Capítulo 166 | Memórias
Mnemósine ficou de pé na entrada do cofre com as mãos à frente do corpo e os dedos entrelaçados, e quando falou foi com o tom professoral e materno que causou a todos estranhamento.
— Há muito tempo que este lugar espera pelo seu dono. É justo que ele o veja uma última vez.
A mão direita se abriu e uma moeda com efígies de três luas, cada uma numa fase, se mostrou no centro da palma. Pulsou uma vez, escuro e fundo; sua mão parecia uma espécie de túnel. Teseu arregalou os olhos.
“Essa moeda.” Percebeu tarde demais.
Puxou a espada sem pensar e avançou contra a mulher. A escuridão da mão dela se expandiu de repente e envolveu sua visão como uma rede de tinta negra.
O cofre desapareceu.
As paredes de pedra, o pedestal vazio, os fragmentos no chão, a erva-da-lua de Sophia. Tudo se desfez de uma vez, sem aviso, e o que surgiu no lugar fez o rapaz prender o ar.
O grande salão de Arcádia.
Teseu ficou imóvel.
Era enorme. Colunas de mármore branco até o teto, tochas em suportes de bronze com padrões que não se esculpiam em séculos, tapeçarias com lobos em campo de batalha nas paredes. O piso era de pedra polida cor de areia, com o reflexo das tochas escorregando pela superfície. Mesas compridas dispostas ao centro, com comida, com ânforas, com copos de prata.
E as pessoas ao redor das mesas em pé, aguardavam o início da refeição.
— Não consigo me mover. — Sophia disse, baixo.
O rapaz ouviu-a e se assustou. Algo na experiência fê-lo sentir-se indubitavelmente sozinho, a voz acordou-o dessa ilusão sem aviso.
Teseu olhou ao redor. Sophia estava a dois metros, imóvel, os olhos percorriam o salão com a expressão assustada. Plutarco estava mais à esquerda, mesma distância, expressão curiosa e tensa. Licaão estava separado dos três, à frente, mais próximo da mesa e dos outros estranhos que há pouco surgiram.
Suas costas largas agora estavam cobertas por um pano mais nobre, de tom azulado e enfeites dourados. Sobre a cabeça, uma coroa.

Teseu frisou o olhar, desconfiado.
O rei parecia mais integrado ao salão do que eles. Mais dentro de qualquer coisa que aquilo fosse.
— Licaão.
O rei não respondeu. Sequer vacilou.
— Licaão! Responda!
Nada.
Teseu estava agoniado. Não conseguia se mover e seu colega ainda brincava de ignorá-lo. Abriu a boca para gritar mais alto.
— Ele não nos ouve. — Sophia o interrompeu. — Pare de gritar. Ele sequer parece ter ciência de que estamos aqui.
Era verdade. Os olhos de Licaão tinham foco. Ele olhava para o salão, para as pessoas ao redor das mesas, para o teto e as colunas. Mas não olhava para trás. Não olhava para eles.
— Este é o palácio de Arcádia. — Plutarco relatou, mais para si do que para os outros. O olhar do escriba transitava entre as colunas com interesse. — As colunas têm o estilo dórico tardio; este salão é anterior à guerra. Anterior a tudo o que restou lá fora em pedra.
— Mas como pode ser? — Teseu encarou o escriba, desacreditado. — Não estávamos nas ruínas desse lugar há pouco?
Plutarco respirou fundo.
— Se aquela mulher fala a verdade. Se realmente é Mnemósine, a Deusa da Memória, então creio que já saibamos a natureza de nossa situação.
Teseu olhou em volta, à procura de Mines.
Nada.
— Ela foi embora. — Ele disse.
— Para onde? — Sophia perguntou.
— Para onde deveríamos ter ido. — Teseu empurrou de novo contra a paralisia, com força suficiente para que a esforço fosse visível nos braços. O piso não cedeu. — Temos que sair disso. Licaão está preso aqui de forma diferente de nós. Se isto realmente for alguma espécie de feitiço, o alvo é claramente ele!
— Use os poderes. — Sophia sugeriu.
Teseu ouviu e sobressaltou.
“É verdade.”
Fechou os olhos e buscou. Apertou o punho, franziu o cenho. Embrenhou-se na intenção de seu próprio peito.
Nada.
Era como se não houvesse vida em volta. Para sentir, para dobrar. Nada.
— Droga! — Ralhou. — Não há nada aqui! É como se estivessemos no meio do nada!
— Então esperamos. — Plutarco suspirou. — E observamos. Se for uma memória, ela vai mostrar alguma coisa. Quando mostrar, talvez entendamos como sair.
As pessoas ao redor das mesas começaram a se mover.
Sua voz ressoou sem esforço aparente. Grave, profunda e anciã. Calixto a ouviu de quinze metros de distância como se o centauro estivesse ao lado.
— Eu preciso apenas da espada. — Nesso disse, então pausou. — Abram caminho para as ruínas e ninguém mais precisa cair esta noite.
Calixto apertou o punho contra o arco e rangeu os dentes.
— Não há honra em morrer por pedras. — Nesso continuou, paciente. — Eu sei que ouviram. Sei que já entenderam que não têm chances contra o meu exército de sombras.
— Ouvimos. — Calixto disse, firme e sem inflexão. — A resposta é não.
O silêncio de Nesso durou três segundos. Depois, deu lugar a uma gargalhada grotesca que fez os escudos tremerem.
Silvo, de pé entre Calixto e a linha, varreu os olhos pelo campo. As quatro manchas na frente. Nesso ao fundo. E então, pelo canto, pelo estreito da rua lateral ao leste — uma forma que se deslocava rente ao muro, baixa, como se não tocasse no chão. Uma das sombras, separada das outras, furtiva.
“Aquela direção…”
Ia para o palacete.
Silvo calculou. Calixto precisava dele na linha; as quatro manchas na frente tinham padrões que apenas ele conseguia ler, e sem ele as ordens seriam cegas. Mas a sombra ia penetrar o assentamento e poderia se tornar um risco para os civis ou para aqueles que haviam ido ao palacete, se ninguém a interceptasse.
— Capitã, uma sombra se infiltra pelo leste, rua lateral. Temo que vá ao palacete.
— Silvo, eu preciso de você aqui.
— Eu sei. — Ele bufou. — Mas se esses inimigos penetrarem nossas defesas dessa forma, acabaremos cercados.
Calixto resmungou, mas acenou para que ele partisse. Silvo não esperou segunda ordem.
Correu pela rua lateral no escuro com os olhos apertados para não perder a orientação. A sombra estava na frente. Era uma luta para não perdê-la de vista a cada curva porque a escuridão de Nix nublava a sua visão, apesar de não cegá-lo completamente.
Quando virou a terceira bifurcação, sentiu um coice contra o próprio rosto. Algo envolveu sua boca e o parou no meio do impulso da corrida. Frio, gélido. Ele puxou para frente com todo o peso do corpo mas os dedos sobre seus lábios não soltaram.
— Silvo. — Uma voz cansada, como se estivesse dentro da água, veio de trás. — Silvo, para.
Com olhos arregalados, o rapaz parou.
O sotaque litorâneo, o arrastar das vogais, o timbre. Mesmo embaixo d’água.
Silvo conhecia essa voz.

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