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    O jovem Tenente continuou olhando, de forma estática, para o velho, que apenas escolheu um assento da sala compartilhada, acomodando-se próximo a Lerona e Oliver, com um assento livre entre eles.

    Esse cara… ele realmente é Niesttra Domus, o criador do meu Anel Domus? pensou, ainda sem acreditar.

    Fernando sabia muito bem que, se ele ainda estava vivo até aquele dia, em grande parte, era por causa do Anel Domus. Sem ele, o rapaz tinha certeza de que teria morrido na sua primeira missão como Recruta. Não só ele, como Karol, Emily, Ronald e todos os outros que faziam parte da Equipe 2 e 4.

    De certa forma, o velho era seu benfeitor, mesmo que sequer soubesse de sua existência.

    Oliver notou o velho sentando-se próximo a eles e o olhou de forma estranha, sentindo que ele parecia levemente familiar, mas não conseguia se lembrar exatamente de onde o conhecia. Como não conseguiu lembrar, pensou que não deveria ser ninguém importante e focou em Fernando, que continuava de pé próximo à entrada.

    “Tenente, o que está fazendo? Sente-se de uma vez”, o Major ordenou, franzindo o cenho.

    “S-sim, senhor!” O jovem Tenente respondeu, com uma expressão hesitante.

    O que está havendo? O Major Oliver não sabe quem é essa pessoa? pensou, confuso, quando caminhou até seu assento, sentando-se ao lado de Lerona e do velho.

    Deve-se saber que dentro dos Leões Dourados, o nome Niesttra Domus era extremamente famoso e importante, sendo um dos únicos Mestres contratados por ela. Mesmo fora da legião, era tido como uma figura respeitável e grande estudioso, tendo feito grandes contribuições aos Magistas.

    Apesar de ser um Mestre Alquimista, uma de suas criações mais famosas, o Anel Domus, não era algo que normalmente seria feito por sua profissão, evidenciando que o Mestre dominava mais de uma área de produção. O fato de ele ter percebido a matriz oculta significava que, no mínimo, ele tinha algum conhecimento a respeito.

    Vendo que Oliver não reconheceu o velho e o oposto também não havia ocorrido, Fernando ficou em silêncio.

    Como estavam em um leilão ilegal, claramente não seria bom citar nomes e o rapaz sabia que o Mestre Alquimista não queria revelar sua identidade a outras pessoas. Como esse era o caso, não interferiu, mas sentiu que, se pudesse, seria bom se conectar a essa pessoa.

    Olhando ao redor, Fernando viu que ainda havia vários assentos disponíveis, num total de onze. Somado ao que ele e os demais ocupavam, tinham quinze. Sendo assim, levando em conta que cada ingresso permitia até cinco pessoas, deveriam ser três ingressos para cada sala compartilhada. Ou seja, deveria haver pelo menos mais uma pessoa ou grupo chegando.

    Como uma das entradas foi comprada por Oliver, um Major com autoridade de General e a outra por um Mestre Alquimista, significava que o valor não era nada barato e só pessoas importantes ocupavam esse tipo de espaço.

    Inclinando-se levemente para frente, Fernando olhou para o enorme anfiteatro à frente. A sala em que estavam era no segundo piso, era como se fosse uma espécie de ‘camarote’, com uma fina película de vidro que impedia os que estavam do lado de fora ver os que estavam dentro e abaixo ficava um auditório lotado, provavelmente com pessoas menos abastadas.

    No entanto, eles não estavam na área mais importante. Enquanto havia cerca de dez salas compartilhadas, o rapaz observou que acima, no terceiro piso, havia apenas três enormes salas VIPs. Fernando não pôde imaginar que tipo de pessoas ocupavam aquele lugar, já que parecia tão seleto. Devido à proteção externa de cada sala, era impossível ver os ocupantes.

    Vendo essa disposição, o jovem Tenente logo chegou a uma compreensão.

    Entendi. Aqueles nas salas compartilhadas e VIP têm sua identidade protegida, enquanto os que estão no auditório não. Se alguém quer comprar ou vender itens importantes sem ser visado por ladrões e assassinos, definitivamente precisa estar numa dessas.

    Beep!

    Enquanto o rapaz pensava nisso, um som foi emitido da porta, quando a trava de mana foi desbloqueada. Logo um grupo de pessoas adentrou sem qualquer cerimônia.

    Ao verem quem eram, tanto Fernando quanto Lerona, que também estava atenta à entrada, ficaram espantados.

    Uma velha senhora, de manto branco, estava à frente do grupo, enquanto uma garota de cabelos e olhos azuis intensos estava logo atrás e, por último, um sujeito de bigode e longos cabelos cinzentos amarrados.

    Quando a Capitã ruiva e o jovem pálido viram o grupo, os mesmos também os notaram.

    “Você de novo…” A garota de cabelos azuis exclamou, parando no meio do caminho, surpresa ao focar seu olhar no rapaz pálido.

    A velha e o sujeito de cabelos cinzentos também reconheceram a dupla, franzindo imediatamente o cenho.

    “O que gente do seu tipo faz aqui?” O sujeito chamado Eduardo indagou, cheio de arrogância. Sua expressão de nojo não poderia ser escondida.

    Inicialmente, Fernando sentiu-se um pouco intimidado, principalmente após descobrir que eles faziam parte de alguma comitiva de uma Grande Legião e claro, ao ver com seus próprios olhos a força monstruosa da garota, mas ao ouvir as palavras do sujeito, sua expressão ficou fria.

    “Você tem algum problema com isso?” O jovem pálido perguntou, de volta. “Se tem, você deveria estar lá em cima”, disse, apontando para o alto, indicando as salas VIPs.

    Isso fez o homem franzir o cenho, irritado. Mas o jovem Tenente não parou por aí, quando deu um leve sorriso provocador.

    “Ou pode ser que você não tenha dinheiro suficiente para isso? Acho que ‘gente como você’ não é grande coisa também.”

    “Seu…!” O sujeito de cabelos cinzentos ficou furioso, sua mão tremendo, como se fosse, a qualquer momento, sacar sua espada.

    O velho Mestre de Alquimia observou toda aquela cena com aparente interesse, surpreso que o rapaz pálido e bem-educado que acabara de conhecer também tivesse um lado tão afrontoso e provocador. Enquanto Oliver, que estava ao lado de Lerona, ficou confuso.

    “Tenente, o que está acontecendo aqui?”

    Somente ao ouvir a voz do Major, é que Fernando se deu conta de que havia exagerado, então se conteve.

    Merda… Eu falei que não ia fazer isso de novo… pensou, sentindo que havia falado mais que o necessário, deixando sua emoção tomar conta mais uma vez.

    “Não é nada, senhor, apenas algumas pessoas hospedadas no mesmo lugar que nós. Tivemos algum desentendimento antes”, Lerona explicou apressadamente, cobrindo o jovem Tenente com uma explicação rápida.

    Com a indagação do homem e as palavras da ruiva, Eduardo, que estava tão vermelho quanto um pimentão, focou-se nele.

    “Olha só, senhor? Parece que os vermes estão se multiplicando e finalmente achamos o líder deles. O líder dos vermes”, declarou, sem qualquer medo pela altura do sujeito, que, mesmo sentado, era pelo menos dois palmos mais alto que os outros dois.

    Ouvindo isso, Oliver, que parecia calmo e confuso, mudou de expressão.

    “Está querendo morrer, seu porco?” indagou, quando um pequeno brilho de mana piscou em seus olhos e, assim que o fez, toda a sala começou a tremer levemente, uma poderosa pressão se espalhou focando no homem.

    A velha, de roupas brancas, arregalou os olhos.

    Um General? pensou, estarrecida.

    Normalmente, mesmo que não fosse possível ter certeza do nível de força da outra parte apenas lendo seu mana, era possível ter uma estimativa aproximada. No entanto, a velha mulher era uma especialista em rastreamento de mana e, assim que sentiu aquelas ondas de energia, teve certeza de que o sujeito gigante era um poderoso Mago.

    Eduardo paralisou no lugar, quando todo seu corpo começou a tremer.

    “E-eu…”

    Antes que ele pudesse terminar sua frase, alguém bloqueou seu caminho.

    “Meu subordinado falou mais do que o necessário. Nos perdoe por isso. Não acontecerá novamente, eu garanto.”

    Vendo a velha tomar a frente do sujeito e receber toda a pressão como se não fosse nada, Oliver estreitou os olhos.

    Como alguém chamado de ‘arrogante’, ele não costumava abaixar a cabeça facilmente, mas, ao contrário do que seu título indicava, ele não era um tolo, sabendo quais batalhas deveriam ser travadas e quais não.

    “Não terá uma próxima, se houver, garantirei que será a última.”

    Apesar da declaração arrogante, Magnólia entendeu isso como um recuo, quando assentiu.

    “É claro. Nesse caso, eu mesmo o executarei.”

    Oliver continuou a encará-lo. Claramente, a velha não estava realmente com medo. Era mais como se fosse um incômodo para ela caso isso levasse a um conflito sério.

    Quando ela falou sobre executá-lo, Eduardo sentiu um arrepio em sua espinha, pois sabia que essa mulher não era do tipo que voltava atrás em suas palavras. Após dizer isso, Magnólia lhe lançou um olhar assassino, comprovando que seu pensamento estava realmente certo.

    Vendo o homem ser tratado dessa forma, Fernando também não disse nada, mas não pôde dar um leve sorriso provocador em sua direção.

    Esse é o benefício de estar ao lado de um General? pensou consigo mesmo, satisfeito. Uma única frase e olhar de Oliver foram suficientes para encerrar a situação. Isso fez o rapaz pensar a fundo. As pessoas nesse mundo realmente só respeitam a força…

    Enquanto Fernando pensava nisso, Eduardo tinha um olhar cheio de ódio, principalmente após ver seu sorriso.

    E-esse maldito! Apesar de sua frustração e humilhação, não ousou dar mais uma palavra sequer.

    Humph!

    Ao contrário do homem de cabelos cinzentos, a garota de cabelos azuis não parecia intimidada pela presença de Oliver, mantendo-se calma, quando foi em direção a um dos assentos, ocupando alguns lugares depois do Mestre de Alquimia, que tinha assistido tudo com um semblante impassível, mas curioso, como se estivesse aproveitando um bom show de TV.

    Logo todos ocuparam seus lugares e não tiveram que esperar muito, quando um homem alto e magro subiu ao palco central. Abrindo um largo e bizarro sorriso, o sujeito começou a falar.

    “Senhoras e senhores. Eu, Otelo Biliark, humildemente agradeço a presença de todos hoje e serei seu anfitrião durante este leilão.” A voz do homem soou extremamente alta, quase como se estivesse bem ao lado de cada uma das pessoas no enorme anfiteatro, claramente usando um Amplificador de Voz.

    Assim que o sujeito disse isso, uma série de vozes explodiu abaixo.

    “Um Biliark? Ele é membro de uma das empresas comerciais proprietárias de Yandou?!”

    “Heh! Para um membro direto deles estar aqui, significa que esse não será um leilão simples.”

    “Parece que os rumores estavam certos, interessante!”

    Devido à fina película que separava a sala compartilhada, as vozes de dentro não se espalhavam para fora, mas aqueles dentro ainda poderiam ouvir os que estavam fora. Graças a isso, Fernando pôde discernir alguns dos comentários em meio ao caos.

    Esse realmente é um evento tão importante? pensou, perplexo. Mas, ao parar para pensar, lembrou-se de algo. Arayel, uma Medusa, tinha se arriscado usando sua falsa identidade, Eterna Viajante, para ir até um lugar como Yandou, quase nos limites do fronte da guerra. Claramente, ela não havia ido até lá sem motivos. Talvez ela quisesse vender alguns dos seus produtos? Ou talvez comprar algo em específico, mas desistiu por nossa causa?

    Enquanto o jovem Tenente tinha uma expressão tensa pensando a respeito, o sujeito magro e de sorriso estranho continuou, parecendo ter conseguido o que almejava. Então apontou para o alto.

    “Aos estimados convidados das salas VIP e compartilhadas, há um dispositivo para cada convite armazenado em um compartimento que será liberado… agora.” Ao dizer isso, Fernando e os demais viram três pequenos alçapões abrirem na parede esquerda, com um cartão prateado dentro de cada um. “Caso queiram fazer um lance, basta inserir seu mana em seus cartões pensando no valor do lance e ele será imediatamente identificado. Aos demais da plateia, basta levantar a placa disposta abaixo de seu assento e dizer o valor do lance.”

    Ao ver os três cartões, Oliver levantou-se, pegando um, seguido de Niesttra e por fim, a garota de cabelos azuis. Foi um ato simples de cada indivíduo, mas essa simples ação revelou quem era a pessoa mais importante de cada grupo.

    Fernando não pôde evitar olhar discretamente na direção da garota.

    Ela é realmente uma gênio tão importante a ponto de liderar sua comitiva? pensou, com curiosidade.

    Pelo que se lembrava, era necessário passar alguns anos na Academia Militar antes de se graduar como Capitão. Ou ela parecia muito mais jovem do que aparentava, ou deveria ser realmente especial.

    Enquanto ele pensava nisso, Eduardo tomou a frente da garota, encarando Fernando como um lagarto faminto.

    O rapaz pálido não pôde evitar revirar os olhos para isso.

    Ignorando o homem, Fernando mudou seu foco, encarando o mar de pessoas abaixo. O tratamento entre aqueles abaixo e os das salas era realmente muito desigual. Ele até pensou em ficar com pena daqueles no andar inferior, mas mudou rapidamente de ideia ao ver o que aconteceu a seguir.

    “Muito bem. Acredito que todos já estejam à vontade, então darei início ao leilão com nosso lote de entrada de número 01. Algo que muitos de vocês desejam, e trouxemos com exclusividade.”

    Após o sujeito dizer isso, alguns guardas saíram da lateral do palco, arrastando pequenas pessoas com os rostos cobertos por panos, que gritavam e se contorciam, totalmente amarradas.

    Assim que elas apareceram, a plateia abaixo clamou, cheia de empolgação.

    Quando Fernando viu isso, sua expressão ficou totalmente escura.

    Esses filhos da puta!

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