Índice de Capítulo

    O campo de batalha tremulou e cedeu ao salão outra vez.

    As mesas postas, o banquete intacto, as tochas acesas. E os deuses à mesa.

    Teseu os reconheceu pelos arquétipos que Plutarco o havia ensinado ao longo das viagens. Suas vestes, relíquias, porte físico.

    Depois reconheceu os rostos. E parou no terceiro da mesa.

    Cabelos louros. Ombros relaxados que nunca carregaram peso de verdade. Olhos dourados como ouro em brasa, mesmo sem a luz direta das tochas naquele ângulo. O deus jovem com a expressão de quem está preferia estar em outro lugar.

    Teseu conhecia-o.

    Havia visto em outro rosto, em outros olhos, desbotados agora, humanos agora, mas com o mesmo padrão. O desprezo velado de quem cumpre uma obrigação.

    Hermes. Inteiro. Divino. Com a existência intacta que o banimento havia partido.

    Plutarco estava ao lado de Teseu e seguiu o olhar dele.

    — Você o reconhece. — O escriba disse, baixo.

    Teseu permaneceu em silêncio.

    — Teseu. — Sophia chamou, baixo.

    Ele desviou o olhar.

    Licaão estava de pé no centro do salão. De pé entre as mesas, com o manto real e a coroa dourada sobre os cabelos, olhando para os convivas

    — Hoje sirvo minha mesa aos senhores dos céus. — Cumprimentou com um sorriso. — Uma honra, dizem. A mais alta que um mortal pode receber. — Caminhou ao longo da mesa, devagar, os olhos passando de um em um lentamente. — Comam. Bebam. Estão em minha casa.

    Afrodite cacheava uma mecha de seu cabelo ruivo com um olhar entusiasmado para o rei. Ares, de braços cruzados, tinha a expressão rígida e maxilar  marcado.

    — É uma pena que meu filho não esteja aqui para apreciar tão nobre presença. — Continuou o rei. — Ele era um verdadeiro admirador do divino. Dedicava cada morte em batalha para uma deidade diferente, e nunca faltou uma a quem sobrasse reclamar.

    Teseu apertou o punho, seus olhos ainda restavam fixados em Hermes que, sentado ao canto da mesa, brincava com uma taça de vinho entre os dedos sem dar qualquer atenção ao discurso com uma pose relaxada. Seus olhos, no entanto, pareciam tensos.

    — Era um grande guerreiro — Ares respondeu com um aceno.

    Atena estava sentada a certa distância da mesa, olhava para a comida com desgosto que tentava esconder sob a égide de seu capacete.

    — Sim… — Murmurou ela. — Bradava como ninguém.

    Licaão suspirou profundamente, caminhou até a ponta da mesa e segurou o encosto de seu assento reservado com uma expressão que já se desfazia da fachada que tentava tanto manter.

    Os olhos queimavam, as sobrancelhas pareciam saltar, os dentes pressionavam os lábios como se fossem rasgá-los.

    — Até que um miserável o tirou de mim! — Rugiu e esmurrou a mesa.

    Todos ficaram em silêncio.

    Sophia se sobressaltou, mesmo tendo ciência da ilusão, a fúria do rei era tão palpável que a pressionava

    Ao centro da mesa, um homem de presença ainda maior que os outros se levantou. Sua barba branca como uma nuvem mal se moveu, seus cabelos emolduravam o rosto e tornavam-no ainda mais forte.

    — Zeus. — Plutarco murmurou atrás de Teseu.

    Não havia dúvida. A altura era impossível para mortal. A luz das tochas parecia mais brilhante, mais direta, sem as sombras que criava em qualquer outro ponto do salão. Ele não havia tocado na comida.

    — Convocaste-nos para um banquete de paz. — A voz de Zeus, grave, mas contida, ocupou o salão inteiro. — E nos recebe com acusações nas entrelinhas de cada frase desde que aqui entramos. Não é digno de um rei, Licaão.

    — Digno. — Licaão repetiu a palavra com desdém. — Quero perguntar aos senhores o que é digno. 

    Sua voz tornava-se mais furiosa a cada palavra, a cada olhar divino que encontrava naquela mesa.

    — É digno de um deus invadir um campo de batalha entre mortais disfarçado de soldado e matar o general inimigo porque a cidade que protege tem o nome do filho favorito de Zeus.

    O salão silenciou.

    Teseu olhou para Hermes. O deus louro na extremidade da mesa havia erguido os olhos da superfície pela primeira vez. Olhava para Licaão com olhos semicerrados. Reconhecimento? Culpa?

    Foi quando o ambiente mudou.

    Faíscas começaram a surgir ao redor de Zeus. Seu cabelo e barba se moviam e agitavam, os olhos brilharam.

    — Cão. — O soberano dos deuses grunhiu. — Você ousa acusar meus filhos depois de me convidar para sentar à sua mesa. É isso que chama de hospitalidade?

    Licaão gargalhou, histérico.

    Teseu havia ouvido Licaão rir antes — o riso curto e amargo da estrada, o riso desdenhoso . Esse era diferente. Parecia louco, alucinado. Como um lunático.

    — Cão. — Licaão repetiu a palavra, e no tom dela havia algo que beirava o carinho pela precisão involuntária do insulto. — É engraçado que me chame assim, Rei dos Deuses dado que…

    Seus olhos viajaram sobre a mesa. Sobre os pratos, as tapeçarias, os convidados.

    — A carne que comem há meia hora neste banquete é a carne de um cão de rua.

    Um raio partiu o teto e estraçalhou o salão.

    Pedras caíram em blocos. As tapeçarias pegaram fogo. Os deuses se levantaram num único movimento.

    Hermes seguia sentado.

    Licaão levou a mão à espada como alguém que havia ensaiado aquele gesto mil vezes — a lâmina saiu da bainha com um som limpo e a ponta ficou erguida na direção de Zeus. Era uma espada completamente negra, com raízes vermelhas que irradiavam de um veio carmesim no centro. Pulsava em energia e emanava perigo.

    — Você me chama de cão. — O tom baixo não combinava com a fúria de seu olhar. — Seu filho matou o meu. Eu matarei o seu. — A espada não tremeu. — Venha. Se eu for um cão, mostre a todos o que um deus faz a um cão que mostra suas presas.

    Ares atacou primeiro. O deus da guerra encurtou a distância com uma investida frontal e brutal. Licaão desviou o tronco e rebateu o punho divino com a lateral da lâmina. A espada, um artefato forjado por Hefesto com minerais do submundo, cortou a pele imortal do braço de Ares com facilidade. O sangue dourado manchou o mármore quebrado.

    Ares arregalou os olhos perante o ferimento. Licaão aproveitou o choque momentâneo, chutou o joelho do deus e avançou para perfurar seu pescoço.

    Atena interveio. A deusa cravou a base de sua lança no chão e ergueu o escudo. A lâmina infernal chocou-se contra a égide divina e o estrondo ensurdecedor estilhaçou as pilastras próximas. A onda de choque arremessou as mesas contra as paredes e destruiu o resto do banquete. Licaão firmou as botas nas pedras rachadas e pressionou a espada contra o escudo. Seus músculos tremeram sob o esforço extremo. Ele rugiu e forçou a lâmina para baixo com ferocidade.

    Zeus moveu-se. O rei dos deuses cruzou o salão em uma fração de segundo e desferiu um soco carregado com a força dos trovões. Licaão abandonou o confronto contra Atena e saltou para trás com agilidade predatória. O punho de Zeus atingiu o piso e abriu uma cratera profunda no centro do salão.

    Licaão tocou o solo e impulsionou o corpo para a frente de imediato. Ele mirou o flanco exposto de Zeus com a arma letal. A velocidade do rei humano superava os limites mortais.

    Mas os deuses agiram em uníssono com uma força implacável.

    Ares agarrou Licaão pelas costas com uma chave de ferro que prendeu os braços do rei. Atena girou a lança e atingiu o peito do mortal com o cabo dourado. O impacto quebrou as costelas de Licaão e expulsou o ar de seus pulmões com violência.

    Licaão cuspiu sangue e debateu-se com a fúria de um animal capturado. Soltou a espada com a mão direita, segurou o cabo com a esquerda e cravou o pomo da arma no rosto de Ares. O deus da guerra soltou um urro de dor e afrouxou o aperto.

    Licaão libertou-se e girou a lâmina em um arco letal contra o pescoço de Zeus.

    Zeus interceptou o ataque com as mãos nuas. Faíscas elétricas envolveram os dedos do rei dos deuses e bloquearam o corte do aço do submundo absoluto. Zeus torceu o pulso do homem. O estalo seco do osso ecoou pelo salão destruído.

    A espada caiu.

    Zeus acertou o estômago de Licaão com um chute brutal. O rei humano voou contra a parede e desabou sobre os destroços. Ele tentou se erguer com o sangue a manchar seus dentes e suas vestes reais.

    A pressão das auras divinas esmagou os ombros do rei de forma palpável. Ele lutou contra a força invisível com um rosnado preso na garganta.

    Licaão foi ao chão, completamente derrotado por Zeus e pelos outros deuses. Os joelhos bateram primeiro, depois as mãos. O impacto ecoou na pedra.

    Ártemis separou-se do grupo e parou diante do rei ajoelhado. A deusa olhou para ele de cima com indiferença absoluta. Ela murmurou as palavras da maldição que o transformaria em um cão.

    Teseu não conseguiu captar o som da magia, mas leu a resposta nos lábios de Licaão.

    Não. Não. Não.

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