Capítulo 135: Reunião Chuvosa
A porta do Clube de Literatura deslizou, fazendo aquele som familiar do rangido. O calor, vindo do aquecedor da sala, nos envolveu no corredor de imediato.
Sempre era um momento confortável entrar no clube.
E, como sempre, a energia caótica de alguém dominou a sala.
— Feliz Ano Novo! Bem-vindos ao primeiro encontro do ano! — Kaori exclamou assim que viu eu e Rintarou entrar na sala. Ela dizia isso, com os braços erguidos, embora estivesse sentada no seu lugar de sempre… e reunida com aquela montanha de folhas e livros ao redor da mesa.
— Quanto entusiasmo, Kaori… — murmurei, entrando e guardando a mochila.
Takumi riu, enquanto arrumava alguns papéis.
— É bom te ver entusiasmada como sempre, Kaori — Rintarou disse, indo para o seu lugar depois de guardar a mochila também. — Espero que tenha usado esse entusiasmo para ter estudado durante as férias.
Essas palavras fizeram ela travar no mesmo instante.
— …A-ah… sabe como é… — Ela começou a ficar nervosa e abaixou a cabeça timidamente, fazendo com que nós ríssemos da situação dela. — V-vamos mudar de assunto…!
O clima no clube era o de sempre.
Takumi parou de arrumar os papéis da sua mesa, e olhou para nós ao mesmo tempo, com uma certa curiosidade no olhar.
— Então, como foram as leituras de inverno de vocês? — ele perguntou, dando início à nossa reunião do clube.
Mai começou a falar sobre uma coleção de poesias clássicas, especialmente as poesias de Akiko Yosano, uma poetisa famosa que ela admirava.
— Vocês precisam ler! — ela dizia animadamente.
Rintarou comentou sobre alguns livros que ele adivinhou ao final enquanto lia apenas os capítulos iniciais.
— Foi previsível, mas, mesmo assim, foi uma boa leitura — disse calmamente, como sempre.
Takumi começou a detalhar, de forma precisa, a estrutura e toda a rota de um romance histórico que quase não conseguiu terminar até a véspera de Ano Novo.
Provavelmente, a responsabilidade dos afazeres de presidente do clube e de estudar para o terceiro ano foram a causa daquilo.
Kaori… disse que leu uma história de fantasia incrível, tão incrível que mesmo se lesse novamente, o sentimento empolgante seria o mesmo.
“…..?”
Mas eu notei algo de estranho naquilo.
— Você tá mentindo, não tá? — perguntei, desconfiado.
— H-hã!? Do que você tá falando, Shin!? — ela falou mais alto do que devia, claramente nervosa. — Eu tô falando a verdade!
“Bingo.”
O hábito dela olhar para o chão enquanto coçava a bochecha era um sinal de que ela mentia.
Continuei encarando ela, enquanto os outros pareciam também curiosos com o que ela realmente tinha lido.
— T-tá bom, eu menti! — As bochechas dela começaram a ficar vermelhas. — É que… eu li algo, mas não posso compartilhar!
Eu suspirei, dando uma pequena risada.
— O que será que você andou lendo…?
— Eu não vou dizer! Não insiste, Shin! — ela rebateu, com os braços em forma de negação.
Ponto de Vista de Kaori
— Eu li uma história super interessante de fantasia medieval! — eu disse, na minha vez. — Era tão incrível que mesmo em uma releitura, o sentimento vai ser o mesmo! Ou até melhor!
Era o que eu tinha dito, e eu tinha certeza de que eles iriam acreditar.
Mas fui descoberta.
E dessa vez não foi pelo Rin!
— Você tá mentindo, não tá?
“Hã?”
Por que o Shin duvidou do que eu disse!? Droga!
E como sequer sabia que era uma mentira!?
— H-hã!? Do que você tá falando, Shin!? — Eu tentei recusar rapidamente, mas o Rin começou a me encarar também, ficando desconfiado. — Eu tô falando a verdade!
Normalmente, eu só diria o que eu realmente tinha lido durante as férias.
O problema era que… o que eu li foi algo que nunca tinha lido antes.
Claro, não tinha problema nenhum nisso!
É só que…
…Eu não iria falar que li vários e vários artigos sobre o amor!
Isso era vergonhoso!
Senti minha cara arder só de lembrar, e sentindo ainda mais olhares intensos em mim, eu não aguentei.
— T-tá bom, eu menti! É que… eu li algo, mas não posso compartilhar!
— O que será que você andou lendo…? — O Shin me encarou de uma forma mais intensa, enquanto sorria.
— Eu não vou dizer! Não insiste, Shin! — rebati de uma vez por todas.
Droga!
A culpa era toda sua, Shin!
Não só por ter feito os outros saberem que era uma mentira, mas por ser a causa de eu ter lido os artigos sobre o amor!
Eu também vou lutar!
— Foi mal, foi mal — ele respondeu, com… aquele mesmo sorriso.
“…..!”
Seu idiota! Bobão!
Ponto de Vista de Shin
Tinha chegado então a vez de Taro. Sonolento como sempre, ele murmurou algo enquanto bocejava. E, por causa disso, não deu para entender absolutamente nada do que ele havia dito.
Olhei para os outros, que pareciam não ter entendido também, e assentimos em silêncio, enquanto ele voltava a roncar.
— Como ele consegue dormir tanto… — Kaori se perguntou.
E então, o foco seguiu-se para mim.
Eu não tinha nada para dizer, afinal, não tinha conseguido ler nada de novo durante as férias de inverno.
— Eu não… — comecei, mas fui interrompido.
— Gah! Vocês não têm nem ideia! — Kaori se inclinou sobre a mesa, me interrompendo com os olhos brilhando de entusiasmo.
“Ah…”
Aquilo era ruim.
Eu já sentia o que ela iria falar.
— O Shin mostrou pra mim e pro Rin o manuscrito da nova história dele. — Eu estendi a mão, tentando tampar a boca dela, mas já era tarde. Droga. — É incrível! É como se tudo se encaixasse e fizesse sentido. Tem um tipo de coisa que… eu nem sei explicar! Vocês precisam ler também!
Eu travei no mesmo segundo.
Não era para eles saberem daquilo… Eu só queria mostrar para todos do clube só quando tivesse já nas suas versões finais. Mas Kaori… não queria saber disso.
— Ei, Kaori! — eu olhei pra ela, mas ela começou a assobiar, como se eu tivesse feito algo para merecer aquilo. — Fala sério…
Eu suspirei, envergonhado.
— Não precisa exagerar. É só algumas ideias conectadas e assim… — continuei, com o olhar desviado. — Além do mais, muitas coisas devem ser cortadas. Ainda preciso me reunir novamente com o editor pra ver melhor as coisas.
Takumi olhou pra mim, curioso.
— Exagerar? Vindo de você, que ganhou um concurso nacional… — Takumi me encarou com um olhar que pedia exatamente o que eu não queria.
Ler o manuscrito.
— É… Deve ser algo incrível mesmo… — Mai olhou de canto pra mim, com aquele mesmo olhar do Takumi.
Ela também…?
— Mas… — eu comecei, meio envergonhado com aquela situação criada pela Kaori.
Ao mesmo tempo, o som de um livro caindo no chão chamou nossa atenção. Era… um livro grande que estava sendo usado como travesseiro.
— …Minha cabeça — Taro disse, mudando de posição.
Ficamos em silêncio por um segundo, e então todos rimos daquela situação. Taro voltou a roncar baixo, e a reunião deu sequência até a hora de tocar.
Discutimos algumas coisas sobre livros, de coisas triviais e… do que fazer para atrair alguns novos rostos para o nosso clube quando o ano escolar começasse.
Claro, sugerido por Kaori.
— Acho que você deveria se concentrar nos estudos primeiro — Rintarou interrompeu, fazendo ela ficar cabisbaixa novamente.
Quando já estava perto de tocar para o fim das atividades do clube, um som ecoou na janela.
Primeiro veio algumas batidas, e então, começou a chover pesado.
— Oh…
Olhei para o lado de fora da janela, vendo um céu mais acinzentado do que de manhã.
O temporal de inverno havia chegado, e com força.

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