Notas de Aviso

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    Pelk não queria ouvir o questionamento. O que é que está fazendo aqui? Vindo de um mago descendo as escadas. Por isso andava lentamente, esgueirando-se mais mentalmente na cautela paranoica do que por necessidade real, já que a rotina monótona ignorava um trabalhador qualquer confuso sobre o caminho da própria casa. Os cristais de luz dos corredores ainda estavam acesos. A torre norte, em especial, era um setor que costumava abrigar trabalho para além do final do expediente, tanto por ser o setor com maior demanda e menos pessoal, quanto por alguns magos aparentemente preferirem sair mais tarde e, por isso, chegarem atrasados ao trabalho todos os dias. Um dos privilégios de serem especiais: tinham ampulhetas flexíveis e “supervisionavam” uns aos outros.

    Quando se aproximou do quinto andar, Pelk redobrou a atenção. Mais um andar e estaria no setor de Loabek e, surpreendentemente, apesar de metade das portas estarem abertas e os magos trabalharem em seus respectivos departamentos, todos pareciam indiferentes a qualquer movimentação nas escadas, se é que conseguiam ouvir os passos receosos do visitante noturno.

    Quando seus olhos já alcançavam a entrada do sexto setor, Pelk percebeu a sombra de alguém próximo à porta. Com mais alguns passos, reconheceu a silhueta da maga. Ela estava concentrada organizando papéis sobre o balcão de recepção. Mas logo que percebeu a presença do escriba, sorriu e fez sinal para que se aproximasse do local.

    — Venha — convidou Ling quando Pelk estava à frente do arco da porta, hesitante.

    — Não se preocupe. Nesse período, só eu costumo ficar aqui — apaziguou a maga, tentando explicar.

    Ela fechou a porta depois que o jovem entrou na sala.

    — E os outros? — perguntou Pelk, sondando as estantes e caixas de documentos burocráticos ao redor enquanto mordia os lábios.

    — Eles vão para casa, e normalmente me solicitam que continue trabalhando por mais tempo.

    Ling respirou fundo e ergueu uma caixa preenchida por papéis. Caminhou até metade da sala, virou à esquerda e desapareceu.

    Pelk, sentindo-se deslocado, escolheu não se mover.

    A maga retornou para chamá-lo.

    — Está seguro aqui. Vamos conversar — sugeriu a mulher.

    Ele a acompanhou até uma mesa, sentindo o leve perfume floral da aprendiz que se misturava ao cheiro de pó, tinta e papéis. Na extremidade esquerda do móvel, havia um conversor de mana, exatamente o que ele precisava investigar; na borda oposta, estava a caixa recém-transportada e, ao centro, um tinteiro ao lado da pilha de ofícios marcados em letras douradas. Era praticamente um depósito de toda a papelada que o seu setor despachava diariamente.

    Ela sentou-se e indicou que fizesse o mesmo.

    — Disse que tinha dúvidas, certo? Pode me perguntar o que quiser. — A maga demonstrava em seus gestos o cansaço acumulado.

    — Você está bem? Parece exausta — perguntou Pelk, que não conseguiu ignorar o rosto pálido e abatido de Ling.

    Ela abaixou a cabeça e inclinou levemente o corpo para frente.

    — Podia estar melhor — confessou. — Não tem sido fácil.

    — Também está presa a esse lugar? — A simpatia do escriba manifestou-se com sinceridade.

    A aprendiz fitou a expressão do convidado. Reconheceu no rapaz a sensibilidade de alguém que também era vítima daquele mundo.

    — Eu escolhi. O problema, na verdade… — Ling deixou as palavras suspensas.

    Pelk entendeu a situação. A única diferença que ela tinha em relação aos magos ao redor dela era simples.

    — Você é mulher — completou o escriba, compreendendo-a ainda mais.

    Ela pressionou os lábios finos um contra o outro, endireitou a postura e confirmou:

    — Sim.

    — Importa-se de eu trabalhar enquanto conversamos? — perguntou a anfitriã.

    Pelk balançou a cabeça, constrangido.

    — Não quero incomodar.

    — De modo algum. Faça-me companhia — disse ela, apontando para outro equipamento em cima de uma mesa na outra extremidade da sala. Em seguida, pediu:

    — Poderia trazer aquele conversor aqui? Por favor!

    Pelk trouxe o equipamento. Ling o colocou ao lado do outro e posicionou um dos títulos de posse manufaturados em letras douradas. Com a gema tocando exatamente em uma das runas na borda do verso do documento, ela canalizou mana na gema maior e uma fraca luz se manifestou na outra extremidade enquanto o documento era ativado.

    — A base da magia é a mana, Pelk. Não sei há quanto tempo consegue enxergar as flutuações e as palavras de conjuração, mas saiba de uma coisa: tudo o que existe está interconectado por essa energia. Ela possui todas as formas e se manifesta em todas elas — explicou Ling, enquanto preenchia de mana o documento oficial.

    O escriba não era um leigo. Pelo contrário, desde que descobriu sua própria natureza, investigou a fundo tudo o que com ela estava relacionado.

    Quantos anos tinha mesmo? Cerca de seis.

    Não era incomum essa conversa entre os amigos do orfanato, e mesmo Benk, com grande empolgação e brilho nos olhos, falava frequentemente sobre o assunto. Quando Pelk entendeu os sinais, ele imediatamente conteve qualquer impulso afobado e investigou cuidadosamente o que era aquilo.

    Para uma criança de seis anos, aquela maturidade poderia parecer incomum.

    De fato, talvez Pelk fosse um pouco mais cauteloso do que os colegas de mesma idade, ainda mais por presenciar o que acontecia com aqueles que eram descobertos. Um dia eles estavam lá, e no outro não estavam mais.

    A mulher sondou os olhos do convidado, compreendendo que aquele assunto não era novidade para ele.

    — Aqui — disse ela, emprestando um conversor de mana para o escriba.

    — Sabe canalizar sua mana, não sabe? Tente! — convidou a maga, se divertindo com a situação.

    — A nossa mana está ativa e sincronizada com nossa vida em nosso corpo. Nesse estado impuro, ela não serve para preencher os documentos. Esse equipamento transforma a mana para que ela retorne ao seu estado natural.

    O rapaz tentou fingir surpresa, mas suas habilidades de atuação não estavam em seu melhor dia.

    Ling percebeu, e Pelk percebeu que ela percebeu.

    — Sabe como funciona o circuito de runas? — perguntou o escriba, aumentando o grau de complexidade da conversa.

    — Você que as desenha, não é mesmo? — disse a maga, que conversava normalmente, apesar de não interromper o ato de ativação.

    — Cada runa tem uma função. Os documentos são projetados em sobreposição de funções. Temos aqui a runa receptora que direciona a mana para a distribuidora, e essa outra efetiva a retenção, ou seja, armazena a energia e, uma vez ativada, absorve mana constantemente do mundo ao redor. Por isso os documentos, uma vez ativados, permanecem conectados uns com os outros.

    Ling, ao mesmo tempo em que mantinha o fluxo de mana constante no documento, explicava o caminho que a energia percorria, descrevendo as funções de cada uma das runas do verso do papel.

    — Na academia mágica, eles nos ensinam a transcrever as palavras de conjuração em pictogramas rúnicos. Dizem ser o método mais eficiente, mas alguns usam ideogramas mais elaborados para desenvolver a transcrição da magia. — A mulher, apesar do cansaço, apresentava com entusiasmo todo o universo ao qual pertencia.

    Pelk canalizou a mana para a gema do equipamento. No mesmo instante, Ling colocou uma folha de papel em posição adequada e o instruiu:

    — Olhe para o fluxo nas letras douradas. Quando todas estiverem reluzindo, o documento estará pronto.

    O acolhimento recíproco acalentava a solidão que secretamente ocupava seus corações. Pela primeira vez na vida, o escriba sentia que sua identidade não era algo do qual devia se envergonhar. Ling, por sua vez, apreciava o reconhecimento, respeito e carinho que o jovem que acabara de conhecer lhe oferecia. Um pouco de paz naquele ambiente carregado pela desconfiança e repulsa de seus semelhantes.

    Mas a missão era clara, a pergunta, inevitável.

    — Como é que funciona esse aparelho? — questionou Pelk, na esperança de desvendar quais runas exatamente eram usadas no cilindro interno.

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