O reino de Osteria era vasto, com um terreno muitas vezes irregular e acidentado. Havia também inúmeras montanhas e florestas, o que tornou mais demorada a viagem de Victor, Zordhan e Alexander.

    Eles perseguiam os rastros deixados por um necromante. Esse necromante conduzia uma pesquisa perigosa, e o rei ordenara que ele fosse eliminado junto com todo o seu trabalho.

    Não era possível cavalgar durante todo o trajeto, por isso boa parte da viagem seguia a pé. Às vezes, pegavam carona com caravanas, pagando o valor apropriado. Os três vestiam roupas simples. O cetro de Victor e seu robe deixavam claro que ele era um mago, mas nenhum deles queria chamar atenção. Se o alvo descobrisse que estava sendo perseguido, o trabalho se tornaria mais difícil.

    Durante uma de suas investigações, acabaram descobrindo um fenômeno estranho: mercenários contratados por alguém estavam emboscando aventureiros e roubando seus equipamentos. Eram extremamente organizados e poderosos, e ainda contavam com o apoio de barreiras que impediam sua localização ou exposição. Victor e Alexander eliminaram um desses focos e, quando Zordhan se juntou a eles, encontraram mais dois esquemas semelhantes por acaso. Acabaram com todos com relativa facilidade.

    Zordhan era um draconato verde e também um Infusor. Diferentemente de magos ou artistas marciais, ele utilizava energia espiritual para moldar o mundo à sua volta de forma efetiva. A energia espiritual, assim como a aura, era derivada da mana. Infusores, assim como magos, possuíam diversas especializações. A de Zordhan eram formações e barreiras. Por isso, foi fácil para ele analisar e destruir todas as barreiras que encontraram.

    “Todas as barreiras foram feitas por um mestre de formações. Construir barreiras não é a especialidade dele, por isso consegui localizá-las e destruí-las. O apoio que essas pessoas têm é grande”, Zordhan trouxe informações adicionais para Victor e Alexander.

    Lidar com essas emboscadas não era a missão principal deles, mas, como era um problema relativamente simples de resolver, acabavam prestando esse favor sempre que se deparavam com esse arranjo desleal.

    A perseguição ao necromante continuou. Victor possuía uma magia que lhe permitia rastrear o alvo. Durante semanas, eles seguiram vestígios antigos, mas enfim houve progresso.

    “Os rastros são mais recentes. Ele parece não estar muito distante”, Victor constatou.

    Seguindo a margem de um rio, avistaram uma pequena vila, talvez com algo em torno de 1000 habitantes.

    Era Corval.

    “Ele deve estar por aqui. Os rastros são bem recentes”, Victor constatou novamente.

    Com um movimento rápido da mão, ele tirou um pergaminho e escreveu magicamente nele. O pergaminho desapareceu em chamas e, alguns minutos depois, reapareceu diante dele. Victor estava se comunicando com o palácio real.

    “Essa é uma magia de comunicação bem eficiente. Sorte a nossa ter você por perto”, Alexander comentou em tom de brincadeira. Ele não estava realmente impressionado, já tinha visto aquilo inúmeras vezes.

    Victor, entretanto, leu a resposta que recebeu no pergaminho com evidente desagrado, sem dar importância ao comentário do colega.

    “E então, o que o Sr. Elias disse?”, Zordhan questionou. Ele havia sido enviado para ajudar Victor e Alexander por ordem de Elias.

    Elias era um poderoso mago da escola da adivinhação. Ele previra que Zordhan seria fundamental para a missão.

    “Elias disse que o necromante está, sem dúvida, nesta cidade. Devemos isolá-la para que ele não fuja. Sr. Zordhan, essa tarefa é sua”, Victor falou casualmente, mas em tom respeitoso para o draconato verde.

    “Tudo bem, não será um problema. Mas qual o motivo da sua infelicidade?”, Zordhan percebeu que Victor estava mais descontente do que de costume.

    “Elias disse que sua adivinhação continua sofrendo interferências. Ele não consegue prever a situação com clareza, mas concluiu que o necromante já pode ter transmitido sua pesquisa adiante e que o discípulo dele também está nesta vila.”

    “E por que isso é importante?”, Alexander perguntou. Ele não era burro, mas não gostava de pensar muito, sua vida era bem mais simples apenas seguindo ordens.

    “Isso…” Zordhan compreendeu imediatamente a situação em que estavam e ficou tão sombrio quanto Victor.

    “Alexander, não sabemos quem é o discípulo do necromante. Isso significa que vamos ter de garantir que ninguém, absolutamente ninguém, que tenha tido contato com esse homem sobreviva”, Victor tentou explicar.

    “Como você vai fazer isso? Existe alguma magia capaz de identificar quem teve contato com ele e quem não teve?”, Alexander questionou, ainda sem alcançar o cerne da questão.

    “Talvez exista, mas não está ao nosso alcance. Para garantir isso, para garantir o sucesso da missão, vamos ter de exterminar esta vila inteira”, Victor finalmente disse em alto e bom som.

    Alexander enfim percebeu a gravidade da situação em que se encontravam. Para garantir que a pesquisa do necromante não fosse passada adiante, eles precisariam exterminar a vila inteira. O trabalho era perigoso demais para que valesse a pena correr qualquer risco.

    Os três estavam em um ponto alto, observando a vila abaixo. Nenhum dos moradores sabia do destino terrível que estava prestes a cair sobre Corval.

    Victor e Alexander adentraram a vila e começaram a procurar discretamente pelos sinais deixados pelo necromante. O lugar era bastante agitado, com um grande número de viajantes passando por ali. Afinal, Corval ficava entre duas grandes cidades: Eldravin e Duskhaven.

    Zordhan permaneceu do lado de fora da vila, preparando uma barreira para garantir que o necromante não fugisse quando fosse encontrado.

    Enquanto buscava por eventuais sinais do necromante, Victor esbarrou em uma criança.

    Victor a observou com atenção. Ela tinha olhos vermelhos, cabelos roxos e orelhas levemente pontudas.

    “Um meio-elfo da alma!”, Victor identificou imediatamente a raça da criança.

    Uma intenção assassina sem limites se formou dentro dele. Ele precisava eliminar aquela criança a qualquer custo. Não apenas ela, mas também seu progenitor, seu pai ou sua mãe, caso estivessem por perto, deveriam morrer.

    Oliver observou o homem que queria matá-lo, sentindo a intenção assassina extremamente sinistra que emanava de sua alma.

    Victor começou a conjurar imediatamente. Ele iria eliminar essa praga do mundo, mas foi interrompido de repente por uma mão pousando sobre seu ombro.

    “Victor, o que está fazendo?”, Alexander perguntou, confuso.

    Havia sido combinado que eles esperariam Zordhan terminar de montar a barreira antes de neutralizar o necromante.

    No breve instante em que Victor foi trazido de volta à realidade, Oliver aproveitou a brecha e fugiu imediatamente.

    Para qualquer pessoa de fora, esse tipo de interação teria passado despercebido. Quase ninguém perceberia a intenção assassina vinda de Victor. Oliver, porém, herdou os sentidos de um elfo da alma. Ele entendeu quão perigosa era a situação em que estava e quão perigoso era aquele indivíduo magro com olheiras profundas.

    “Puta que pariu, o que foi isso? Eu preciso encontrar a mãe.” Oliver correu em direção à sua casa.

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