O sol nascia lento por trás das montanhas.

    O céu tingia-se de laranja pálido; a brisa era fria e um leve nevoeiro pairava no ar.

    Parecia apenas mais uma manhã comum.

    Ethos acordou cedo. Ele mal dormiu de ansiedade.

    O mundo estava em silêncio.

    Desceu as escadas e encontrou Ophélia à mesa, mexendo em uma pequena bolsa de pano. Dentro, algo tilintava baixinho.

    — Bom dia, filhote — disse Ophélia enquanto despejava os pequenos discos metálicos sobre a mesa.

    — Bom dia, mãe. O que são essas coisas?

    — Sente-se aqui — ela entregou três daquelas coisas na mão de Ethos. — Isto são moedas, você vai precisar lá fora.

    — Ah! Moedas são isso? — ele segurou as moedas muito animado. — Eu já li sobre elas, mas nunca tinha visto de verdade!

    Ophélia sorriu de leve.

    — Pois é, meu amor, mas preste muita atenção: lá fora as pessoas matam e morrem por isso.

    Ela aponta para uma das moedas.

    — Essa é de bronze. Uma moeda de prata equivale a cem de bronze; uma de ouro, cem de prata.

    Ethos analisou bem cada uma das moedas.

    — Entendi, mãe. O que são esses desenhos nela?

    — São selos reais, mostram a autenticidade. Enfim, você entendeu? Cuidado especialmente com as moedas de ouro, sabe por quê?

    — Porque as moedas de ouro valem muito…!?

    — Isso mesmo, por isso não dê bobeira! — Ophélia começou a guardá-las na pequena bolsa de pano. — Vou te dar duas moedas de ouro, que são o bastante para ir e voltar com sobra. Cuide delas e não confie em ninguém.

    — Tá bom. Mãe…

    — Ethi, por favor, leve a sério! — ela encarou o garoto nos olhos. — Você é muito inteligente, mas não conhece o mundo. Vivemos um pouco afastados, por isso você mal conhece as pessoas do vilarejo. Você ainda não sabe o quão cheio de pessoas ruins é esse mundo.

    Ethos engoliu seco.

    — Tá bom, mãe! — falou firme dessa vez. — Eu prometo tomar cuidado.

    — Assim está melhor! — Ophélia sorriu e entregou a bolsa com as moedas.

    Passos ecoaram da entrada. Tharion entrou segurando uma grande mochila

    — Aqui, garoto — disse ele, entregando a mochila. — Separei pra você algumas coisas: Linha resistente, algumas ervas secas, um cantil, umas iscas de peixe… enfim tem muita coisa aqui. Ah e o mais importante… Isso!

    Ele entregou nas mãos de Ethos uma pedra de amolar, escura e lisa.

    — Você já sabe, garoto, mantenha suas espadas sempre afiadas. Já te ensinei como deve fazer. Lembre-se: Uma faca sem fio é pedir pra morrer!

    Ethos pegou a bolsa e a pedra, segurou firme.

    — Muito obrigado, vô! Eu vou cuidar bem dos meus equipamentos.

    Hmph — Tharion cruzou os braços. — Só não perder essa porcaria, hein.

    Ethos pegou a bolsa e olhou tudo que tinha nela.

    — Caramba, tem muita coisa, mas tá tão leve. Esse símbolo é…?

    — Isso mesmo! — interrompeu o avô. — É uma runa que sua mãe colocou. Isso faz com que caiba muita coisa e não tenha muito peso. Não dê bobeira, viu? Esse tipo de mochila é uma raridade por aí, são poucas pessoas que entendem de runas hoje em dia.

    Ethos segurou firme os presentes.

    — Tá bom. Muito obrigado, gente — disse Ethos. — Vocês são os melhores — completou, já com os olhos cheios d’água.

    — Não começa a chorar, pirralho — disse Tharion, com os olhos molhados também.

    Ophélia também não se aguentou e começou a chorar.

    O momento foi interrompido por pequenos passos leves descendo as escadas.

    A pequena Íris desceu as escadas — descabelada e com olheiras — e correu em direção a Ethos.

    — ETHI!!! Você já tá indo? Não vai sair sem se despedir de mim, viu?

    — Hahahá — Ethos se abaixou para ficar na altura da menina. — Claro que não, maninha, mas já devo ir daqui a pouco.

    — Vai demorar muito? — perguntou ela com os olhos já cheios d’água enquanto o abraçava forte.

    — Um pouco — ele começou a passar a mão na cabeça dela. — Parece que até a capital é pelo menos um mês de viagem.

    Ophélia se aproximou sorrindo e disse:

    — Filha, por que você não busca o que preparou para seu irmão?

    — Tá bom! — exclamou Íris, correndo para o quarto.

    Alguns instantes depois, ela voltou segurando algo com as duas mãos.

    — Eu e a mamãe fizemos pra você, mano! É pra te proteger e… pra você lembrar da gente — Ela puxa o garoto pela calça. — Se abaixa, anda!

    Ethos se ajoelha novamente. Ela põe em seu pescoço um colar feito à mão com uma pedra verde presa num cordão trançado.

    — É lindo, Íris… muito obrigado! Eu vou cuidar muito bem dele.

    Ethos abraçou a irmã bem forte.

    Íris estava toda orgulhosa.

    — Foi bem difícil de fazer! — contou ela, gesticulando. — A gente tinha que ficar enrolando as linhas assim, ó…

    Ophélia sorriu

    — Filho, esse colar vai te proteger quando você precisar de uma forcinha. Não tire ele nunca, ouviu?

    Ethos assentiu, apertando o colar contra o peito.

    — Tá bom, mãe. Eu vou usá-lo sempre!

    Lá fora, uma voz rouca soou:

    — Olá, tem alguém em casa?

    Era Durak quem havia chegado, carregando uma mochila maior que ele.

    O baixinho entrou, cumprimentou Tharion e Ophélia com respeito, e olhou para o garoto de cima a baixo.

    — Ei pirralho, tudo pronto? Temos que descer as montanhas antes do fim do dia.

    Ethos assentiu.

    — Acho que tá tudo pronto, Durak.

    Ophélia se aproximou, segurando algo dobrado nos braços.

    — Antes de ir… o último presente.

    Era uma capa preta com detalhes em verde, com desenhos discretamente bordados nas laterais.

    —  Fiz pra você, filhote. Espero que goste.

    Ethos abriu um grande sorriso e rapidamente vestiu.

    — Eu amei! Isso são runas?

    — Sim, esse aqui vai te proteger do frio; e esse, do calor. No caminho você vai se deparar com todo tipo de clima, essa capa vai te ajudar um pouco. Além disso, eu fiz com uma linha especial muito resistente.

    — Você é incrível, mãe. Muito obrigado!

    E assim eles foram se ajeitando até a hora da partida.

    — Se cuida, filho — Ophélia já não conseguia segurar as lágrimas caindo enquanto abraçava forte seu pequeno filhote, que estava indo em direção ao mundo.

    — Vem cá, garoto — agora era a vez de Tharion se despedir.

    Por último a Íris. Abraçou uma última vez ao Ethos.

    — Mano, se cuida, tá? Volta pra casa inteiro, viu?

    Ethos não conteve o choro.

    — Tá bom… — Ethos passou a mão na cabeça de Íris — Logo, logo estou de volta cheio de histórias pra te contar. Cuida da mamãe, tá bom?

    — Tá bom! — exclamou Íris, sorrindo — não vejo a hora de você chegar.

    E partiram.

    Ethos parou vez ou outra para olhar sua família uma última vez, ali parados no portão, se despedindo à distância.

    Ele passava pelas plantações.

    Ele sentia o cheiro das laranjeiras. Olhava os animais. Ouvia o canto dos pássaros. Se despedia de sua casa, não sabia quando iria voltar outra vez.

    Tô indo, pai. Conhecer o mundo que você tanto falava.

    No momento que pisou para fora da propriedade, sentiu um arrepio, como se estivesse passando por algo.

    Deve ser assim que a gente se sente saindo de casa pela primeira vez.

    Até que sumiram na curva da estrada.

    E assim Ethos, junto a Durak, partiu em direção ao desconhecido.

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