno contraíram-se. O ar sumiu dos pulmões do adversário. O som das suas costelas a estalar sob a força monstruosa ecoou pela praça. O sangue que escorria do nariz quebrado do deus manchou os pelos do adversário. A força bruta da criatura ameaçava esmagar a caixa torácica mortal em poucos segundos.
Em desvantagem absoluta de peso e de alavanca, Hermes teve que pensar rápido. Aproveitou a mobilidade restrita dos seus antebraços aprisionados e subiu as mãos até ao rosto da fera.
Sem hesitar, cravou os dois polegares diretamente contra os grandes olhos amarelados do sileno.
A criatura urrou. O reflexo instintivo de proteção ocular forçou o guia a atirar a cabeça para trás e a afrouxar o aperto no tronco de Hermes por uma fração de segundo.
Hermes tocou o pé no chão e libertou o braço direito, deslizou o membro por baixo da axila esquerda do sileno e travou a articulação num gancho profundo e justo.
Num movimento contínuo e sem pausas, o deus girou o próprio quadril, deu as costas para o adversário e dobrou os joelhos, rebaixando o seu centro de gravidade até ficar abaixo da linha de cintura da fera.
“Não consigo vencê-lo com pura força.” Constatou.
Mas possuía uma técnica.
Bateu o quadril contra o abdómen do adversário e puxou o braço travado da criatura para a frente e para baixo com tração máxima. O centro de massa do sileno foi transferido e o seu corpo pesado foi catapultado pelo ar.
Descreveu um arco completo sobre o ombro de Hermes e chocou com as costas planas contra o chão de pedra maciça. O estrondo do impacto sacudiu a poeira da praça.
A força da colisão expulsou todo o ar dos pulmões do sileno num engasgo agudo, deixando a criatura estática e vulnerável sobre o calçamento rachado.

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