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    Lycomedes havia levado todos os civis para os abrigos.

    Ou quase todos. Dois velhos recusaram categoricamente e tiveram que ser convencidos com argumentos que ele não se orgulhava de ter usado. Uma criança fugiu do grupo e foi encontrada embaixo de uma mesa na tenda do ferreiro. Isso custou tempo que ele não tinha. Quando a última câmara de pedra fechou e o último ferrolho deslizou, Lycomedes ficou de pé no corredor subterrâneo e ouviu os estrondos lá de cima com o silêncio calculista.

    A ala de cura ficava a trinta metros do abrigo. Temia ter se esquecido de algum dos enfermos.

    Ele subiu.

    As ruas estavam vazias, ou assim pareciam, na escuridão que não deixava ver além de dois braços de distância. Lycomedes caminhou com a mão direita estendida a tocar as tendas à sua esquerda para não perder a orientação. Três tendas. Virada. Mais duas. A lona da ala de cura tinha uma textura diferente das outras, mais grossa, tratada com cera para impermeabilizar — ele a reconhecia pelo tato.

    Entrou. A visão dos fundos o fez perder o ar e ganhar a visão.

    O jardim de Sophia ficava nos fundos da ala, num quadrado de terra aberta entre a lona da enfermaria e a parede de pedra do antigo muro interno. Era pequeno — dez passos por oito — e Sophia o cultivava com uma atenção que Lycomedes havia observado de longe sem nunca entender completamente.

    Ele entendia agora: as plantas produziam luz própria. Uma, duas, doze espécies diferentes, cada uma com seu brilho específico — a erva-da-lua com o azul conhecido, mas também outras, um verde-amarelado que pulsava devagar, um branco frio que não oscilava.

    Na escuridão absoluta, o jardim era a única fonte de luz que restava no assentamento inteiro. Lycomedes ficou parado diante dele por um momento contemplativo. Depois se ajoelhou e começou a colher.

    Trabalhou rápido, com a mão dos seis dedos abrindo caminho entre os caules sem arrancar as raízes. Não sabia quais plantas eram mais úteis — Sophia saberia, mas Sophia não estava ali. Colheu as maiores, as de brilho mais estável, e as foi colocando na sacola de couro que havia trazido dos abrigos.

    Não percebeu a sombra atrás dele.

    Ela não fazia som. Não deslocava o ar ou respirava. Ficou a dois metros de suas costa, imóvel, e observou. O jardim iluminava apenas a frente de Lycomedes, suas costas ficavam no escuro, o perfil da sombra restava invisível contra o negro da noite de Nix.


    A porta de pedra parecia intimidadora a primeira vista, mas cedeu ao primeiro toque do rei.

    Licaão a empurrou com a mão espalmada e ela girou sobre gonzos de bronze que chiaram com o som de eras sem uso. O interior revelado pelo brilho da erva-da-lua de Sophia era uma câmara quadrada de teto baixo — quatro metros por quatro, com as paredes lisas e sem decoração. No centro da câmara, um pedestal de pedra negra, isolado, com a superfície plana e polida.

    Vazio.

    — O… O que? — A voz de Licaão pareceu, pela primeira vez e para a surpresa de todos, trêmula.

    O grupo se alinhou ao seu lado, e viram o motivo de seu choque.

    No chão, ao redor do pedestal, os fragmentos.

    Eram sete pedaços. A lâmina estava partida em ângulos irregulares, como metal implodido, cada fragmento com as arestas dobradas para dentro, para o centro. 

    Licaão começou a superventilar.

    — Zeus… Zeus… Zeus…

    Destruído de modo a garantir que não voltaria jamais.

    Licaão ficou de pé na entrada da câmara.

    Teseu ficou atrás dele e não disse nada. Plutarco, que havia aberto a tabuleta e o estilete ao entrar no corredor — quase por reflexo — fechou-a devagar e segurou-a contra o peito.

    O rei deu três passos até o pedestal. Parou diante dele. Ficou olhando para os fragmentos no chão por tempo suficiente para que os outros se vissem sem noção de como reagir

    Depois Licaão se ajoelhou.

    Estendeu a mão e tocou o maior fragmento: a parte da guarda, ainda com a forma curva que identificava a origem da arma, o metal escurecido e sem brilho mas com a densidade que a origem no submundo conferia. A mão ficou parada sobre o fragmento sem pegá-lo.

    Teseu olhou para Sophia. Ela olhou para o chão.

    — Zeus a destruiu. — Licaão murmurou, apático. — Ele a destruiu e achou que bastava. Que bastava fazer o mesmo que sempre fez: tomar o que ameaçava e quebrar até que não ameaçasse mais.

    Teseu deu um passo à frente, mas parou.

    — Fez isso com os Titãs. Fez com Prometeu. Fez com Hélio. — Licaão retirou a mão do fragmento e ficou de pé devagar. — Fez comigo.

    Sophia parecia incomodada na entrada, sem saber bem o que discernir da cena que se desenrolava.

    — O… O que está acontecendo? — A voz dela escapou sem que ela pudesse controlar. — Era isso que viemos buscar? É isso que vai salvar o nosso povo?

    Teseu recuou até a entrada e parou diante dela com um olhar compassivo. Não tocou-a, mas fez-se presente com uma expressão que a fez sentir um pouco menos alerta. Eles caminharam até o centro da saleta, tendo a garota se sentido mais confortável para tal.

    As palavras da garota perfuravam ainda a mente e o peito do rei Licaão.

    “Foi para isso que vim até aqui? Que maldita esperança nutri, depois de todo esse tempo?”

    A câmara ficou em silêncio por um momento.

    Plutarco abriu a tabuleta de novo e limpou a garganta.

    — Para o registro — ele disse num tom que buscava chamar a atenção — estou documentando o estado atual da Espada Bastarda de Hefesto, forjada com minerais do submundo, destruída por ordem de Zeus após o incidente do banquete. Os fragmentos estão presentes. A arma é irrecuperável na forma original. — Pausa. — Por enquanto.

    Licaão o olhou de canto e ergueu o cenho. Não disse nada.

    — As lendas dizem que a arma mais poderosa do Rei Lobo de Arcádia são suas próprias mãos. — Plutarco anotou. — Não há lâmina que o corte sem se quebrar, nem escudo que o enfrente sem se despedaçar.

    Ele ergueu o olhar para o colega ajoelhado que o olhava de volta com um brilho estranho no olhar.

    — Ponto final. — Completou e sorriu.

    Fechou a tabuleta.

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