Capítulo 10 - A Quebra e o Retorno
Os dias foram passando.
Lentamente.
Um por vez.
Ethos mal dormia à noite. Lembranças inundavam sua mente.
Ele olhava para o teto, fixamente
Um som vinha do fundo. Baixo. Abafado.
Era Ophélia chorando, de novo…
Era um choro cuidadoso, tentando não ser ouvida.
Ethos ouvia.
E sempre que ouvia.
Doía.
…
Outro dia.
Ophélia preparava o café da manhã, como de costume.
— Ethi! Íris! Venham comer.
A pequena garota desceu as escadas, cabelos em pé, coçando os olhos.
— Viu seu irmão? — perguntou Ophélia.
— Não… — respondeu com a voz arrastada e quanto se sentava.
— Estou aqui! — respondeu Ethos, vindo da rua.
— Onde você estava tão cedo?
— Fui cuidar das batatas. Depois fui treinar um pouco — disse enquanto se sentava à mesa.
— Tão cedo? — ela se sentou à mesa.
— Perdi o sono.
Ophélia mexia o café lentamente — sem beber, sem comer — até o café esfriar.
Ethos via. Não falava nada. Não sabia o que dizer. Queria fazer algo. Queria abraçar a sua mãe e dizer que ficaria tudo bem. Mas como poderia? Talvez não ficasse. Ele não podia abraçá-la e correr o risco de chorar. Não podia demonstrar fraqueza.
Não agora.
Não aqui.
Não para ela.
Ela havia perdido o grande amor da vida.
Ainda assim, estava ali. De pé. Se mantendo firme.
Não por ela. Pelos filhos.
Ethos não se sentia no direito de fazer menos, afinal ele causou tudo. Ao menos, era o que pensava.
Lembrou do pai, sob a sombra da árvore após um treino, dizendo que chegaria o momento que ele teria que ser forte.
O momento chegou.
Você vai se orgulhar de mim, pai.
Ethos não podia ser fraco. Tinha que suportar. Se adaptar. Superar. Se fortalecer.
Do outro lado da mesa, Íris comia e bebia seu suco. Quase como se a realidade não tivesse chegado nela.
Talvez a inocência das crianças torne as coisas mais leves.
Ethos terminou o café e voltou a treinar.
PAC! PAC! PAC!
Ele treinava intensamente.
Todos os dias.
Sem parar.
…
Chhh…
A chuva seguia.
Leve.
Ethos encarava o prato de comida, sem fome.
Ophélia mexia seu chá lentamente, já gelado. Sua mente estava distante.
Íris puxou a manga da camisa de Ethos:
— Ethii… Vamos brincar? Você prometeu que brincaria comigo quando voltasse.
Ethos respira devagar. Longo demais.
— Hoje não dá, Íris.
— Mas nunca dá… você só quer saber de treinar. Só um pouquinho! Por favorzinho…
— Íris, não!
— Depois que você voltou virou um chato. O papai sempre…
Ethos interrompe e fala de forma grosseira:
— ELE NÃO TA MAIS AQUI, ÍRIS!
Silêncio.
Chhhh…
A chuva era indiferente lá fora.
Ele odiou a própria voz.
Ophélia se levantou e foi em direção a Íris.
Através dos pequenos olhos arregalados, cheios d’água — aterrorizados — de Íris, Ethos se via, mas não se reconhecia.
— Ethi… ela é só uma criança — a voz de Ophélia quebrou enquanto abraçava Íris com força.
— Íris… eu… — a voz não saía — Eu…
O chão parecia ceder sob seus pés.
Sem saber o que fazer, Ethos deu as costas às duas e correu para fora de casa.
Pegou duas espadas de treino e violentamente golpeou a árvore.
PAC!
Mais forte.
PAC!
Mais rápido.
PAC-PAC-PAC!
A chuva caía.
A água escorria pelos dedos.
Se misturava ao sangue que saía de suas mãos.
Ele não sentia a chuva. Não sentia a dor.
Tudo que ele sentia era o vazio.
Chhhh…
Ophélia permanecia parada na porta.
Íris agarrada em sua saia, chorava baixinho.
Ela tentou…
Tentou ser forte.
Tentou resistir.
Tentou lutar.
Tentou ser a mãe que seus filhos precisavam.
Mas ela não aguentou.
Chhhh…
Ela deu alguns passos e caiu de joelhos na lama, na chuva.
Arni… O que eu faço…? Você sempre sabia o que dizer nessas horas.
E chorou.
Íris chorava junto, abraçada às costas dela.
Essa triste sinfonia ecoou pelo vazio em que Ethos estava e, enfim, chegou aos seus ouvidos.
Ele parou.
As espadas — já ensanguentadas — caíram no chão.
Ele se virou lentamente.
E então sua consciência voltou aos poucos.
Chhhhh…
A chuva era cada vez mais intensa.
— Mãe… — A voz saiu quebrada. — Eu não…
Ophélia se levanta com Íris e as duas abraçam Ethos.
— Tá tudo bem, filhote!
Ele finalmente chorou.
— Eu… *soluço* …tô com tanta raiva.
— Tá tudo bem, também.
Ophélia pegou as mãos machucadas de Ethos. Um brilho verde suave surgiu.
— Mas o que… — *soluço* — o que eu faço com essa raiva?
As feridas começaram a fechar.
— Eu também não sei. Mas que tal a gente tentar descobrir juntos?
Chhh…
A chuva segue indiferente.
— Mãe… Íris… eu…— *soluço* — …Me desculpa…
Ele carregava peso demais em seu coração.
Ophélia o abraçou ainda mais forte.
— Lembra o que seu pai sempre dizia? “um passo de cada vez”.
Chhh…
A chuva cai.
Ele chora.
Ophélia chora.
Íris chora.
Está incompleta,
mas ainda é uma família.
…
Os dias passam.
A dor e a ausência não diminuem — apenas começam a fazer parte da vida, da rotina, do dia a dia.
E, aos poucos, as pessoas aprendem a conviver com elas.
A vida segue. Mesmo quando a gente não quer.
Assim, os dias viram semanas.
As semanas, meses.
O mundo seguia igual.
O vento batia.
O sol brilhava.
Ethos treinava.
PAC!
PAC!
PAC-PAC-PAC!
Ao fundo, baixinho, a voz de Ophélia.
— Sim… Ele disse que não vai para a academia…
Uma voz de homem respondeu.
— Como não? Esse pirralho cresceu dizendo que queria conhecer o mundo. Vou falar com ele.
Tharion — avô de Ethos — caminhou até o quintal.
Ethos continuava golpeando o boneco de treino.
Punho firme, dentes cerrados, olhos vazios.
PAC-PAC!
PAC-PAC!
— Ethos… — chamou Tharion.
PAC-PAC.
Ethos não respondia.
— Ethos! — mais firme agora.
PAC-PAC… PAC-PAC…
Continuava golpeando.
O suor pingava, as mãos apertavam forte a espada de madeira. Os dentes rangiam.
Tharion, com sua mão cheia de cicatrizes, segurou o braço do garoto e o puxou.
— Ethos o que você está fazendo? Desse jeito você vai acabar se machucando!
Ethos virou-se, surpreso:
— Vovô? Eu… não vi o senhor aí.
— Eu percebi — ele suspirou — O que pensa que está fazendo?
— Treinando…!?
— Você não está treinando, tá se matando!
— Não vô, tá tudo bem… — Ethos tinha um olhar baixo, evitando olhar diretamente para seu avô. — Vou voltar a treinar, preciso terminar aqui.
— Não! Preciso falar com você. Sua mãe me falou que você não quer ir para a academia. Que história é essa?
— Ah vô, eu não quero falar sobre isso.
Ele se vira e volta a golpear com força.
PAC-PAC!
Tharion fica visivelmente irritado.
Novamente segura Ethos pelo braço, agora com firmeza.
— Eu não terminei!
— Tá bom, Vô. O senhor precisa de mais alguma coisa? — disse sem olhar para trás.
— Eu já te falei, você vai acabar se machucando treinando dessa forma. Vem cá, eu te ajudo a treinar, e depois conversamos.
Ethos suspirou, irritado.
— Vovô… o senhor vai acabar se machucando. Eu tô bem!
— Me machucando? — ele franziu a testa. — Com quem pensa que está falando?
— O senhor já não tem mais idade para isso, Vô. Não quero te machucar.
Um silêncio pairou no ambiente.
Tharion se vira, como quem vai embora.
Ethos se vira para voltar a treinar.
Tshh…
Algo arranha o chão
Ethos se vira.
Tharion estava dentro de um círculo feito na terra apoiando uma espada de madeira em seu ombro.
Ethos, por um momento, viu Árnion.
— Vem, garoto. Me mostre do que é capaz! — disse Tharion com um sorriso confiante.
— Vovô, não quero te machucar!
Uma expressão de raiva tomou conta do rosto de Tharion.
— Em que universo você acha que pode me machucar? Tá comendo merda? Deixa de ser arrogante pirralho. Vendo você treinar fica claro que seu pai não te ensinou nada!
— Não fala dele! — disse Ethos, levantando a voz.
— É a verdade, você tá aí todo arrogante, mas é um fraco!
Essas palavras acertam Ethos como um golpe.
— Eu sei que sou fraco… — a voz saiu quebrada — Você não entende!
— Nessa família a gente se entende pelas espadas! Anda, me dê seu melhor golpe. Se me tirar daqui eu deixo você em paz!
— Se você insiste…
Ethos ficou muito irritado. Apertou as espadas com força, rangeu os dentes e avançou.
Correu.
Contraiu cada músculo de seu corpo.
Colocou toda a raiva guardada em seu coração.
E golpeou.
Raiva.
Culpa.
Fúria.
Dor.
Thárion?
Nem sequer se mexeu. Seguiu imóvel.
Ethos pensava que ele defenderia quando a espada estivesse próxima — afinal, aquele velho já foi do exército.
Mas não. Ele recebeu o golpe sem se defender
PLEC!
Os olhos de Ethos se arregalaram.
Fragmentos de espada voavam diante de seus olhos.
Tharion?
Uma montanha: Imóvel!
Ethos?
Só um garoto apavorado!
Ele largou o que restou da espada no chão.
Caiu de joelhos.
Sem voz.
Sem ar.
— Eu sou tão… fraco.
Tharion respirou fundo.
— Eu entendo, garoto… você perdeu seu pai. Eu sei que é difícil, mas eu entendo. Afinal, eu perdi meu filho também. Agora me conta o que está acontecendo?
Ethos levantou os olhos.
Talvez tenha sido a primeira vez naquele dia que ele realmente enxergou seu avô.
— Eu… preciso ficar mais forte, vô… ele me pediu pra cuidar delas, mas sem o pai… não sei o que fazer. Me sinto perdido.
Tharion se ajoelha. Colocou a mão na cabeça de Ethos.
— Garoto, você não está sozinho.
Lágrimas começaram a escorrer dos olhos de Ethos.
— Vovô eu… *Soluço* …não quero perder mais ninguém.
Tharion puxou o neto para um abraço forte. Seu olhar firme começou a ceder e um par de lágrimas tomaram seu lugar
— Ethi, eu sei o que você está sentindo. Acredite, eu já perdi gente demais na minha vida. Nessas horas você precisa confiar nas pessoas que têm ao seu lado.
— Confiar?
— Sim! Sua mãe é uma mulher muito forte, Ethi. Eu ainda consigo me cuidar sozinho. Você é só um garoto, não tem que carregar nada sozinho, pode confiar na gente. Nós não somos tão frágeis.
Ethos abaixou a cabeça e apertou a própria mão com força.
— Eu tô com medo, vô. Medo de não ser o suficiente de novo.
— Confie no seu velho vô — disse baixinho. — Eu ainda estou aqui. Vá, Ethi. Vá, conheça o mundo como você sempre quis, e fique mais forte no caminho. No seu tempo, com calma. Um passo por vez.
“Um passo por vez”.
Ethos lembrou do pai.
Thárion sorriu e completou:
— Aproveite sua juventude, garoto. Hahahá! Você ainda tem muito o que viver.
O vento batia.
O sol brilhava.
Os dois se abraçavam.
As cores, aos poucos, voltavam.
E a chuva…
Hoje não caía.

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