Índice de Capítulo

    “Isso… são apenas crianças!” O jovem Tenente falou, furioso.

    Mesmo que desgostasse da escravidão em si, tudo ficava ainda pior ao ver que se tratavam de crianças.

    Sua ação involuntária imediatamente fez todos da sala compartilhada olharem para ele, incluindo o grupo da garota de cabelos azuis e o Alquimista.

    “Que idiota”, o sujeito de longos cabelos cinzentos declarou, com desprezo.

    Oliver, que estava na primeira cadeira, suspirou.

    “Eu te avisei do que se tratava antes, Tenente. Então, qual é a surpresa?” O Major gigante disse, de forma indiferente, mas logo seu olhar ficou frio. “Além disso, não chame essas aberrações de crianças. Não passam de animais desgraçados.”

    Fernando ficou sem palavras ao ouvir isso, uma ira terrível subindo por seu peito. O jovem Tenente sabia que ele não era exatamente uma boa pessoa e muito menos algum tipo de mocinho, mas ainda havia limites que não estava disposto a cruzar.

    “Eu-”

    O rapaz estava prestes a dizer mais alguma coisa, mas Lerona tocou sua perna, fazendo uma negativa sutil com a cabeça.

    Pela sua expressão, estava claro que ela também não concordava com isso, mas não estavam em posição de ditar as regras.

    Ao ver isso, Fernando engoliu o que estava prestes a falar, apertando o punho com força. Vendo isso, Oliver focou novamente sua atenção abaixo, ignorando a ação imprudente dele.

    A garota de cabelos azuis olhou aquilo com surpresa.

    Eu não imaginava que esse cara era um moralista. Mas por que alguém assim veio a um lugar como esse em primeiro lugar? perguntou-se, com um leve interesse.

    Niesttra também olhou para o rapaz pálido de forma singular, como se estivesse vendo uma peça rara.

    Somente quando as crianças chegaram ao centro do palco, os homens retiraram a cobertura de seus rostos, revelando garotas e garotos de 10 a 15 anos. No entanto, nesse momento, revelou-se que não eram crianças normais. Suas orelhas eram pontudas e seus cabelos loiros como o ouro.

    Ao ver isso, o olhar de Fernando mudou, ficando surpreso.

    São Elfos? perguntou-se, perplexo. Mas logo franziu a testa. Mesmo que sejam Elfos, ainda são crianças…

    Ao olhar e ver que, com exceção dele e Lerona, mais ninguém parecia realmente incomodado com isso, especialmente Oliver, que tinha um olhar cruel em seu rosto, ele finalmente entendeu.

    As pessoas que viviam em Avalon, tendo enfrentado e lutado contra Elfos, Orcs e inúmeras outras raças inteligentes por anos, já não viam as crianças dessas com qualquer traço de bondade ou mesmo humanidade. Em suas visões, não eram nada além de futuros inimigos a serem mortos ou a prole de monstros. Sendo assim, para eles, não importava o que lhes acontecia, pois não eram Humanos.

    Fernando rangeu os dentes com força, principalmente ao ouvir o choro de algumas delas. Seu choro não era diferente do de uma criança humana. Como algo assim poderia ser normal?

    A escravidão já fora uma norma na Terra num passado não tão distante, numa época de barbárie e violência. No entanto, a humanidade havia ‘evoluído’ e tratado isso como um erro e algo deplorável. Sendo assim, por que as pessoas que chegaram a Avalon haviam esquecido disso? Por que normalizaram mais uma vez um ato hediondo? Tudo isso se devia ao ódio criado entre as raças? O jovem Tenente simplesmente não conseguia entender.

    “Cinco garotos e cinco garotas da raça dos Altos Elfos. Todas recém-capturadas, disponíveis para qualquer um com dinheiro suficiente. O lote será dividido em dez partes, com uma criança por sessão. Lances mínimos de 100 moedas de prata”, falou o leiloeiro chamado Otelo Biliark, com um sorriso bizarro em seu rosto.

    Então, ele puxou uma das crianças para frente, um jovem Elfo com cerca de 14 anos. Um dos mais velhos do grupo e também um dos únicos que não estava chorando. No entanto, mesmo que estivesse mantendo um rosto erguido, tentando exibir um pouco do orgulho e coragem característicos dos Altos Elfos, seus olhos marejados revelavam seus verdadeiros sentimentos.

    “E temos aqui nosso primeiro produto. Um rapaz saudável e forte, que pode fazer todo tipo de coisa, seja trabalho manual, experimentos ou mesmo…” O sujeito, com olheiras e um sorriso bizarro, falou numa entonação ainda mais assustadora. “Sabemos como é difícil capturar um Alto Elfo adulto e muito mais domesticá-lo, mas se ele for educado desde jovem, será uma ferramenta totalmente obediente. Além disso, temos meios exclusivos da nossa casa de leilões de Yandou para fazê-los obedecer. Então, sua satisfação é garantida. Dadas as devidas apresentações ao produto, estamos começando… agora!”

    O homem mal terminou de falar, quando uma série de placas levantou-se.

    “Eu ofereço 150!”

    “Aumento para 180!”

    “210!”

    “Eu compro por 250!”

    Gritos animados soaram um após o outro, a maioria dos licitantes era de homens velhos bem vestidos, mas também havia algumas mulheres idosas com olhares peculiares.

    Vendo toda aquela cena asquerosa e pensando no destino cruel dessas crianças Elfas, Fernando sentiu um mal-estar em seu peito.

    Ele até pensou em descer até a área comum e fazer uma oferta, para livrá-las de seu destino. Mas logo desistiu da ideia.

    O que ele faria com um bando de crianças Elfas? Como ele cuidaria delas? E como explicaria ao Major Oliver o que estava fazendo?

    Mesmo que tivesse as duas crianças ciclopes vivendo em seu Anel de Aprisionamento, era uma situação totalmente diferente. Ninguém sabia de sua existência e elas eram praticamente ‘monstros’ que ele havia poupado por puro capricho. Mas as crianças Elfas eram totalmente diferentes, elas eram extremamente semelhantes a Humanos. Como ele as manteria ao lado de ciclopes, Lobos Prateados e um Erolder? Além disso, o Anel de Aprisionamento tinha um espaço limitado e já estava apertado para suas criaturas atuais, não havia como manter mais seres vivos lá dentro.

    Mesmo se ele comprasse as crianças Elfas e as libertasse fora da cidade, elas seriam provavelmente mortas e devoradas por animais ou monstros, ou capturadas novamente.

    Percebendo isso, o jovem Tenente desviou o olhar, em resignação.

    Ao voltar-se para Oliver e perceber seus olhos cruéis, entendeu que se ele ousasse fazer alguma loucura assim, talvez ele próprio fosse morto pelo sujeito.

    Que merda eu estou pensando? Eu sou só um Tenente medíocre. Salvar os outros? Isso não existe! Eu nem sei se posso me salvar… O jovem Tenente pensou, ao perceber que isso estava muito além do seu alcance. Simplesmente era assim que esse mundo funcionava e não havia como um indivíduo fraco como ele fazer algo a respeito.

    Lerona, que estava ao lado, percebeu os sentimentos do rapaz e ficou em silêncio, pensativa. Mesmo que não se sentisse à vontade nessa situação, também não entendia por que ele estava tão preocupado com algo que sequer era Humano.

    Antes, ela teve essa dúvida. Por que Fernando havia mantido em segredo uma Medusa? Escondendo e acobertando sua existência da Legião? No entanto, ao ouvir o choro das crianças Elfas, sentiu seus batimentos acelerarem levemente, finalmente entendendo um pouco. Ela não precisava que ninguém lhe dissesse isso, ela simplesmente podia sentir.

    Isso não é certo… pensou, cabisbaixa. Mesmo que os Elfos não fossem Humanos, ainda eram humanoides e sencientes. A seu ver, escravizar crianças da outra parte não era diferente de um crime de guerra!

    Os lances continuaram de forma incessante, diminuindo apenas após passar das 300 moedas de prata.

    “Vendido para o senhor do assento Nº 532, pela pechincha de apenas 335 moedas de prata!”

    Um velho, do assento indicado, levantou-se satisfeito, os outros ao redor bateram palmas,  parabenizando-o.

    “Loucos, pagando mais de trezentas moedas de prata por um lixo de Elfo. Eu não daria uma única moeda de cobre por isso”, disse o sujeito de cabelos cinzentos amarrados, com escárnio. “Já matei tantos desses. Se eu soubesse que valiam tanto… Com certeza, esses depravados vão fazer todo tipo de coisa com elas. Bando de animais, por que não acasalam de uma vez com um Bulai ou um Porco Vermelho? Seria menos asqueroso.”

    “Silêncio, Eduardo!” A garota de cabelos azuis falou, com uma voz fria.

    “S-sim, me desculpe, senhorita!”

    Um certo silêncio se seguiu na sala após as palavras do homem.

    O leilão seguiu em rápida sequência, o restante das crianças Elfas foram rapidamente arrematadas, com o maior lance sendo pouco mais de 400 moedas, por uma jovem garota de 15 anos.

    Fernando observou tudo isso com uma expressão extremamente gelada em seu rosto, por muitas vezes querendo desviar o olhar, mas forçou-se a assistir. Esse era seu pecado, o pecado da fraqueza, e ele deveria enfrentá-lo de frente, para que nunca esquecesse.

    A angústia e empatia em seu peito rapidamente se transformaram em um sentimento avassalador de pura ira. Humanos? Como exatamente esses monstros poderiam pertencer à mesma raça que ele?

    Esse fulgor lacerante que sentia se intensificava a cada instante, enquanto elas eram levadas uma após a outra por seus compradores. Um velho em específico, semi-careca e nariz pontudo, do assento 532, tinha sido o maior comprador, levando cerca de cinco delas.

    O jovem Tenente fez questão de memorizar seu rosto, imaginando que, se o velho desse o azar de cruzar seu caminho, ele garantiria que ele não tivesse um bom final!

    “Agora, vamos ao segundo lote! Um extremamente importante e que muitos dos senhores estarão interessados!” Assim que o homem disse isso, guardas trouxeram três mesas, cada uma contendo itens cobertos por um pano branco. Quando estava ao seu alcance, o sujeito puxou a cobertura. Logo, três tipos de objetos ficaram à mostra, semelhantes a cristais.

    Ao ver aquilo, muitos da multidão abaixo se espantaram.

    Tentando abafar a raiva em seu peito, o jovem Tenente focou-se nos novos itens e olhou aquilo com surpresa. Pareciam Cristais de Mana, presentes no corpo de animais e monstros, mas, ao mesmo tempo, eram diferentes. Sua tonalidade era mais esbranquiçada e eram mais lisos e regulares.

    “Aqui temos três tipos de Cristais de Carga. Temos dez Cristais Pequenos, três Médios e um Grande. O lance mínimo será de 500 moedas de prata para os Pequenos, 5 moedas de ouro para os Médios e 25 moedas de ouro para o Grande.”

    Ouvindo aquilo, Fernando ficou espantado.

    Por que essas coisas são tão caras?

    Nesse momento, Oliver teve uma mudança de expressão, a velha senhora e mesmo o Alquimista Niesttra também.

    “Eles realmente começaram com uma boa isca, não é?” A velha, Magnólia, comentou, com um olhar afiado, focado no Grande Cristal, seu interesse pelo item era evidente.

    Nesse momento, o leiloeiro sorriu.

    “Primeiro Cristal de Carga Pequeno, lances abertos!”

    “550 moedas!”

    “570!”

    “650!”

    A multidão no palco abaixo começou a ofertar loucamente, em relação ao leilão dos Elfos, muito mais pessoas participaram dessa vez e a disputa estava extremamente intensa e acirrada.

    O jovem Tenente, que viu aquilo, estava perplexo, então aproximou-se de Lerona, cochichando em seu ouvido.

    “O que são essas coisas?”

    Ao ouvir a pergunta, Lerona olhou de lado para o rapaz, suspirando. Ela não se sentia à vontade de falar a respeito dessas coisas. Ela já havia ouvido falar disso, mas nunca tinha visto com seus próprios olhos.

    “São Cristais de Mana Artificiais”, respondeu brevemente.

    Ouvindo isso, Fernando olhou de forma estranha para ela.

    “Qual é sua utilidade?” indagou.

    Vendo que o rapaz continuava perguntando, a Capitã sabia que não havia muito o que pudesse fazer além de explicar em voz baixa.

    “Você já deve saber disso, muitas Legiões, Guildas e mesmo algumas empresas comerciais dependem de Cristais de Mana para suas operações. Seja para defesa, produção de equipamentos, poções e itens ou mesmo para fazer guerra. Comprar e armazenar pilhas de Cristais de Mana naturais é uma tarefa difícil e cara, com valores flutuando de acordo com a oferta e demanda. Devido a isso, algumas organizações criaram meios de fabricar artificialmente Cristais de Mana e os vendem em lugares secretos como esse. Os Cristais de Carga não têm uma qualidade muito boa, mas armazenam somas massivas de mana que poderiam até manter uma cidade em funcionamento por um tempo.”

    Fernando assentiu, já estando ciente do primeiro fato, já que ele próprio tinha estocado alguns Cristais de Mana para venda. Ele ficou impressionado que um item assim existia. No entanto, algo ainda o incomodou, algo que o fez juntar as sobrancelhas com desconfiança.

    “Se um item tão bom existe, por que seria vendido no submundo? Presumo que, nesse caso, seja proibido pelo Conselho Superior. Por quê?”

    “É muito simples, rapaz.” Nesse momento, Niesttra, que estava do lado direito de Fernando ouvindo vagamente a conversa, não pôde evitar de se intrometer. Sua expressão séria e contendo algum rigor: “Cristais de Carga são ilegais, simplesmente porque… são feitos de pessoas vivas.”

    Quando o jovem Tenente ouviu isso, sua expressão mudou.

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