CAPÍTULO 41 - COMBATE AMISTOSO
Jonathan foi o primeiro a avançar.
O golpe veio reto e sem hesitação, impulsionado pela magia de fortalecimento. Ao mesmo tempo, o espírito em forma de corvo mergulhou em sincronia, batendo as asas diante do rosto de Archibald para atrapalhar sua visão. O animal não podia fazer muito além disso, sua função era simples: confundir e tentar abrir uma brecha.
Archibald concluiu a magia que vinha preparando com serenidade.
[ Magia de 2º ciclo – Arma de Som ]
O cajado ganhou um brilho esverdeado, sutil à primeira vista, mas vibrante o bastante para fazer o ar ao redor parecer tenso. No exato instante em que Jonathan tentou acertá-lo, Archibald baixou o próprio cajado contra o aluno.
Os dois ataques chegaram ao mesmo tempo.
Mas o resultado foi completamente diferente do que Jonathan esperava.
Mesmo com o corvo atrapalhando sua visão, Archibald ainda reagiu no momento exato.
[ Magia de 1º ciclo – Escudo de Força ]
O punho de Jonathan encontrou uma barreira invisível e parou repentinamente, como se tivesse socado uma parede de ar solidificado.
Ao mesmo tempo, o cajado de Archibald desceu no ombro do garoto.
O impacto não pareceu brutal à primeira vista, mas o brilho verde ao redor do cajado oscilou no momento do contato e um estampido violento explodiu pelo campo. Jonathan gritou e recuou tropeçando, levando a mão ao ombro de imediato.
A [ Armadura Arcana ] não protegia bem aquela região. Era um ponto deliberadamente mais vulnerável para não comprometer a mobilidade do conjurador.
Archibald sequer teve tempo de respirar depois do primeiro choque.
Um novo estrondo cortou o campo.
Oliver lançou [ Relâmpago ] da retaguarda, mirando o lado oposto ao escudo recém-conjurado por Archibald.
Por um instante, ele acreditou que finalmente o acertaria, mas Archibald conjurou um segundo [ Escudo de Força ] com uma velocidade absurda, bloqueando o relâmpago por completo.
Depois de formado, o [ Escudo de Força ] não podia mudar de posição. Ele existia apenas por poucos instantes e desaparecia logo em seguida. Ainda assim, isso não importava quando o conjurador era rápido o bastante para criar outro imediatamente.
“Que velocidade de conjuração assustadora.” Oliver assistiu ao mestre se defender e não conseguiu evitar a admiração. Mesmo sendo uma magia extremamente rápida, a proficiência de Archibald em combate era alta demais. Ele conjurara dois escudos no tempo em que Oliver, no máximo, conseguiria formar um.
Um leve sorriso apareceu no rosto de Archibald. Ele claramente estava se divertindo.
O corvo voltou a investir, batendo as asas diante de seus olhos numa nova tentativa de desorientá-lo.
Desta vez, porém, Archibald nem se deu ao trabalho de afastá-lo com cuidado. Girou o cajado com precisão e o acertou em cheio.
O brilho verde vibrou de novo.
Outro estrondo ecoou, e o espírito foi lançado para longe antes de se desfazer no ar, como se tivesse virado poeira .
“Droga, ele destruiu o espírito!” Oliver arregalou os olhos por um momento. O corvo era fraco demais. Não aguentou nem um único golpe de verdade.
Espíritos não morriam de forma definitiva. Provavelmente aquele já havia retornado ao plano de origem para se recompor. Quando estivesse recuperado, Oliver poderia chamá-lo outra vez.
Jonathan tentou aproveitar a abertura e atacou de novo.
Dessa vez, Archibald nem precisou usar um [ Escudo de Força ]. Em vez disso, desviou o corpo o suficiente e bateu com o cajado na mão com que Jonathan segurava a própria arma. A energia verde explodiu em um ponto concentrado, e o cajado de Jonathan foi arrancado de sua mão e lançado para longe.
Archibald ainda encontrou tempo para corrigir o aluno no meio do combate.
“Cajados são bem resistentes. Não faz sentido me atacar com as mãos nuas enquanto segura uma arma de concusão.”
Jonathan tomou uma decisão rápida e se jogou no chão, rolando em busca do cajado que saíra voando.
O movimento abriu caminho entre Archibald e Oliver.
Oliver já vinha preparando outro [ Relâmpago ] e o lançou assim que enxergou a abertura.
Mas Archibald já corria em sua direção.
[ Relâmpago ] não era uma magia regular de 1º ciclo. Ela exigia que Oliver se concentrasse e imaginasse o fenômeno físico por inteiro para conceber a magia. Por isso, levava cerca de 10 segundos para ser conjurada, o dobro do tempo de uma magia comum de 1º ciclo, e aquela lentidão inevitavelmente cobrava seu preço.
Archibald conjurou mais um [ Escudo de Força ] e bloqueou o relâmpago sem a menor dificuldade.
Para ele, o uso daquela magia já parecia quase intuitivo. Não importava de onde o ataque vinha, o escudo sempre surgia no momento exato e no lugar certo.
Poucos passos agora separavam mestre e discípulo.
Oliver permaneceu imóvel, esperando o momento ideal.
Archibald chegou frente a frente com ele e ergueu o cajado para desferir o golpe.
Só então Oliver conjurou o próprio [ Escudo de Força ]. Ao contrário de Jonathan, que quase esgotou sua mana conjurando apenas duas magias, ele ainda tinha mana suficiente para repetir aquilo várias vezes, se fosse necessário.
O escudo se formou corretamente.
Mas, no mesmo instante em que surgiu, Oliver sentiu que havia algo errado.
Archibald moveu a mão em um gesto rápido e preciso, e a barreira simplesmente se desfez diante de seus olhos.
[ Magia de 3º ciclo – Ruptura de Feitiço ]
Sem o [ Escudo de Força ] para protegê-lo, Oliver não teve tempo de reagir.
O cajado o atingiu no estômago. A região estava coberta pela [ Armadura Arcana ], mas a [ Arma de Som ] que ainda envolvia o cajado de Archibald fez toda a diferença. O brilho verde vibrou outra vez, e o golpe pareceu atravessar boa parte da defesa mágica. O estampido que se seguiu não era apenas barulho, o próprio som carregava força suficiente para repelir violentamente o alvo.
Oliver foi lançado para longe.
Do outro lado do campo, Jonathan enfim recuperou o próprio cajado e voltou a avançar contra seu mestre. Mas, depois de poucos passos, percebeu que algo estava errado.
Seus movimentos ficaram lentos e quando olhou para baixo, viu os pés presos em gelo. Num instante, já não conseguia mais se mover.
[ Magia de 2º ciclo – Imobilização por Gelo ]
Archibald mudou de direção e caminhou até Jonathan com tranquilidade.
O garoto estava preso demais para esquivar e rígido demais até mesmo para conjurar um simples [ Escudo de Força ].
O golpe acertou seu estômago.
A energia verde explodiu com outro trovão seco, e Jonathan foi lançado para longe, desacordado antes mesmo de tocar o chão.
Ainda caído, Oliver assistiu à cena à distância.
“Preciso de um feitiço que o Mestre Archibald não consiga bloquear com Escudo de Força.”
A ideia surgiu imediatamente.
Oliver imaginou moléculas de etanol se formando no ar e se condensando ao redor de Archibald.
Archibald observou aquilo com interesse genuíno. Ele queria ver até onde o garoto pretendia ir.
Pequenos aglomerados de álcool começaram a flutuar ao redor dele.
“Isso é água?” Archibald inclinou levemente a cabeça, intrigado.
No momento seguinte, Oliver comandou o movimento, e os aglomerados voaram em direção ao mestre, encharcando suas roupas.
Archibald franziu a testa.
“Que diabos é isso? Cheira a vinho?”
Ele ainda não havia entendido a intenção por trás daquilo, mas o simples fato de ter sido ensopado já foi o bastante para irritá-lo.
Oliver não perdeu tempo. Imaginou outra vez partículas em agitação extrema, rápidas o suficiente para gerar uma faísca.
Archibald viu o brilho surgir ao redor de si. Bastou uma única centelha e as chamas se espalharam por seu corpo de uma vez.
Pego de surpresa, Archibald recuou um passo e tentou apagar o fogo com as mãos, sacudindo o robe em movimentos bruscos. Quando percebeu que não funcionaria rápido o suficiente, mudou de abordagem na mesma hora.
Com um suspiro curto e irritado, bateu o cajado no chão.
Um vento gélido se espalhou a partir do ponto de impacto e apagou as chamas quase instantaneamente.
[Magia de 2º Ciclo – Lufada de Vento]
“Merda, não deu muito certo.” Oliver já aceitava a derrota antes mesmo de se levantar por completo.
Ergueu as duas mãos.
“Eu me rendo, Mestre Archibald.”
Archibald se virou para ele ainda com a roupa levemente chamuscada.
“Quem disse que você podia se render?”
Antes que Oliver pudesse responder, Archibald se aproximou e desferiu mais um golpe com o cajado, desta vez no peito.
O garoto apagou na mesma hora.
Archibald então olhou ao redor.
Seus dois discípulos estavam desacordados. O campo de treinamento não parecia muito danificado, apesar da intensidade da luta.
Sua roupa carregava marcas leves de queimadura causadas pela magia improvisada de Oliver.
Ele observou aquilo por um instante e deixou escapar um comentário baixo, quase satisfeito:
“Isso foi interessante.”
O combate havia terminado.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.