Agatha percebeu que Oliver estava hesitando.

    “Ei, garoto, o que foi? Parece que viu um fantasma.”

    O questionamento de Agatha tirou Oliver de seu estupor.

    “Desculpa, eu me distraí um pouco, normalmente não tem ninguém na cozinha a essa hora. O que aconteceu, tia Agatha?” Oliver decidiu puxar assunto, ele não tinha nada muito mais interessante para fazer.

    “Nenhum motivo importante pra você, garoto” respondeu enquanto dava um gole diretamente da garrafa de vinho, ignorando a taça.

    Oliver apenas sentou em outra mesa e começou a comer suas frutas.

    “Eu sinto que ela quer conversar… mas ela não parece aberta pra isso. De alguma forma minha intuição parece mais aguçada que o normal?” Oliver levantou uma sobrancelha enquanto fazia reflexões internas.

    “Sabe, garoto, essa cidade vai ficar mais movimentada em breve. Sr. Balthazar está abrindo uma loja que vai vender equipamentos para aventureiros. Normalmente as pessoas só passam por Corval brevemente e não ficam, mas agora vai ser diferente.” Um grande sorriso se abriu na face de Agatha.

    Alguns pensamentos passaram na mente de Oliver.

    “Talvez a grande loja que está sendo construída é da Família Venn? Eu não ficaria surpreso.” 

    “Vai ser construída naquele lote vazio na rua principal?” Oliver quis confirmar sua dúvida.

    “Sim, isso mesmo. Como você já deve ter percebido, vai ser o maior estabelecimento da cidade. Também estão construindo uma pousada, agora os aventureiros vão ter lugar pra passar a noite e não vão mais ignorar nossa cidade.” Agatha estava radiante, claramente esperava que os negócios decolassem quando esse estabelecimento fosse aberto.

    Particularmente, Oliver não se importava com nada disso, era interessante ver que o comércio nesse mundo ainda seguia as mesmas ‘leis’ do planeta Terra, mas ele não estava necessariamente interessado.

    Oliver e Agatha permaneceram em silêncio por algum tempo enquanto Oliver se alimentava e Agatha bebia seu vinho.

    Esse silêncio não era desconfortável, Oliver já estava acostumado a não conversar demais com as pessoas do bordel, não por preconceito ou algo do gênero, mas simplesmente por não ter muito o que falar. Oliver não via razões para puxar assunto se não fosse para falar de algo relevante ou de seu interesse.

    O barulho da vida noturna ecoava da porta ao lado, ao contrário do planeta Terra, não havia caixas de som. Então o único jeito de existir música era a música ao vivo.

    Toda noite havia pelo menos alguém tocando algum instrumento, às vezes havia até mesmo uma banda completa com vocalista.

    Essa noite, um gnomo solitário tocava um violino, agraciando a vida noturna com um som calmo e sereno.

    “Isso não combina muito bem com esse tipo de ambiente” Oliver pensou, mas não manifestou o pensamento.

    Tudo parecia correr bem, quando, além das vozes, das conversas e da música, Oliver pôde ouvir um grito.

    “O que está acontecendo?” Agatha foi a primeira a reagir, ela se levantou e abriu a porta.

    Sem a barreira física da porta, Oliver conseguiu ouvir tudo melhor. Ver também, ele sempre conseguiu ver almas através dos objetos, barreiras físicas nunca o atrapalharam. Mas a alma não tinha formato, um ponto amarelo poderia ser um pássaro muito contente ou um humano muito feliz. Não havia diferenciação entre um e outro até vê-los pessoalmente.

    Depois de despertar, as almas tinham formatos, Oliver conseguia ver claramente o formato da alma de Agatha, era um formato humanóide, que seguia seu corpo. As almas do lado de dentro do bordel também seguiam o mesmo padrão.

    Quando Oliver avançou logo atrás de Agatha para dentro do salão do bordel, ele viu a cena que estava gerando confusão.

    Um orc verde, extremamente alto e com um corpo atlético, estava segurando pelo pescoço uma elfa magra e loira, de cabelos curtos.

    Oliver conhecia a mulher, era uma das garotas do bordel, morava nos fundos, assim como ele e sua mãe.

    “Você realmente quer fazer as coisas desse jeito?” O orc perguntou em voz alta para a elfa, enquanto a agarrava pelo pescoço, erguendo-a do chão.

    Entretanto, a língua que a maioria das pessoas utilizava nesse mundo era o Universal. Ele claramente falou outra língua quando disse isso.

    “Esse orc sabe falar élfico” Oliver pensou de longe enquanto observava a situação.

    Normalmente não era comum falar outra língua além do Universal caso você fosse humano. Outras raças falariam a língua delas e o Universal, mas um orc que sabia falar élfico era um tanto raro.

    Mesmo tendo o pescoço apertado, a elfa respondeu firmemente em sua língua materna: “Não vou me deitar com um orc imundo igual você, pode me matar se quiser!”

    Não havia hesitação na fala dela, ela claramente estava preparada para morrer por sua convicção. Orcs e elfos compartilhavam uma história complicada, geralmente não havia relacionamento pacífico entre eles. O ato de exigir que uma elfa se deitasse com ele era claramente um deboche por parte do orc, tentando exercer sua superioridade como cliente e forçá-la ao ato.

    “Vocês elfos são sempre assim, mas não vou te matar facilmente. Vou fazer isso no meio de todo mundo. Vai ser uma diversão e tanto!” Um sorriso sinistro surgiu no rosto do orc, revelando suas grandes presas inferiores.

    Uma expressão de medo tomou conta da elfa, ela parecia estar pronta para morrer, mas o orc era simplesmente mais forte do que ela. Se ele a forçasse, ela não teria forças para repeli-lo.

    Enquanto todos observavam sem entender o diálogo dos dois, um homem alto e armadurado se aproximou, mesmo sendo alto, ele era visivelmente menor que o orc, sua altura chegava ao peito do orc.

    Olhando para cima, o homem armadurado disse com uma voz ameaçadora:

    “Solte-a imediatamente e vá embora, se não, vou te tirar daqui à força!”

    O homem armadurado era Baldric, o guarda, durante o dia, ele patrulhava a cidade e, à noite, era o segurança do bordel. 

    Ao contrário do orc, ele vestia uma armadura completa de malha, usava um escudo e uma espada curta e estava pronto para repelir o orc brigão à força se necessário.

    Porém, mesmo desarmado, o orc não pareceu se intimidar, ele deu risada e arremessou a elfa para longe antes de voltar seu olhar para Baldric.

    Uma energia azulada começou a se formar ao redor dele, era bruta e viva, passando a impressão de imponência.

    Baldric estremeceu ao perceber a fonte daquilo.

    “V-Você é um artista marcial de Rank 1?”

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