Notas de Aviso

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    Atordoado, Pelk tentou recobrar a clareza dos pensamentos. A mulher de expressão compassiva olhou ao redor; os magos atarefados não notaram o pequeno evento recente perto da porta.

    Ela retirou a caixa das mãos de Pelk e a colocou no chão; caminhou para fora do departamento, esperando que o escriba a seguisse.

    Desceu alguns degraus da escada e virou-se para o visitante.

    — Qual o seu nome? — perguntou a aprendiz.

    Antes que o rapaz pudesse responder, ela continuou.

    — Sou Ling, assistente e maga tabeliã.

    Pelk hesitou, mas o comportamento acolhedor da mulher à sua frente o fez enfrentar o nervosismo.

    — Pelkdoc, escriba da ala leste — respondeu ele, sem deixar a voz falhar.

    Ling observou com atenção o visitante. O tom baixo de suas palavras diminuiu ainda mais. 

    — Entregar os documentos! Sobre a sua mana, faz tempo que descobriu? — perguntou ela, com redobrada delicadeza.

    A respiração acelerada de Pelk fez seu rosto enrubescer. Ele não conseguia formular uma resposta para a pergunta que acabara de ouvir.

    Ling fez sinal para que se aproximasse.

    — Não se preocupe — sussurrou ela, e completou.

    — Duvido que os outros percebam. Fique calmo!

    Ainda sem conseguir dizer qualquer coisa, o escriba se apoiou na parede de pedra ao lado, desviando o olhar para a pequena abertura diagonal que fornecia ventilação e iluminava o corredor. Ao longe, os telhados das casas brilhavam sob a luz solar em meia intensidade.

    — Reconhece meu sotaque? — questionou Ling.

    Pelk balançou a cabeça indicando que não.

    — Sou de Horplac — explicou a mulher.

    A informação reverberou entre as memórias do jovem. República de Horplac. Se não estava enganado, o ministério mágico desse estado era regido por normas bem diversas das tradicionalmente aplicadas pelo secto mágico de Ecala Moon.

    — Quer conversar? Sobre… sua situação? — perguntou a maga, tentando escolher as palavras certas.

    E pela primeira vez depois do impacto inicial, Pelk conseguiu responder com confiança.

    — Como sabe sobre mim? Conversar sobre o quê?

    Ele não tinha a intenção de ser rude, mas os sentimentos nem sempre autorizam o equilíbrio das emoções.

    Ling não se ofendeu pela raiva do escriba. Apenas deslizou os dedos entre os cabelos negros e lisos, cortados na altura dos ombros. Ela fitou a entrada do departamento e depois tentou transmitir o que entendia muito bem.

    — Sou maga. Poucas mulheres têm acesso às palavras de poder. E quando temos, não somos exatamente iguais a vocês, homens — disse a aprendiz, enquanto erguia a mão, observando os próprios dedos longos e finos.

    — Consegue ver? Na ponta dos meus dedos? — perguntou a maga, chamando a atenção de Pelk.

    Sem compreender a que ela se referia, o rapaz concentrou a atenção, mas nada lhe parecia diferente. Tudo o que conseguia perceber eram as flutuações de energia que estavam em toda parte e, caso desejasse, poderia discernir as palavras conjuradoras, mesmo de olhos fechados.

    — Ver o que? — perguntou, curioso sobre o que ela estava falando.

    — A tonalidade da mana, a ondulação e o fluxo. Detalhes. Consigo entender as emoções da magia. Por isso percebi que era mago. Eu vejo sua mana em diferentes camadas, mas você não consegue enxergar as que eu consigo.

    Pelk franziu a testa e, sem conter a frustração, deixou transparecer a profunda raiva que o envolvia. Sentiu-se exposto, vulnerável. De modo algum queria se revelar e por anos sempre ocultou sua condição. O temor de que descobrissem que ele era um mago era constante. Benk, apenas ele e mais ninguém, seu melhor amigo a quem concedeu o segredo. Apenas ele podia saber.

    Ling se compadeceu da dor do escriba.

    — Você está bem? — perguntou a mulher, tentando apaziguar o rapaz.

    Não. Era o que queria dizer, mas isso não era importante no momento. Como poderia investigar o conversor de mana do departamento? O que deveria dizer para sair daquela situação em que estava?

     — Tenho… dúvidas — confessou o escriba, mas sem clareza sobre o que exatamente estava falando.

    — Quer conversar sobre isso? — perguntou Ling, em tom acolhedor.

    Mas, nesse instante, ambos ouviram ao longe o som de passos. Pelk sentiu as pernas tremerem, enquanto o acúmulo emocional transbordava. Ling respirou fundo, controlou a ansiedade e ajeitou a postura, endireitando a coluna e levantando o queixo.

    A maga olhou ao redor e, em seguida, sussurrou.

    — Volte depois do anoitecer, depois da décima sétima parte — orientou a mulher. Ela esboçou um gesto de despedida, girou o corpo e subiu as escadas para retornar ao interior do departamento.

    O escriba deixou as pernas o guiarem escada abaixo. Quando estava sozinho entre o terceiro e o segundo andar da torre, soltou o ar com força, abaixou o corpo, sem conseguir decidir se sentava sobre o degrau ou fingia e enganava a si mesmo ao forçar o corpo a não ceder.

    Pelk retornou ao setor de compilação de escrituras. Sua mente ainda estava turva, mas assim como Benk sempre dizia: organize os pensamentos, cuidado com os detalhes.

    Cumprimentou Gior-joh normalmente e entregou-lhe um copo de cerâmica contendo chá quente. A certa distância, o amigo estava concentrado em contornar as runas sobre o papel. Precisava colocar a cabeça no lugar, desenhar, empurrar o problema para depois. Poucas vezes sentira algum prazer em ceder sua atenção ao trabalho, mas naquele momento, era exatamente o que precisava fazer.

    Estavam na metade da décima segunda parte do dia. O expediente se encerrava na décima sétima. No fundo, Pelk não queria pensar sobre o que havia acontecido. Quem era aquela mulher? Não foi minha culpa? O que eu fiz de errado? Precisava coletar informações, mas acabou não apenas fracassando, mas também sendo descoberto. Mesmo que os problemas agora fossem as questões pessoais, o plano original estava intacto e apenas temporariamente pausado.

    Quais eram suas alternativas? Ir até a torre e conversar com alguém que mal sabia o nome. Horplac? Sim, ele sabia que os magos desta república não estavam subordinados ao secto central, e mesmo dentro do grupo principal, o controle completo dos membros no reino antigo era pura ilusão. A influência da teocracia mágica de Ecala Moon tinha limites cada vez mais claros. Demonstrava fraqueza há muito tempo, ainda mais depois da contestação dos acadêmicos de Drak, e isso ocorrera há mais de dois mil anos.

    Magos, escolhidos do mundo? Não mesmo!

    Os governantes, agora, em absoluta maioria, eram os comerciantes. Direta ou indiretamente, quem guia o destino da sociedade são aqueles que organizam o uso da terra e de suas riquezas. Definitivamente a era das luzes conjuradoras já não tinha mais a mesma força.

    Pelk sentia-se constrangido, e já que o problema estava posto, decidiu: antes de relatar o ocorrido a Benk, que ao menos pudesse entregar junto algum avanço.

    Ao fim do expediente a sua escolha era clara; precisava encontrar Ling e enfrentar a situação.

    Saiu da seção silenciosamente, um pouco antes do amigo, evitando qualquer contato com ele. Escondeu-se entre as estantes do armazém de papéis e esperou que os trabalhadores rumassem para o descanso do fim do dia. Algumas ampulhetas depois, assim que a oportunidade surgiu, esgueirou-se em direção à torre, retornando para resolver o que deixara pendente.

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