Capítulo 2 - Escuro
O lamento não era um som natural.
Era o choro distorcido de dezenas de vozes sobrepostas, derretidas pelo calor insuportável que emanava do peito da criatura. Quando o olho vermelho do Racrydoth se abriu nas sombras do teto, não houve o rugido clássico de um predador. Houve apenas o som do ar sendo sugado com violência.
E então, o teto desabou.
A montanha de músculos e pelagem azul despencou. O impacto não fez o chão tremer; fez a realidade inteira sacudir. Caelan sentiu o impacto nos dentes, os ouvidos zumbindo enquanto a poeira e os detritos engoliam a luz das lanternas.
O garoto tentou erguer a espada. O treinamento exigia postura, foco, respiração. Mas seu corpo se recusou a obedecer. O medo primitivo injetou chumbo em suas veias. Ele olhou para a besta colossal se erguendo na penumbra, ignorando o próprio peso, movendo-se com uma velocidade impossível para algo daquele tamanho. A ilusão de glória que Caelan alimentou durante toda a vida estilhaçou no mesmo instante.
Ele não era um herói. Era uma presa.
O Racrydoth abriu as mandíbulas desfiguradas e exalou.
Não foi fogo. Foi uma onda de calor denso e alaranjado, carregada de estática e cinzas. Quando aquela lufada os atingiu, Caelan não apenas sentiu a pele queimar; ele ouviu.
O fogo fantasma carregava os ecos da fogueira devorada. Gritos abafados. O som de crianças correndo. O desespero de uma vila cujo nome o mundo já havia apagado.
Ao lado dele, Mirel desabou de joelhos. A garota apertava os ouvidos até os nós dos dedos ficarem brancos, o nariz escorrendo uma linha fina de sangue. A sobrecarga de memórias agonizantes a estava quebrando de dentro para fora.
— Vorn, contenha o avanço! Trok, no teto, agora! — A voz de Gravios cortou o pandemônio como uma lâmina de gelo. A Lenda de Lancrey não recuou um único passo.
Vorn cravou as botas na pedra, erguendo o escudo colossal com ambas as mãos, preparando-se para o impacto. O Racrydoth avançou como uma locomotiva de carne e ódio.
A colisão soou como um sino rachando.
O escudo de ferro enegrecido — forjado para resistir a ataques de cerco — cedeu. O metal amassou para dentro com um gemido agudo, moldando-se ao impacto da garra da fera. Vorn foi arremessado no escuro como uma boneca de trapos, o som de seus ossos quebrando ecoando antes que seu corpo atingisse a parede do outro lado da abóbada.
Caelan ofegou. O choque finalmente destravou seus músculos.
Ele não ia matar aquela coisa. Ele não ia salvar o mundo hoje.
O garoto se jogou no chão, agarrando a gola da capa de Mirel e puxando-a para trás com toda a força que tinha, arrastando a garota para longe do raio de alcance das garras faiscantes.
Enquanto isso, os virotes explosivos de Trok encontraram as vigas de sustentação acima do monstro. O plano de Gravios era óbvio: soterrar a criatura antes que ela matasse a todos.
As explosões detonaram em sequência. O teto da abóbada cedeu, chovendo pedras do tamanho de carroças sobre as costas do Racrydoth. A besta urrou, um som molhado e furioso, enquanto toneladas de pedra a esmagavam contra o chão.
Mas o chão de Lancrey antiga era uma mentira.
A abóbada não estava construída sobre terra firme. Estava erguida sobre as catacumbas esquecidas de uma cidade muito mais velha. O impacto das rochas, somado ao peso colossal do Alfa se debatendo, foi demais para a pedra enfraquecida de séculos.
A rocha sob os pés deles gemeu. E, como uma fina camada de gelo em um lago no inverno, o chão simplesmente desapareceu.
A gravidade os puxou para a garganta do Exímio.
Caelan não teve tempo de gritar. Ele apenas abraçou Mirel, protegendo a cabeça da garota enquanto a escuridão absoluta engolia os dois, acompanhados pelo som estrondoso de pedras, poeira e o rugido distante do General Gravios sendo apagado pela queda.
…
Ping.
Ping.
O som de água caindo no escuro o despertou.
Caelan puxou o ar, engasgando imediatamente com o pó de pedra que lotava seus pulmões. O peito queimava. Cada osso do seu corpo protestava, mas ele conseguia mover os dedos. Estava vivo.
Ele tateou o chão frio até encontrar sua lanterna de carvão. O vidro estava trincado e a armação de metal amassada, mas um resquício de fogo ainda lutava para não apagar, lançando um círculo frágil de luz alaranjada ao redor.
A poeira baixava lentamente. Eles não estavam mais nas ruínas largas de cima. Estavam em um corredor estreito, úmido e feito de tijolos tão antigos que pareciam ossos petrificados. O abismo para o qual caíram os engoliu para muito abaixo das rotas mapeadas.
— General… — Caelan sussurrou, a garganta arranhada. Sua voz não deu eco. — Trok? Vorn?
Silêncio.
Ele ergueu a lanterna, iluminando uma pilha de pedras desabadas a poucos metros dali. Embaixo dos escombros miúdos, algo se mexeu.
— Mirel!
Caelan engatinhou até lá, afastando as pedras com pressa, ferindo as pontas dos dedos. A garota tossiu, abrindo os olhos arregalados, repletos de pânico e fuligem. Ele a puxou para fora, ajudando-a a encostar as costas na parede fria.
Ela estava trêmula, mas inteira. O sangue no nariz já havia secado, misturando-se à sujeira do rosto.
O garoto olhou para o alto, para a escuridão infinita por onde caíram. Não havia luz vindo de cima. Não havia cordas. Não havia o General Gravios para dar a próxima ordem e consertar tudo. O pânico subiu pela sua garganta, gelado e pontiagudo. Ele queria gritar. Queria a lenda que o criou.
Mas Caelan olhou para a garota encolhida ao seu lado. Ela estava ainda mais apavorada do que ele.
Se ele cedesse ao desespero, os dois morreriam ali no escuro, esquecidos.
Caelan engoliu o pânico a seco, forçando a expressão a endurecer, mesmo que suas mãos ainda tremessem. Ele limpou a garganta, a voz saindo mais firme do que ele próprio esperava.
— O General deve ter caído em outro nível… ou ficado lá em cima — ele mentiu para si mesmo, tentando transformar a esperança em um fato. — O bicho gigantesco deve ter descido ainda mais. Nós sobrevivemos à queda.
Mirel olhou para ele, os grandes olhos vazios buscando alguma âncora de segurança.
Caelan desembainhou a espada. A lâmina estava arranhada, mas inteira. Ele ofereceu a mão livre para a garota.
— Consegue andar? — ele perguntou.
Ela hesitou, mas assentiu devagar, aceitando a mão dele para se levantar.
— Não estamos sozinhos, Mirel. Nós temos um ao outro. Eu cubro a frente, você me avisa se ouvir as vozes daquela coisa de novo. E nós vamos achar o caminho de volta.
Lá em cima, ele era apenas um garoto brincando de soldado. Mas aqui embaixo, no escuro profundo e sem volta, Caelan acabara de se tornar um Explorador.
A fraca luz alaranjada da lanterna de carvão era a única coisa que os separava do breu absoluto.
Caelan caminhava à frente, a espada empunhada com firmeza, os olhos varrendo cada sombra, cada quina. Mirel seguia logo atrás, a mão pequena e suja segurando a barra da capa do garoto com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos.
O corredor estreito por onde começaram logo se abriu, e a escuridão pareceu recuar um pouco, não por haver mais luz, mas porque o espaço ao redor deles se expandiu de forma colossal. O ar deixou de cheirar apenas a poeira e pedra molhada. Havia um odor antigo ali, o cheiro de madeira petrificada e um frio denso, quase palpável, que arranhava os pulmões.
Caelan ergueu a lanterna, forçando a vista. O fôlego travou em sua garganta.
Não era uma formação natural. Não era apenas uma catacumba.
Sob as fundações da abóbada desmoronada, estendia-se uma cidade inteira, engolida pela terra.
A luz trêmula revelou fachadas de casas cravadas na rocha negra, com telhados de ardósia esmagados pelo peso de milênios. Havia praças sufocadas por raízes pálidas e mortas, grossas como troncos de árvores, que serpenteavam por entre pilares de pedra entalhada. Arcos góticos se erguiam no escuro, sustentando pontes quebradas que levavam a lugar nenhum. As janelas das casas não tinham vidro; eram buracos escuros, como órbitas vazias em crânios gigantescos, observando os dois intrusos em silêncio.
Era um cemitério de lares.
— Isso… isso não está nos mapas de Lancrey — Caelan murmurou, a voz soando incrivelmente frágil naquele espaço imenso. — O Fronte soterrou tudo isso.
Mirel não respondeu imediatamente. Ela caminhava a passos curtos, a respiração superficial. Para Caelan, aquela cidade era um mistério arqueológico aterrador. Para Mirel, cujo sangue a conectava de forma doentia àquele ambiente, o lugar era sufocante.
Ela soltou a capa de Caelan e deu dois passos vacilantes em direção à fachada da casa mais próxima. A madeira da porta havia petrificado, assumindo uma cor de carvão opaco. Havia uma placa de ferro enferrujada pendurada por um único prego retorcido acima do batente.
A garota estendeu a mão, os dedos trêmulos pairando a centímetros da placa, até finalmente tocarem o metal áspero.
Mirel fechou os olhos. Um calafrio violento sacudiu seu corpo.
— Eles viviam aqui… — ela sussurrou, a voz carregada de um desconforto profundo. — Dá pra sentir o rastro deles. Mas é oco, Caelan. Seco.
— Como assim, Mirel? — Caelan abaixou a espada, sentindo um arrepio gélido subir pela espinha ao se aproximar.
Ela abriu os olhos, encarando a madeira morta. Havia um pavor silencioso em seu olhar.
— Não foi o tempo ou um desabamento natural que matou esse lugar. — Ela deslizou a mão pela porta de pedra, recuando logo em seguida, como se o contato queimasse. — É como se… como se a própria terra estivesse com fome. O Exímio não tomou essa cidade apenas como território. Ele os consumiu. Ele sugou a vida de cada casa, de cada pessoa, até não sobrar nada além de cascas vazias. Tem algo se alimentando de nós, Caelan. Há muito tempo.
Caelan olhou para as centenas de casas escuras ao redor. O peso daquela suspeita o esmagou. A ideia de que as Terras Exímias não eram apenas um habitat de monstros, mas um parasita colossal, um estômago insaciável devorando o mundo lentamente.
Ele guardou a espada na bainha com um clique seco. O som ecoou longe.
O garoto tirou a própria capa — pesada, suja de poeira e com um rasgo na barra —, e a colocou sobre os ombros de Mirel. O frio lá embaixo entrava pelos ossos, e a garota tremia incontrolavelmente.
Mirel olhou para ele, surpresa.
— E você? — ela perguntou, ajeitando o tecido escuro ao redor do pescoço.
— Eu aguento. — Ele deu um sorriso fraco, que não alcançou os olhos, mas que era o melhor que podia oferecer. — Além disso, você é nossa bússola agora. Se algo se aproximar, preciso que me avise. Preciso de você inteira.
Naquele momento, Caelan se lembrou do General Gravios. Lembrou-se das noites em que ele e sua irmã, Liriel, acordavam assustados com as tempestades em Lancrey. O General nunca ia até o quarto deles. Ele ficava na sala, em silêncio, afiando a espada no escuro, uma figura de pedra inalcançável. Gravios os protegia fisicamente, mas os deixava sozinhos com o próprio medo.
Caelan decidiu ali, no escuro absoluto, que não seria como a lenda que o criou.
Ele sentou-se na beirada do que um dia fora um chafariz de pedra, agora seco e coberto de cinzas, e bateu no espaço ao lado.
— Senta um pouco. Só cinco minutos. Precisamos raciocinar antes de entrar mais fundo nisso.
Mirel hesitou, mas a exaustão venceu. Ela sentou-se ao lado dele, os pés balançando acima do chão. A luz da lanterna banhava os dois num círculo de intimidade cercado por quilômetros de trevas.
— Você acha que ele sobreviveu? — Mirel perguntou, a voz miúda, puxando os joelhos contra o peito. Não precisou dizer o nome. Ambos sabiam que ela falava do Racrydoth Alfa.
— O chão desabou sob o peso dele — Caelan avaliou, tentando manter a lógica. — Ele é gigantesco. A queda deve ter causado estrago. Se ele não morreu, no mínimo está ferido ou preso em algum lugar longe daqui.
— E o General? Vorn? Trok?
Caelan engoliu em seco. A imagem do escudo de Vorn sendo amassado cruzou sua mente.
— Gravios é a Lenda de Lancrey por um motivo — respondeu, escolhendo as palavras com cuidado. — Se alguém pode sobreviver a isso e achar um caminho de volta, é ele. Nós só precisamos nos manter vivos. Encontrar uma rota de subida ou…
O garoto parou de falar abruptamente.
A água que pingava em algum lugar no escuro… parou.
O silêncio na cidade morta tornou-se absoluto. Espesso. Sufocante.
Mirel enrijeceu ao lado dele. A cor sumiu do seu rosto. Ela não olhou para trás. Seus olhos se cravaram em Caelan, arregalados, enquanto suas mãos apertavam a capa em seus ombros.
— Caelan… — ela sussurrou, a voz embargada de terror puro. — Lembra daquela fome que eu senti na casa?
— Lembro.
— Tem algo aqui embaixo… — Uma lágrima silenciosa escorreu pelo rosto dela. — Algo que ainda não terminou de comer. E está nos observando da janela daquela mesma casa.
Caelan não respirou.
Ele moveu os olhos, apenas os olhos, além do ombro de Mirel, em direção à escuridão da porta que ela havia tocado instantes antes.

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