CAPÍTULO EXTRA - A aula de Leo
Nota do autor:
Este capítulo é um conteúdo extra, sem interferência direta na história principal.
Aqui apresento teorias, conceitos e explicações sobre o mundo da obra, que podem enriquecer a compreensão do universo apresentado.
Esses capítulos extras aparecerão ocasionalmente ao longo da narrativa, sempre separados da trama principal.
Alguns anos antes, quando Ethos tinha por volta de dez anos de idade…
CLARCK-CLARCK-CLARCK — Um parafuso estava sendo apertado.
— Ethi, cuidado pra não se machucar — disse Leo, atento ao garoto, enquanto manuseava mais uma parafernália.
— Tá bom, Professor! Não vejo a hora de ficar pronto! — respondeu entusiasmado o pequeno Ethos enquanto mexia em parafusos e chaves que estavam espalhados sobre a mesa.
— Você nem sabe o que é…
— Mas quando ficar pronto, eu vou saber.
Leo sorriu com a audácia do garoto.
— Tudo bem, então.
CLARCK-CLARCK-CLARCK.
— Terminei! — disse Leo, limpando o suor da testa com o braço.
— Eba!! Tá pronto? Pra que serve? — respondeu Ethos, eufórico, com os braços levantados.
— Terminei de apertar os parafusos, mas ainda não acabou.
Ethos emburrou a cara, e fez um bico com os lábios.
— Você é muito lento! Me dá pelo menos uma dica do que é!! Por favor!!!
— Não mesmo, tenha paciência — respondeu o velho sem sequer olhar para o garoto.
Ethos permaneceu alguns minutos em silêncio. Até que voltou a fazer perguntas, como de costume.
— Professor, por que o senhor não pode usar magia?
Leo parou o que estava fazendo por um instante. Mesmo ocupado, ele não conseguia resistir a responder perguntas de uma mente curiosa. Hábitos de professor.
— Bem, você se lembra sobre o que te contei da minha teoria sobre a magia?
— Uhum… Que você acaba aprendendo com a natureza, se você fica em contato com muito vento então vai acabar tendo afinidade com magia de vento, e assim com todos os elementos, certo?
— Isso mesmo — Leo começou a gesticular com as mãos. — Então, na verdade eu acredito que não seja exatamente o vento em si.
Ethos nem piscava, concentrado na explicação.
Leo seguiu:
— Digamos que o vento seja formado por partículas de ar… tá me acompanhando?
— Ok! — Ethos ficou em pé na cadeira. —Você tinha me dito que partículas seriam como se fossem bolinhas bem pequenininhas, né?
— Isso! — ele levantou um dedo. — Então, eu acredito que a magia tenha essas bolinhas também. Eu chamo de magículas.
Ethos olhou meio confuso. Leo continuou:
— Para ficar mais fácil de entender — ele abre os braços, se empolgando com a própria aula. — O vento tem partículas de ar, a magia de vento tem magículas de ar. Essas magículas estão no que a gente chama de núcleo de mana.
— Núcleo? — Ethos olhava admirado com a explicação. Isso fazia com que Leo ficasse cada vez mais animado, mesmo que não admitisse.
— Sim, seria como se fosse uma caixa onde ficam guardadas essas magículas. Sabe aquela sensação de quando você usa uma magia e sente uma energia percorrendo pelo seu corpo?
Ethos assentiu de leve.
— Seriam essas magículas saindo da caixa e se espalhando — disse enquanto percorria com a mão do peito ate o outro braço.
— Ah! Acho que entendi — o garoto levantou as sombrancelhas. — Mas o que isso tem a ver com você não poder usar magia?
— Já vou chegar lá!
Leo cruzou as pernas de frente para Ethos. Pensou por alguns segundos para organizar sua explicação e começou a falar:
— Então, eu acredito que os núcleos se formam acumulando essas magículas, e da interação entre essas magículas e as partículas que permeiam cada pessoa.
— Per.. o quê? — disse Ethos, sentando novamente na cadeira.
Leo riu de leve.
— Permeia… quer dizer as coisas que estão ao seu redor. Aqui venta muito, certo?
— Sim…
— Ou seja, você teve muito contato com as partículas de vento, certo?
— Aham! — dessa vez respondeu mais animado.
— Então, isso faria com que seu núcleo tivesse, de alguma forma, mais magículas de vento… e por isso você teria mais afinidade com esse elemento. E isso aconteceria principalmente na infância e na adolescência.
Ethos voltou a ficar de pé na cadeira.
— Então o papai ficou muito tempo perto do fogo?
— Se minha teoria estiver certa, sim. Até porque seu avô também tem o elemento fogo, então eu imagino que ele esteja envolto de muitas magículas de fogo também. Isso acabaria influenciando o núcleo do seu pai.
Ethos parou por uns instantes, pensou um pouco, cruzou os braços levemente emburrado e continuou:
— Você ainda não me respondeu o que perguntei…
— Calma… Hahahá — Leo estava se divertindo. — Vou explicar, senta direito na cadeira.
Ethos se sentou, apoiou as mãos nos joelhos e se inclinou na direção de Leo.
Leo seguiu a explicação:
— Bom… O que eu acredito é que de onde eu vim, não existem magículas.
Ethos se inclinou um pouco pra trás.
— Não existem?
— Não… então, como vim pra cá já adulto, não pude formar um núcleo. Por isso só consigo interagir com magia usando pedras mágicas junto com meus equipamentos.
Ethos se levanta novamente na cadeira.
— Que loucura isso! E de onde você veio? Por que não tem magia lá?
Leo descruzou as pernas e se apoiou pra trás na cadeira.
— Eu vim de muito, muito longe… e não sei porque lá não tem magia. Na verdade, tudo é teoria minha. No fim das contas não temos como saber.
— Hm… eu queria saber. E como essas magículas funcionam?
Leo se animou novamente. Levantou-se da cadeira e guiou Ethos até um grande espelho.
— Ethi, o que você vê?
— A gente, ué… — respondeu Ethos, olhando em direção ao reflexo de Leo.
— Isso! — Leo levantou um dos braços de Ethos. — O que acontece se eu levantar seu braço direito?
Ethos pensou por alguns segundos. Afinal parecia uma pergunta meio boba.
— Meu reflexo também levanta o braço?
— O braço esquerdo pra ser exato. Mas sim, afinal um é o reflexo do outro.
Ethos franziu a testa.
— Mas o que isso tem a ver?
— Imagine que isso não é um espelho — Leo olhava para o reflexo de Ethos. — Mas sim uma porta que conecta duas dimensões. Como você saberia quem levantou primeiro o braço?
— Não sei, não seria ao mesmo tempo? — respondeu rapidamente.
— Isso, seria como se estivessem interligados, certo? Como se tivesse algo que une, que conecta. Um depende do outro. Um só se move se o outro se mover.
— Hmm… — O garoto tentava captar a ideia.
— Então agora pense… — Leo alcançou um martelo que estava na mesa ao lado. — Imagine esse martelo amarrado por uma corda presa no telhado.
Leo levanta o martelo pra ilustrar e seguiu falando:
— Se eu puxar a corda que segura o martelo, concorda que ele subiria?
Ethos assentiu.
— Se esse martelo subir o que acontece com o martelo do outro lado da “porta”?
— Vai subir…
— Isso. Agora que imagine que esse martelo é uma magícula de ar, movimento a magícula…?
— A PARTÍCULA DE AR SE MOVE!! — Ethos pulou, emocionado — Entendi!
— Exatamente! — Leo passa a mão na cabeça de Ethos. — Elas estão conectadas como se fossem o reflexo um do outro.
Ethos deu um sorriso largo.
Leo se animou com a empolgação do garoto.
— Por isso, acredito que a magia tem aquele processo que conversamos: Primeiro você “sente” o ar, seria as magículas do seu corpo entrando em sintonia com as partículas ao seu redor; depois, você manipula essas magículas fazendo as partículas se mexerem como reflexo.
— Entendi, Professor! — Ethos olhava fixamente para Leo que estava ao seu lado. — Então é por isso que a magícula que forma par com a partícula, porque elas conseguem se sintonizar?
— Isso mesmo! Você pegou a ideia.
— Incrível!
Leo se vira, voltando para a mesa onde estava trabalhando. Ethos o seguiu.
— Mas lembre-se — completou Leo. — É apenas uma teoria. Algo que eu elaborei em meus anos de estudo.
— Parece correta pra mim — Ethos falou orgulhoso do professor.
— Hahahá — gargalhou Leo. — Mesmo assim, não tenho como provar. Mas gosto de pensar dessa forma. Pra mim, partículas e magículas são como as diferentes dimensões: elas se interligam, se conectam e compartilham coisas.
— Dimensões? — os olhos curiosos de Ethos se voltaram para um possível novo aprendizado.
— Bem… isso é assunto pra outro dia. Hahahá. Já está escurecendo e você deve voltar pra casa.
Ethos então pegou suas coisas, se despediu e foi embora.
É normal eu ter esse tipo de conversa com uma criança?… Devo estar ficando velho mesmo.

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