O sino de bronze da torre leste de Lancrey soou duas vezes. Uma badalada grave, metálica e solitária que foi rapidamente engolida pelo vento cortante e pela névoa da madrugada.

    Faltavam quinze minutos para a Hora da Cinza.

    No telhado inclinado do antigo alojamento da infantaria, a trezentos metros da Ala Dourada, Liriel mantinha o corpo pressionado contra as telhas frias de ardósia. A garota apertava o cabo de sua espada curta com tanta força que os nós dos seus dedos estavam brancos sob o couro das luvas. Ela odiava a imobilidade. No poço da arena, a ansiedade era curada com movimento e derramamento de sangue. Ali, no escuro, a ansiedade era um veneno lento.

    — Respira, garota — murmurou Sem Caminho ao seu lado, os olhos do especialista espremidos contra a luneta de latão, vigiando a muralha do castelo principal. — Se você prender o ar com tanta força, vai desmaiar antes de precisarmos correr. A ansiedade mata mais batedores do que flechas.

    — É difícil respirar quando a vida do meu pai e do meu irmão está pendurada na ponta dos dedos de um homem escalando uma parede cega — retrucou Liriel, a voz áspera, sem desviar os olhos da massa monumental de pedra que era a Torre Sul.

    — Confie no rato — respondeu Sem Caminho, um tom de respeito genuíno na voz rouca. — Ele não é um guerreiro. Mas a gravidade parece ter esquecido que ele existe.

    Lá embaixo, na base da Torre Sul, o mundo era um abismo de umidade e pedra bruta.

    Sem Voz não olhou para cima. Olhar para o cume de cento e vinte metros de granito liso era convidar o terror para os músculos. Ele focou apenas no próximo meio metro. O infiltrador vestia um traje colante de couro fosco, desprovido de fivelas metálicas ou qualquer coisa que pudesse tilintar. Suas luvas e botas estavam untadas com resina de pinheiro misturada com cinza de osso — uma alquimia rudimentar que absorvia o suor e transformava o couro em ventosas secas.

    Ele tateou a parede. Encontrou uma fissura na junção da argamassa com não mais do que um centímetro de profundidade. Foi o suficiente.

    Sem Voz cravou as pontas dos dedos, puxou o próprio peso e começou a subir. Ele se movia com a cadência de uma aranha viúva-negra: silencioso, paciente e letalmente preciso. A cada dez metros, o vento vindo do Fronte o açoitava, tentando arrancá-lo da pedra, mas o especialista apenas achatava o corpo contra o muro e esperava a rajada passar. Ele era um fantasma desafiando os deuses da física.

    Enquanto Sem Voz conquistava a verticalidade da noite, três andares abaixo do solo, as entranhas do castelo ardiam.

    A casa de caldeiras de Lancrey era um pesadelo industrial. Um salão abobadado gigantesco, preenchido por tanques de ferro fundido rebitados e fornalhas de carvão que alimentavam o sistema hídrico de todo o castelo superior. O ar ali era sufocante, cheirando a ferrugem, fuligem e água fervente.

    Sem Nome deslizou silenciosamente por trás de uma das calhas de exaustão, o manto escuro camuflando-o perfeitamente entre os canos grossos. Atrás dele, movendo-se com a mesma leveza impossível para alguém de seu tamanho, vinha Sem Rosto.

    O líder ergueu a mão, sinalizando para que parassem.

    A dez metros dali, o único engenheiro do turno da madrugada roncava ruidosamente, esparramado em uma cadeira de madeira precária ao lado de um barril de cerveja barata. A rotina criava a mais pura e doce incompetência. Ninguém jamais invadia a casa de caldeiras.

    Sem Nome conferiu o relógio de bolso alquímico que carregava. O mostrador de quartzo brilhava num tom fraco de azul. Duas e treze da manhã.

    Dois minutos para a Hora da Cinza.

    O ex-Arquivista apontou para um conjunto complexo de válvulas de bronze incrustadas na lateral do caldeirão principal, a matriz que bombeava água quente para a Ala Dourada.

    — Aquela é a válvula de escape de pressão — sussurrou Sem Nome para o companheiro mascarado, mal movendo os lábios. — Eu preciso que você trave a engrenagem secundária com a sua faca e gire o volante principal três vezes e meia para a esquerda. Nem um milímetro a mais, ou explodimos a base do castelo. Nem um a menos, ou o vapor não chegará ao terceiro andar. Entendeu?

    Sem Rosto não hesitou. O especialista sacou a faca de arremesso de lâmina chata, caminhou agachado e em total silêncio até a barriga de ferro da caldeira, e deslizou sob os canos escaldantes. O calor era absurdo, o suficiente para empolar a pele através das roupas, mas Sem Rosto não emitiu um único gemido.

    Ele encaixou a lâmina da faca entre os dentes da engrenagem de alívio. Um clique metálico suave, imperceptível sob o chiado natural do lugar, confirmou a trava. Em seguida, ele agarrou o volante de bronze. A roda estava fervendo. Com um esforço contínuo e controlado, ele girou. Uma volta. Duas voltas. Três voltas. E parou perfeitamente na marca da meia-volta.

    Sem Rosto soltou o volante, recuou dois passos em silêncio e, olhando para Sem Nome, ergueu o polegar esquerdo num joinha firme e estático.

    Sem Nome assentiu e checou o relógio mais uma vez. A ponteiro principal travou no ápice do mostrador.

    Duas e quinze. A Hora da Cinza.

    No alto da Torre Sul, a cento e dez metros do chão, Sem Voz alcançou a borda de mármore esculpido da varanda do Lorde Comandante Baelon. Os músculos de seus braços queimavam com o acúmulo de ácido lático. O vento uivava em seus ouvidos. Ele passou uma perna por cima da balaustrada e pisou no chão frio do parapeito, colando as costas na parede ao lado das pesadas portas duplas que davam para o quarto escuro. Ele sacou do cinto o pequeno frasco de vidro opaco contendo o ácido corrosivo. O primeiro passo estava dado. Agora, ele precisava do caos.

    Lá embaixo, na sala das caldeiras, Sem Nome agarrou a imensa alavanca de fluxo direcional. O mostrador de pressão do caldeirão já estava na zona vermelha, o ferro gemendo sob a força da água fervente aprisionada pela sabotagem de Sem Rosto.

    — Que a Coroa engasgue — murmurou Sem Nome.

    Ele puxou a alavanca de uma vez.

    O som não foi um estouro, mas um rugido profundo e gutural de pressão sendo liberta. Um impacto sísmico, contido dentro do ferro, reverberou pelo chão da sala das caldeiras.

    A onda massiva de vapor superaquecido e condensado foi ejetada pelos canos principais com a força de um aríete. O encanamento do castelo estalou. O som subiu velozmente pelas paredes, um chiado colossal e crescente, como se um dragão estivesse subindo pelas entranhas da fortaleza, avançando implacavelmente em direção aos dutos da Ala Dourada.

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