CAPÍTULO 43 - LÂMINA DAS SOMBRAS
No dia seguinte, Oliver voltou a se encontrar com o mendigo Orson para mais uma lição.
Inicialmente, imaginou que teria outra manhã inteira de dracônico. Por isso, foi pego de surpresa quando o velho falou:
“Hoje não teremos aula de dracônico. Vou te ensinar uma magia nova.”
Os olhos de Oliver brilharam no mesmo instante.
“Que tipo de magia?”
Orson apoiou a mão no queixo e pareceu saborear a própria resposta antes de dá-la.
“Uma magia de alma. Que tal?” Fez uma breve pausa e então corrigiu: “Na verdade, meia magia de alma.”
Oliver assentiu, mas por dentro já estava muito mais animado do que deixava transparecer.
“Finalmente… mas quais são as chances de não ser outra magia de utilidade?”
Enquanto acariciava distraidamente a barriga de Caramelo, seus pensamentos se atropelavam.
“Meia magia de alma? Que diabos seria isso?”
Ele queria muito que Orson finalmente lhe ensinasse algo realmente impressionante. Ainda assim, depois de tanto tempo ouvindo que aprendizes deviam priorizar magias de sobrevivência e utilidade, Oliver fazia o possível para manter as expectativas sob controle.
Orson se levantou devagar.
“Vou fazer uma demonstração.”
Assim que o velho começou a gesticular e recitar o cântico, Oliver sentiu um arrepio percorrer a espinha.
Ao redor deles, as sombras pareceram se mover por vontade própria, de um jeito antinatural e inquietante. Em poucos instantes, alguns desses fragmentos escuros se desprenderam do chão e se uniram na mão de Orson, moldando uma lâmina curva.
Oliver sentiu o corpo gelar.
Aquela lâmina feita de sombras era perigosa. Ele não entendia exatamente por quê, mas seus instintos gritavam isso com clareza.
Orson percebeu a reação do garoto e sorriu de leve.
“Seus sentidos como meio-elfo da alma são realmente afiados, garoto. Você consegue perceber o perigo disso mesmo sem saber o que é.”
A lâmina tinha o tamanho de uma espada curta e um punho escuro bem definido, de modo que Orson a segurava como se fosse uma arma comum.
Ele ergueu a arma diante dos olhos e explicou:
“Essa magia se chama Lâmina das Sombras. Inicialmente, foi concebida por um mago da escola de Ilusão, especializado em sombras. O problema é que sombra e luz, por natureza, não foram feitas para atacar, e isso sempre o incomodou. Ironicamente, ele acabou criando esse feitiço pela materialização das sombras. O resultado foi uma lâmina com a característica peculiar de ferir a alma em vez da carne.”
Oliver ouviu aquilo em silêncio, mas sua mente permanecia agitada. Só a existência de um feitiço como aquele já bastava para fazê-lo suar frio.
Depois de um instante, resolveu perguntar:
“Tio Orson, se essa é uma magia de ilusão, como ela pode ferir a alma?”
Aquilo o confundia. Em sua cabeça, algo que feria a alma deveria, obrigatoriamente, pertencer à escola das almas.
Orson respondeu com paciência.
“Eu já te disse antes: um mago especializado em almas busca maneiras de atacar a alma dos outros, mas não necessariamente com a própria alma. Existem várias coisas que podem ferir a alma. Não são comuns, mas existem. De alguma forma, as sombras parecem ter essa característica. Por isso eu chamei essa magia de meia magia de alma. Ela afeta a alma, mas não pertence propriamente ao colégio das almas.”
Oliver acenou devagar, tentando organizar aquilo dentro da própria cabeça. Ainda parecia confuso, então Orson continuou:
“Algumas magias carregam características de mais de uma escola. Essa é uma delas. E há outro detalhe importante: você precisa manter a concentração o tempo todo para sustentar a lâmina materializada. Se perder o foco, ela simplesmente desaparece.”
Assim que terminou a explicação, Orson encerrou a concentração.
A lâmina deixou de existir no mesmo instante.
Oliver soltou o ar devagar, aliviado. A simples presença daquele feitiço o deixava desconfortável.
Ainda tentando simplificar a explicação, ele perguntou:
“Então esse feitiço, no fim das contas, pertence às duas escolas? Ilusão e Almas?”
Orson coçou o queixo antes de responder.
“De certa forma, sim. Os magos normalmente preferem categorizar toda magia em uma escola e, quando necessário, em uma sub-escola. Mas há feitiços que carregam traços de mais de uma escola, ou até de mais de uma sub-escola. Então, no seu raciocínio, você não está errado.”
Depois disso, Orson começou a ensinar os gestos e o cântico.
Oliver passou a manhã inteira praticando.
Em uma das tentativas, quando sentiu que estava muito perto de acertar, percebeu a mana ser consumida mesmo sem completar a magia.
“Estou perto. Pelo menos uma vez eu vou conseguir.”
Continuou insistindo.
Com um pouco mais de prática, finalmente conseguiu manifestar a magia.
No instante em que a lâmina se formou, Oliver sentiu de novo a mesma opressão que viera da arma de Orson. Aquilo era letal. Também percebeu, na prática, o que o velho explicou antes: precisava continuar visualizando a materialização da lâmina o tempo inteiro. Se sua concentração vacilasse, a magia se desfaria.
Orson observou a arma negra com interesse evidente.
“Oh, parece que você conseguiu. Que tal fazermos um pequeno teste?”
Enquanto falava, começou a mexer em algo preso à cintura.
Oliver percebeu, então, que ele estava abrindo a porta da gaiola de almas. Aquele item mágico era capaz de aprisionar almas, o espírito vingativo do orc ainda estava lá dentro.
Mas o que saiu da gaiola não foi o espírito do orc.
A figura que emergiu tinha forma de lobo, embora fosse translúcida e amarelada, como se fosse feita de luz.
Oliver franziu a testa.
“Tio Orson, o que é isso?”
Ele já tinha uma suspeita, mas queria ouvir a resposta.
“É a alma de um lobo. Eu a aprisionei na gaiola e consigo comandá-la com algumas magias específicas.” Orson olhou para o animal espectral e depois de volta para Oliver. “O que acha de um combate simulado entre você e ele?”
Oliver pensou por um breve momento antes de responder.
“Claro. Por que não?”
Na prática, ele quase não teve experiência real de combate nessa vida, exceto pelo dia em que quase fora morto pelo lobo Marca Dourada. Aquilo, de certa forma, era uma boa chance de praticar.
Orson então ordenou que a alma do lobo atacasse.
Oliver apertou a empunhadura da Lâmina das Sombras e se preparou para receber a investida.


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