Índice de Capítulo

    Os três centauros restantes mudaram de tática.

    Silvo percebeu antes de conseguir articular o que havia mudado — era uma questão de padrão de movimento, de como as manchas se deslocavam. Antes, cada centauro atacava em sequência, um de cada vez, como se testassem a resistência em pontos diferentes. Agora os três se posicionavam ao mesmo tempo, um na frente, dois pelas laterais. Nesso ainda não se movia.

    — Calixto. Eles vão atacar ao mesmo tempo. Frente e dois lados.

    — Quantos homens temos na linha?

    Silvo contou as manchas. Contou de novo.

    — Vinte e dois. Theo tirou quatro para cobrir o lado norte, onde as sombras tentaram escalar o muro.

    — Vinte e dois não cobrem os dois lados. — Calixto parecia controlada, mas tensa. — Qual lado é mais fraco?

    — Esquerda. Dois dos homens lá estão com ferimentos do centauro de lança.

    — Esquerda vai ceder. — Calixto disse para Theo, ao lado dela.

    — Eu sei. — Theo disse. — Quando ceder, a gente fecha o buraco pelo centro. Não vou perder mais ninguém tentando manter uma formação impossível.

    — E quando eles entrarem pela esquerda?

    — Silvo me diz onde estão. Eu vou lá.

    Um estrondo.

    O centauro da frente colidiu com os escudos do centro, e a linha empurrou de volta — bem, coordenada, os calcanhares riscaram a terra. A criatura recuou dois passos. Lento. Olhou para a linha. Abriu a boca num sorriso que revelou dentes largos e amarelos, e colidiu de novo no mesmo ponto com o dobro do impulso. O impacto separou dois escudos. O soldado entre eles perdeu o equilíbrio, e o casco desceu sobre ele antes que tocasse o chão. Não se levantou.

    O centauro da direita ignorou os escudos por completo. Foi direto à única tocha acesa na muralha; a braçadeira de ferro, o cabo de madeira, a chama que os soldados daquela ala haviam conseguido erguer e usavam como âncora de orientação no escuro. Um casco derrubou a braçadeira. A tocha caiu. O fogo morreu no chão de terra em silêncio, e os dois soldados mais próximos gritaram ao mesmo tempo antes de serem engolidos pela escuridão. O centauro entrou por entre eles em marcha. Escolheu um. O impacto do ombro atirou o homem quatro metros contra a parede do assentamento.

    O centauro da esquerda colidiu e os dois soldados feridos cederam como Silvo havia previsto: o joelho dobrou, o escudo abriu, o homem ao lado tentou cobrir o buraco e não chegou. A criatura passou pela abertura e parou dentro da linha. Ficou parada. Olhou para os soldados ao redor que não a viam. Escolheu com calma.

    — THEO, À ESQUER… — Silvo gritou, mas era tarde.

    Escolheu o soldado mais jovem.

    A lança horizontal varreu dois homens ao mesmo tempo. O que viu agachou tarde. O que não viu não teve escolha. O centauro olhou para os dois no chão e voltou os olhos para o resto da linha com expressão paciente e satisfeita.

    — Esquerda! Dentro da linha! — Silvo gritou, tentando se manter sob controle.

    Theo já corria.

    Chegou pelo flanco exposto, um segundo de abertura, a espada nas duas mãos, toda a força dos ombros e das costas num único empurrão. A ponta entrou no flanco da criatura. O centauro berrou, um som que misturava grito humano e relinchar equino. Girou a lâmina ainda no flanco. Theo soltou o cabo antes de ser arrastado junto. A criatura recuou três passos, esbarrou na parede do assentamento e ficou com a respiração funda e irregular, o flanco subia e descia.

    Olhou para Theo com os olhos vermelhos. Depois olhou para o chão à sua esquerda — para o cadáver do centauro de lança, tombado mais cedo, imóvel no pó escuro. Sorriu.

    — É inútil. — uma voz rouca e selvagem escapou de seus lábios.

    Silvo olhou junto.

    A sombra tremia abaixo do cadáver.

    O chão sob o corpo se abriu como uma membrana e a sombra a atravessou de dentro para fora lentamente. O cadáver não se moveu. A sombra que emergiu tinha a forma de quatro patas e tronco ereto, os contornos indefinidos — mas a escala era a do centauro que ali esteve, e o movimento era o daquela criatura, os mesmos padrões que Silvo havia aprendido a ler durante a batalha. Ficou de pé no escuro ao lado do corpo de onde havia nascido. Virou o que era a cabeça para a linha de defesa.

    Silvo parou de respirar. Os joelhos cederam.

    No fundo da escuridão, Nesso sorriu.

    O brilho dos dentes brancos no negro compacto durou um segundo. Ele não havia se movido desde que entrou. Ficou de pé na retaguarda com os olhos vermelhos acesos e o sorriso que havia sumido dos lábios mas deixado rastro nos ombros, na postura, no ângulo da cabeça.

    A sombra do centauro morto tomou posição ao lado dos outros dois.

    — Silvo. — A voz de Calixto chegou baixa e firme de algum ponto à sua esquerda. — Quantos temos na frente?

    Ele abriu a boca. A resposta não veio de imediato — a mente estava dois passos atrás do que os olhos haviam visto, tentando alcançar.

    — Silvo.

    — Quatro. — A voz saiu mais seca do que ele pretendia. — Temos quatro de novo.

    O silêncio de Calixto durou menos de um segundo. Não havia tempo para dúvidas.

    — Fecha o buraco da esquerda. — A ordem saiu com a mesma qualidade das outras — direta, sem o peso do que ela havia acabado de processar. — Feridos, dois passos atrás. Quem está bem, dois à frente e cobre o lugar deles.

    A linha se reorganizou. Com mais buracos do que antes. Com menos homens do que antes. Com sombra na formação inimiga tremulava, quase indistinta da noite.

    O centauro que Theo havia atingido no flanco recuperou a respiração. Endireitou o tronco. Arrancou a espada do próprio flanco com uma mão, lentamente, e a deixou cair no chão de terra. A ferida ficou aberta. Não pareceu importar.

    Voltou ao lugar na formação.

    Silvo olhou para a linha à sua frente. Para os rostos que não viam o que ele via. Para Calixto de espada erguida no escuro, para Theo de pé entre os soldados com os braços ainda pesados do esforço, para os homens que seguravam os escudos contra o nada.

    No fundo da escuridão, Nesso esperava.


    Teseu estava de costas para a porta quando ouviu os passos.

    As sombras não produziam sons. Ele se virou.

    Licaão estava virado antes dele.

    A figura apareceu na porta da câmara com a erva-da-lua de Sophia iluminando o rosto de baixo para cima — sombras nas bochechas, luz nos olhos. Era Mines. O vestido de curandeira, o cabelo preso, as mãos à frente do corpo, os dedos entrelaçados e a calma.

    — Encontraram o que procuravam. — Ela olhou para os fragmentos no chão ao redor do pedestal. — Ou o que restou.

    Sophia deu um passo para o lado, involuntário. Olhou para Mines com os olhos apertados.

    — Mines. — Sophia disse. — O que você está fazendo aqui?

    A mulher na entrada da câmara inclinou levemente a cabeça para o lado. O sorriso que apareceu tinha o calor ausente, a curva labial que existia sem razão de ser.

    — O mesmo que você, minha querida. — Disse. — Procurando o que não perdi.

    Teseu levou a mão à xiphos. Licaão ficou imóvel ao lado do pedestal, os olhos no rosto da mulher, os dentes crivados.

    Plutarco recuou um passo, mas permaneceu à frente de Sophia.

    A mulher começou a rir.

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