Capítulo 167 | A Guerra da Velha Arcádia
As paredes do salão se contraíram.
Estremeceram, moveram-se num padrão circular, como se surgisse nelas um redemoinho. As colunas de mármore tremeram. A luz das tochas oscilou. E então o salão se expandiu: o teto subiu até sumir, as paredes se afastaram, o piso de pedra polida se transformou em terra batida e depois em terra revolvida por cascos e botas, marcas de muitos homens e muitos cavalos que haviam passado e continuavam passando.
Um campo de batalha.
Teseu e Sophia olhavam ao redor surpresos, a garota confusa, o rapaz, preocupado. Plutarco arregalou os olhos e ralhou por não ter agora os meios para tecer suas anotações. O escriba conhecia esse cenário.
Arcádia de um lado. Do outro, reconhecia, pelo equipamento, pelas cores nos escudos, como a aliança de Esparta, Atenas e Corinto.
Arcádia em guerra; o que significava Arcádia dominando. Os exércitos que Rei Licaão havia reunido se estendiam à esquerda e à direita além do que a visão alcançava, estandartes com o lobo negro do reino sobre hastes de madeira cravadas no chão em intervalos regulares.
À frente, o exército inimigo. Menor, mais compacto, pressionado contra uma linha que recuava. O barulho era total: metal, cascos, gritos, o som seco de escudo contra escudo que se multiplicava em mil pontos ao mesmo tempo.
Teseu olhou para Licaão. O rei estava sobre uma carroça de guerra, com dois cavalos enormes, um negro e um branco, que guiavam-no no campo de batalha.
Ele era implacável. Sua lança dançava entre as linhas inimigas e pintavam o céu e a terra de sangue. Seu sorriso orgulhoso e perverso aterrorizava os soldados em seus últimos momentos de vida.
Sophia desviou o olhar, aterrorizada, Teseu apertou os olhos, desacreditado.
Plutarco parecia estupefato, em certa medida, mas também tinha um brilho academicamente maravilhado em seu olhar.
— Lá. — ele apontou com o queixo, em voz baixa.
No coração do campo, outro homem se destacava
Com armadura pesada, um capacete de comandante, uma espada e escudo. Um soldado Arcadiano de rosto coberto avançava a pé dentro das linhas inimigas, rivalizando em ferocidade com o próprio Rei, e em brutalidade com o próprio Ares.
Dado momento, cercado por três homens do exército inimigo, teve seu capacete acertado e viu-se sem ele. Seus cabelos negros e longos esvoaçaram contra a poeira do campo de batalha. Mesmo assim, saltou sobre as costas de um deles e o empurrou contra a lança de um outro. Decapitou o terceiro como se cortasse um bambu e terminou o último que havia sobrado com uma estocada na axila.
Subjugou os três sozinhos e, banhado em seu sangue, urrou.
Licaão gritou ao longe em resposta e avançou na direção deste soldado aliado.
— Quem é esse? — Plutarco perguntou.
— Parece-se com Licaão — Teseu disse. — Será que…
As feições do homem no campo eram as de Licaão trinta anos mais jovem. O porte parecia um pouco mais esguio, mas ainda poderoso.
— O filho dele? — Sophia completou a frase que todos pensavam.

Ao lado de seu pai, o comandante recuperou o capacete que havia caído e o equipou. Então, Licaão e ele voltaram à sanguinolência.
O Rei observava de trás. Observava com o orgulho de quem criou aquela máquina de guerra. Seu filho se erguia entre as linhas inimigas como um carrasco.
A batalha seguiu, os três espectadores não conseguiam se mover na lateral do campo de batalha.
Foi quando o sol atingiu seu zênite. Algo mudou.
Um soldado se ergueu nas linhas dos inimigos de Arcádia, estava coberto de sangue, dos pés à cabeça. Não se podia dizer com certeza se era seu próprio ou dos outros. Ele cruzou ambas as espadas que empunhava acima da cabeça e gritou. Seus aliados responderam.
Avançou. Outro banho de sangue. Ainda pior que o de Licaão, ainda pior que o do comandante Arcadiano.
— Plutarco. — Teseu disse.
— Eu estou vendo. — O escriba apertou o olhar. — Esse soldado não se move como os outros.
O filho de Licaão viu o soldado vir. Rodou o escudo para receber o impacto; técnica correta, força suficiente para segurar um touro. O soldado inimigo desviou do escudo com um curto passo lateral que desafiava a lógica da velocidade que mantinha, e a lâmina que trouxe pelo lado direito passou pela abertura da defesa com uma precisão milimétrica na junção entre o capacete e a couraça.
O Comandante tombou. Aquele soldado ensanguentado se afastou do corpo com a mesma velocidade de antes, sem olhar para trás, já com a atenção em outro ponto do campo. Movia-se com a leveza de uma pena, bloqueava com a resiliência de uma rocha, golpeava com a força de um touro.
— Nem parece humano. — Plutarco murmurou.
Teseu encarou o soldado ensanguentado em silêncio. Seus movimentos, sua velocidade, sua resistência. Apertou o punho e fraziu o cenho.
— É. Não parece mesmo…
Era impressão. Podia ser impressão. Tinha que ser.
Olhou para Licaão.
Para os punhos fechados ao lado do corpo. Para a expressão no rosto do rei enquanto ele assistia ao filho morrer. A raiva e a impotência e a culpa fundidas.
O pensamento ficou sem resposta. A memória não respondia perguntas.
Silvo ficou de pé na rua lateral com a respiração acelerada e as costas contra o muro. Na escuridão à sua frente, uma forma humanoide e sombria. Com os contornos tremulantes. Mas o timbre daquela voz ainda ecoava no espaço estreito como se a pedra a houvesse guardado em suas rachaduras, ou mesmo a sua mente.
— Letônio. — Silvo forçou o nome para fora, parecia ter pouco ar no peito.
A forma tremeu em silêncio, e como um assovio do vento, veio a resposta:
— E…u.
Uma única sílaba. Silvo percebeu a implicação daquilo, não queria acreditar. Não queria ver, não queria ouvir.
— O que te fizeram? — perguntou com um aperto no peito.
A forma hesitou.
— Morto. — Revelou. — Silvo. Morto.
Silvo levou a mão ao peito. O gesto foi involuntário. Os joelhos cederam e ele desceu até a pedra da rua devagar, sem conseguir parar antes de chegar ao chão.
A sombra de Letônio ficou imóvel diante dele.
— Você foi por minha causa. — Silvo disse. A voz saiu estranhamente calma para o que havia nela. — Eu disse pra você ir sozinho. Eu disse que…
— Silvo. — Leto interrompeu, lânguido. — Não.
— Deveria ter ido junto. Deveria ter.
Um som surgiu da lateral, fez Silvo sobressaltar-se e se levantar com a mão no cabo da espada.
De trás de um muro, reluzindo em azul e carregando uma cesta cheia de flores, surgiu Lycomedes.
— Silvo. — O velho entrou pela bifurcação com a bolsa de couro no ombro e a mão dos seis dedos na parede para se guiar. — Vejo que já se encontrou com nosso amigo Letônio.
Silvo olhou para o administrador, confuso, choroso.
— Você sabia? — Silvo disse.
— Ele me encontrou no jardim há pouco enquanto eu colhia as plantas. — Lycomedes deixou a bolsa descer do ombro e a segurou com os dedos. — Não me fez mal. Ficou comigo. Depois tentou falar, custou, mas ficou claro o suficiente para que eu entendesse.
Ele olhou para a sombra e acenou positivamente.
— Temos muito pouco tempo, rapaz. O que ele precisa que você faça não pode esperar. Deixe para lamentar depois.
Silvo ficou de pé.
Letônio se voltou para a forma que Silvo havia seguido pela rua — a sombra que caminhava para o palacete. Os contornos que não se fixavam apontaram na direção dela com um gesto que não era exatamente um braço mas cumpria a função de um.
— Mnemósine. — Murmurou, etéreo. — Moeda. Precisa. Fim… da… Noite…
— Ele quer que tiremos a moeda de Mnemósine. — Lycomedes disse para Silvo. — A moeda é o que sustenta a noite eterna. Sem ela, a escuridão cede. E sem a escuridão, Theo e Calixto têm alguma chance de enxergar o que combatem.
— Lugar… Alto… Emboscar… Arco…
Silvo olhou para a forma de Letônio.
— Você consegue me levar até ela?
A sombra ficou imóvel por um segundo. Depois, com o custo habitual:
— Sim.
— Então vamos. — Silvo virou-se para Lycomedes. — E você?
— As plantas ficam comigo. — O administrador levantou a bolsa. — Quando a escuridão ceder, os homens vão precisar de luz para se reorganizar. — Ele olhou para a sombra por um momento com pesar. — Cuide dele.
A sombra de Letônio assentiu. Voltou-se para Silvo e avançou pela rua.
O rapaz foi atrás sem pestanejar.

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