Índice de Capítulo

    Estou revisando, refazendo e remodelando todos os capítulos iniciais de “O que eu deixei para trás?”. Então, já peço desculpas caso vocês percebam uma mudança drástica de qualidade entre os primeiros capítulos e os que virão em seguida.

    Quero trazer a melhor versão possível da obra para o Volume 1 físico, que sairá em breve. Por isso, vou tentar concluir toda essa melhoria o quanto antes e peço a compreensão e paciência de vocês durante esse processo.

    Muito obrigado pelo apoio de sempre. Vocês são o que me motiva a continuar escrevendo todos os dias!

    CAPÍTULO ANTERIOR:

    — Nã—

    Antes mesmo que pudesse concluir a palavra, o sangue ao redor reagiu.

    As correntes rubras se contraíram violentamente.

    O mar carmesim revolveu-se em ondas furiosas.

    Atrás de Takua, a imensa íris escarlate começou a girar descontroladamente, como se tivesse visto algo perturbador.

    Mas nada se comparava ao que surgiu acima de sua cabeça. As letras vermelhas começaram a se formar no ar, uma após a outra.

    Lentas e irrevogaveis, compondo assim, uma única e absoluta sentença:

    MENTIRA


    O veredito caiu como um martelo implacável.

    — O-o quê?!

    As pupilas de Louie dilataram.

    — M-mas eu não sei nada sobre ele!

    Seu corpo avançou para frente em um impulso desesperado, fazendo as correntes reagirem de imediato. Os elos rangeram ao se fechar ao redor de seus braços, obrigando-o a continuar suspenso.

    À sua frente, Takua permaneceu imóvel. A expressão manteve-se firme, sem vacilar nem por um único instante.

    — Após o Massacre do Colégio Península, esteve em contato com ele?

    — Não!

    A resposta veio sem qualquer hesitação. O Tribunal, no entanto, não compartilhava da mesma convicção.

    O oceano abaixo deles ondulou violentamente. Então, fios vermelhos ascenderam pelo ar como rios flutuantes e, acima da cabeça do garoto, a sentença reapareceu.

    MENTIRA

    O ar abandonou seus pulmões, enquanto seu coração batia tão rápido quanto um trem desgovernado.

    — Hã…?

    Sua voz falhou.

    — C-como assim?

    Os dedos se fecharam.

    — Isso… isso não faz sentido!

    Indiferente à reação dele, Takua prosseguiu com o interrogatório.

    — Você possui ou já possuiu qualquer ligação com a Sacrificium Sanguínis?

    — Definitivamente não!

    O olho atrás dela se contraiu, voltando a derramar lágrimas rubras.

    MENTIRA

    O rosto de Louie empalideceu.

    — Não…

    A garganta se fechou.

    — Não, espera… isso não…

    A Vigia avançou um passo, encurtando a lacuna entre os dois.

    — Você conhece as intenções da Sacrificium Sanguínis?

    NÃO!

    Antes mesmo que o eco de sua resposta se dissipasse, as letras voltaram a emergir, condenando-o mais uma vez ao profundo abismo dos culpados.

    MENTIRA

    Por alguns segundos, ele apenas encarou, incrédulo, o decreto acima de si. Sem reação, era incapaz de compreender a distância que separava suas próprias verdades daquilo que agora as contrariava.

    — M-mas que porra é essa…? — De forma involuntária, o sussurro escapou de seus lábios. — Eu… eu não fiz nada disso…

    Seu olhar correu freneticamente pelo Tribunal, procurando nos arredores qualquer explicação ou saída.

    — Eu não entendo… por que isso está acontecendo comigo?

    Em sua pupila esquerda, tão azul quanto o céu, agora tomada por nuvens carregadas, surgiu uma única e solitária gota de chuva.

    Logo veio mais e mais.

    Até que aquele grande céu foi completamente engolido por uma chuva sem fim.

    — POR QUÊ?! Eu só queria ficar longe de tudo isso! Por que nem o passado, ou mesmo o futuro me deixam viver?!

    Seu pranto desesperado ecoou por todo o vasto salão.

    O mar respondeu, chocando-se contra as paredes sob o olhar vigilante da íris.

    Diante dele e de sua situação deplorável, Takua estremeceu, escondendo o rosto diante da sombra dos próprios cabelos.

    A frustração transbordava a cada sílaba dita pelo garoto.

    — Se é para viver assim… assombrado por lembranças que sequer lembro, condenado por um destino que me amaldiçoa, acorrentado a trazer aquele que matará até mesmo quem mais desejo proteger…

    Perante aquela lamentação, um longo suspiro escapou dos lábios da Vigia.

    — Então o melhor para todos seria eu morre—

    — Cala a boca!

    A interrupção veio certeira.

    Sem qualquer cerimônia, deixou o próprio corpo cair para trás, sentindo a tensão abandonar seus ombros. Os longos cabelos brancos espalharam-se sobre o solo enquanto encarava o vazio acima.

    — O-o quê?

    — Estou mantendo o Julgamento e a Galeria das Visões abertos há bastante tempo. Meu corpo já está começando a doer.

    Ainda assim, entre o cansaço e o alívio, ela levou uma das mãos à face. Um pequeno sorriso revelou-se no canto da boca.

    — Como assim?! — Brandou o menino. — E o julgamento?!

    Takua apoiou os cotovelos no líquido e ergueu o tronco com certa dificuldade.

    — Não há mais nada para ser julgado.

    As pupilas do garoto afundaram ao encarar aquela resposta.

    “Entendi… parece que esse vai ser mesmo o meu fim.”

    — Louie Kaede…

    A voz dela surgiu firme.

    Ele abaixou levemente o olhar.

    “Bom… foi ótimo esse pouco tempo que vivi como Louie.”

    — Eu decreto você…

    O ambiente ao redor reagiu instantaneamente.

    O oceano vermelho elevou-se aos céus, moldando-se em um grande martelo de sangue que reproduzia cada movimento de seu braço.

    As imagens daqueles por quem nutria tanto carinho vieram à mente de Louie.

    “É uma pena…”

    Quando ela o ergueu, seus olhos finalmente atravessaram a escuridão que ocultava seu rosto, revelando um intenso brilho azul-celeste.

    “Queria vê-los ao menos mais uma vez.”

    Então o martelo desceu sobre o garoto.

    BOOOOM!

    E, junto ao impacto, o veredito foi cravado na terra de sangue.

    — INOCENTE!

    Em vez de esmagá-lo, o juízo passou através de seu corpo como um espectro, sem lhe causar qualquer dano.

    O silêncio se concretizou entre eles.

    Louie, com apenas um olho aberto, varreu os arredores em busca de alguma explicação.

    O oceano havia se acalmado e o martelo já não se movia mais.

    Seu olhar percorreu lentamente o julgamento, agora tomado por uma estranha tranquilidade.

    Até que, enfim, encontrou os olhos da Vigia.

    Confuso, piscou uma, duas, até três vezes, antes de finalmente perguntar:

    — …hã? Eu não tô no céu?

    — Pff—

    Takua levou a mão à boca, tentando conter o riso, mas falhou miseravelmente.

    — Hahahahahaha!

    — O quê?! Como eu tô bem?! — Agitou os braços recém-libertos das amarras.

    Ao notar o sorriso que escapava do rosto dela, ficou boquiaberto.

    — E por que tu tá rindo?!

    — D-desculpa, hahaha — respondeu, enxugando os cantos dos olhos. — Eu realmente não consegui me controlar depois dessa sua reação.

    — Tudo bem. Afinal, seu rosto combina bem mais com um sorriso do que aquela cara séria. — Ele retribuiu a risada.

    A menina desviou o rosto discretamente. Um leve rubor tomou conta de suas bochechas.

    — O-obrigado, eu acho…

    Os pés dele finalmente tocaram o líquido vermelho e, na mesma hora, ele começou a apalpar o próprio corpo.

    — Mas sério, que susto! Eu tinha certeza de que aquele martelo ia me atingir!

    Passou as mãos pelo rosto, peito, braços e, por fim, pelas próprias pernas.

    — Caramba… — soltou um longo suspiro. — Como é bom continuar inteiro.

    A tensão acumulada finalmente cobrou seu preço. Suas pernas cederam, levando-o a cair sentado sobre o chão.

    — Nossa… — deslizou a mão pelas mechas brancas de seu cabelo. — Realmente achei que ia morrer.

    Takua observava a cena com leveza, o oposto do semblante sério que exibira durante o julgamento.

    Após recuperar o fôlego, Louie a encarou.

    — Mas espera, eu não entendi. Por que tu me declarou inocente se todas as minhas respostas foram consideradas mentiras?

    A garota tornou a se deitar.

    O corpo acomodou-se sobre a superfície rubra enquanto ela se perdia no vazio acima.

    — Para ser sincera… — Sua voz saiu leve. — Eu não sei.

    — Que? Como assim não sabe?

    — As palavras que aparecem acima da cabeça de alguém representam a resposta absoluta da pergunta feita.

    Louie franziu a testa.

    — Hm?

    — Mas o Julgamento de Sangue não se baseia apenas nisso. Graças ao Olho de Odin, consigo enxergar as convicções por trás de cada resposta.

    Ela ergueu uma das mãos para o céu avermelhado.

    — Consigo saber se a pessoa realmente acredita naquilo que está dizendo.

    O garoto coçou o queixo, pensativo.

    — Certo. Então tu viu que eu realmente não sei nada sobre isso?

    O sorriso dela diminuiu aos poucos.

    — Não exatamente.

    — Hã?

    Takua fechou lentamente os dedos que mantinha erguidos no ar.

    — Essa é justamente a parte que não entendo.

    O vestido branco repousava sobre o solo, acompanhando as curvas de seu corpo.

    — Em toda a história de Vallheim Vestrak, nunca existiu um único registro de algo parecido.

    — Parecido com o quê? Fala logo!

    Ela virou o rosto na direção dele; sua expressão carregava uma inquietação que nem mesmo ela conseguia esconder.

    — Eu não consegui determinar no que você acreditava.

    O garoto recuou a cabeça, surpreso.

    — E isso é possível?

    — Também gostaria de saber.

    Takua respirou, cansada.

    — Mas o que eu vi foi exatamente isso.

    Voltou-se uma vez mais para o horizonte.

    — Era como se, ao mesmo tempo… — hesitou — você acreditasse que estava dizendo a verdade, e acreditasse que estava mentindo.

    — Quê? Mas eu garanto que não estou envolvido com eles…

    — Eu acredito. — afirmou, mantendo-se serena. — Até porque, se não acreditasse, não teria absolvido você.

    Louie coçou a nuca, sem jeito.

    — Ah… faz sentido. Obrigado por confiar em mim.

    — De nada. — Ela desviou o olhar.

    Um silêncio desconfortável se instalou entre os dois.

    Alguns segundos se arrastaram até que Takua murmurou, rompendo a quietude.

    — Bom, acho que está na hora de finalizar este julgamento. — Levantou-se, alongando os braços acima da cabeça. — Já estou ficando exausta.

    — Certo. Mas o pessoal lá fora vai aceitar isso numa boa? — Louie se recordou do conselheiro-chefe e de seu olhar mórbido. — Aquele cara mascarado não me pareceu muito receptivo.

    Ela fechou os olhos por um instante antes de responder.

    — Quanto a isso, pode ficar tranquilo. Possivelmente eles serão contra, mas a última palavra no julgamento continua sendo minha. Você provavelmente só terá que permanecer aqui em Vallheim Vestrak sob supervisão por um período indefinido.

    Ele assentiu lentamente, sem demonstrar qualquer tipo de resistência.

    — Tudo bem. Ainda assim, queria ao menos conseguir falar com o pessoal em Áurea. Imagino que eles estejam preocupados comigo…

    — No momento, isso não será possível. Sua vinda para cá está sob sigilo absoluto, pois tememos um ataque da Sacrificium Sanguínis, entre outras possibilidades. — Abriu os olhos e fixou sua atenção nele. — Porém, posso tentar convencer os conselheiros a estabelecer uma conexão exclusiva com Kael, já que suas chances de estar ligado à organização são quase nulas. Mas isso provavelmente só será possível daqui a alguns dias.

    — Certo. Já é algo.

    A Vigia deu alguns passos à frente, observando o espaço ao redor pela última vez.

    — Então, vamos voltar.

    Com um movimento delicado, tocou a ponta dos dedos contra o chão e, como se remodelasse o próprio mundo, a imensa estrutura ao redor comprimiu-se em uma densa esfera líquida e escarlate sobre sua palma.

    Logo após, a pequena forma pingou, assim como a gota que deu início ao grande tribunal. E, ao tocar o vazio onde antes havia solo:

    Glump!

    Sem qualquer transição perceptível, os dois estavam novamente no Núcleo de Julgamento, cercados por Akun, Vidar e centenas de figuras imponentes.

    Todos os olhares estavam cravados sobre eles, sem sequer tentarem disfarçar.

    O cenário, agora restaurado à sua forma original, não carregava o menor vestígio da realidade que existira antes.

    Ainda assim, algo havia mudado.

    Afinal, apenas duas pessoas naquele local conheciam a verdade por trás daqueles longos minutos.

    Takua estava acima da grande passarela que atravessava os anéis do salão. À sua frente, Louie Kaede sustentava uma postura firme.

    O homem ao lado da pista avançou um passo, levou a mão ao peito e sua voz ecoou por todo o recinto:

    — Atenção, todos os presentes! Neste exato momento, será revelado o veredito do tão aguardado Julgamento de Sangue do Oriundo da Morte.

    Murmúrios inquietos se espalharam pela audiência.

    “Veremos como se saiu, moleque”, pensou Akun, encarando a expressão séria do garoto.

    — Caso as luzes circulares gravadas no solo assumam a coloração verde, o réu será declarado inocente. Entretanto, caso o vermelho tome seu lugar… será considerado culpado e sentenciado de acordo com seu crime!

    Diante disso, todos, sem exceção, voltaram sua atenção para os círculos luminosos espalhados pelo chão, aguardando que o dourado reluzente revelasse a tonalidade que decidiria o destino daquele garoto, e talvez o de todo o mundo.

    Assim, sua cor mudou do mais puro amarelo

    …para o mais inocente verde.

    A incredulidade estampou-se nas feições dos presentes ao verem o decreto.

    Mesmo com uma expressão perplexa, o guarda ao lado da Vigia deu continuidade ao seu trabalho.

    — C-com isso, o réu Louie Kaede, é declarado livre de qualquer acusação anterior. Veredito… INOCENTE!

    As palavras ecoaram por todo o ambiente, tirando o fôlego daqueles que o acompanhavam. Demorou questão de segundos, para que os balbucios começassem.

    — O-o quê? Isso sequer faz sentido? — ecoou a primeira voz.

    — Mas não foi uma profecia? — questionou uma segunda, ainda mais confusa.

    — Será que… a visão da Vigia falhou?

    Uma após a outra, diversas perguntas, julgamentos e suposições surgiram na boca dos observadores.

    Takua, frente a tantas contestações, cerrou os dentes.

    — SILÊNCIO! — Sua ordem calou a todos na hora. — Durante e após o julgamento, percebi que Louie Kaede, embora vinculado a esse futuro, não é o culpado.

    Então, novamente, outros sussurros surgiram. Mas, diferente de antes, pareciam mais receptivos à decisão.

    — Sério?

    — Bom, se essa foi a conclusão da Vigia, deve estar correta, né?

    Mas, em meio aos novos cochichos, uma voz grave, vinda da figura atrás de Akun e Vidar, dominou completamente o ambiente com seu simples emanar.

    — Você “percebeu”? Que interessante… Então, posso supor que sua escolha não foi tomada com base na escrita absoluta, e sim na Visão de Odin, correto?

    A voz pertencia a um homem de olhos prateados e mórbidos, ocultos atrás de uma máscara gélida. Um longo manto branco como a neve envolvia seu corpo, ostentando no peito o símbolo de Vallheim Vestrak. Cabelos curtos azul-escuros completavam sua figura imponente.

    Ao ouvi-lo, Louie virou-se rápido.

    “Esse… é o mesmo cara que me buscou lá na nave. Como o Akun tinha o chamado mesmo?”

    A Vigia, acima da passarela, recuou assim que viu a silhueta se aproximar.

    — Dito isso, gostaria de saber, qual foi a verdade absoluta? — Indagou o sujeito.

    Ela fechou os punhos.

    — Isso é irrelevante para a decisão, conselheiro-chefe. — respondeu de imediato.

    — Será mesmo? Vamos ver o que os outros conselheiros pensam disso? — Os braços se abriram em um gesto teatral.

    Akun, em pé ao lado dele, abaixou a cabeça.

    “Merda! Por que ele decidiu se meter agora?!”

    Fitou-o, sem virar-se.

    “Ele… junto da Vigia, detém o poder definitivo sobre Vallheim Vestrak, e também é aquele que comanda os conselheiros, os segundos maiores no poder.”

    Sua mandíbula se contraiu.

    “Caso ele decida… é capaz de influenciar até mesmo o resultado do julgamento!”

    Mesmo sem conseguir compreender suas intenções, Akun sabia. Havia algo naquela calma excessiva que dizia que tudo estava saindo exatamente como ele desejava.

    “O que esse desgraçado está planejando agora?!”

    — Eu dispenso a opinião deles. — cravou Takua. — Aquela que detém o poder da “Visão de Todos” sou eu. Portanto, meu veredito sobre o réu já é suficien—

    — E por quê? — O mascarado passou a mão pelos cabelos. — Talvez porque todas as Escritas de Sangue tenham revelado algo diferente da decisão que escolheu tomar? E, para ser bem sincero, já estou cansado de nós, conselheiros, confiarmos nossas vidas e nosso futuro à decisão de uma única pessoa. As vezes temos que mudar…

    “Ora, seu…” grunhiu a menina de cabelos brancos, fechando os olhos. “Se acalme, Takua. Mesmo com tudo isso, nunca na história desta cidade o resultado de um Julgamento de Sangue foi alterado. Não será agora que isso vai acontecer.”

    Mas, o público a volta discordava daquilo que a garota pensava.

    — Ele não tem razão? Se ela não quer contar, algum motivo tem, não é?

    — Se dependermos apenas do que ela acredita ser verdade, não chegaríamos ao mesmo fim de qualquer forma?

    — Isso está mal contado! Temos o direito de opinar sobre aquilo que definirá nossos futuros também!

    O Conselheiro-chefe ergueu o queixo em um gesto sutil, deixando um sorriso quase imperceptível escapar pelos cantos.

    — Veja, minha querida Vigia. Ninguém aqui está questionando sua autoridade. Mas se o veredito contradiz aquilo que nos foi mostrado, então o mínimo que merecemos é uma explicação.

    O rosto de Louie empalideceu.

    “O-o quê? Mas que droga…! O que eu fiz pra esse querer tanto me ferrar?!”

    Em poucos instantes, questionamentos e exigências passaram a atravessar o salão como lanças apontadas para Takua, pressionando-a por todos os lados.

    Sem saída, e encurralada pelo peso de centenas de olhares, restou-lhe apenas uma escolha.

    — Certo… eu revelo tud—

    BOOOOOOM!

    Uma explosão estrondosa eclodiu ao longe, fazendo o núcleo estremecer e arrancando a atenção de todos.

    DING-DOOOONG! DING-DOOOOOG!

    O sino soou logo após, até ser ocultado frente a um enorme alerta que percorreu toda a imensa cidade.

    ATENÇÃO, GUARDIÕES E CONSELHEIROS! ESTAMOS SOB ATAQUE INIMIGO! RÁPIDO, REÚNAM-SE AO EXÉRCITO E SIGAM IMEDIATAMENTE PARA JOTUNHEIM, NA REGIÃO DO LIMBO ESCLERAL!

    A ordem ecoou por toda Vallheim Vestrak.

    Por um breve instante, o silêncio dominou tudo. Então, o caos recaiu sobre todos.

    Mantos rodopiaram pelos ares.

    Figuras mascaradas dispararam pelos anéis suspensos, saltando sobre corrimões e passarelas sem sequer olhar para as escadarias. Em questão de segundos, dezenas já desapareciam através do colossal portão do templo central.

    As pupilas azul-celeste se estremeceram.

    — Um ataque? Agora?!

    O estalo de língua respondeu antes mesmo que qualquer explicação surgisse.

    — Tsk. Devem ser os Jötnar. — O homem de cabelos azul-escuros sequer olhou para trás ao caminhar em direção à saída. — Aproveitaram que nossas defesas estavam baixas por causa do Julgamento de Sangue para tentar uma invasão.

    — Jötnar? — A pergunta escapou por reflexo do garoto. — Quem são eles?

    — Uma tribo de Kaelums independentes. — Ela respondeu imediatamente. — Habitam os topos das montanhas e migram constantemente em busca de criaturas para forçar transformações Kaelums. Há décadas tentam conquistar Vallheim Vestrak.

    Mesmo enquanto falava, sua mente permanecia distante, voltada ao fluxo de combatentes que desapareciam ao longe.

    — Entendi… mas por que querem tanto atac—

    — Sem tempo para explicações.

    A interrupção surgiu tão perto que o menino se assustou, dando um salto para trás.

    Ao lado dele estava uma figura de cabelos loiros desbotados.

    — Akun… — Sussurrou a menina.

    — Perdão pela intromissão. — Um sorriso descontraído surgiu em seu rosto. — Mas estamos com pressa.

    Algo puxou a roupa de Louie.

    — Ei?!

    Os dedos do guardião haviam se fechado em sua gola.

    — Aí, moleque. Consegue lutar, não consegue?

    — Hã? A-ah, acho que sim, mas por qu—

    O chão desapareceu sob seus pés.

    — Espera!

    Tarde demais.

    Com um impulso explosivo, lançou-se da passarela elevada onde estavam, cruzando o grande portão em um instante e arrastando Louie consigo rumo à queda livre.

    O vento o atingiu em cheio, fazendo seu estômago revirar.

    À frente do garoto, toda a imensidão de Vallheim Vestrak se estendia abaixo deles. Torres, pontes e avenidas luminosas giravam diante de sua visão enquanto despencavam em direção à cidade.

    — O QUE É ISS—AHHHHHHH!

    BOOOOM!

    Rachaduras se espalharam pela pedra quando pousaram. Assim que tocou o solo, Akun soltou Louie que, sem apoio, cambaleou para a frente. Por pouco não foi de cara ao chão.

    — Êh, cuidado pra não cair aí. Hehe. — disse Akun, sorrindo.

    — A culpa é tua! Vê se avisa da próxima vez!

    — Certo, certo. Só acompanha a gente.

    — Pera… tá falando pra eu participar da batalha?

    — Claro que sim. O que mais seria?

    Enormes colunas de cinzas já podiam ser vistas cortando o horizonte.

    — Eu confio em ti, mas, teoricamente falando, tu ainda é suspeito. Então seria imprudência te deixar sozinho com a Vigia. Fora que, quanto mais gente lutando, melhor. E depois do que vi naquela nave, sei que você não é tão inútil.

    Apontou para a fumaça escura.

    — Nossa prioridade é proteger os civis e evitar ao máximo os danos à cidade.

    Então lhe dirigiu um olhar provocador.

    — A menos que pretenda ficar parado enquanto existem pessoas correndo perigo. Se for esse o caso, pode fic—

    — Eu vou.

    — Hm?

    Os dedos do garoto se fecharam em punhos, enquanto uma veia sutil saltava ao longo do antebraço e do pescoço, marcando-se sob a camisa preta que vestia.

    — Eu vou ajudar.

    A resposta firme arrancou uma gargalhada sincera de Veritas.

    — Hehe. Agora sim. Gostei disso.

    Mais adiante, dezenas de mascarados aguardavam em formação. Alguns empunhavam armas, outros mantinham os braços cruzados, mas todos, sem exceção, estavam fixos na figura que avançava para a linha de frente.

    O longo manto branco deslizou por seus ombros e caiu suavemente sobre a neve. Por baixo dele, revelou-se uma armadura azul-cristalina.

    Mesmo à distância, era possível sentir a pressão que emanava daquele homem.

    O Conselheiro-Chefe de Vallheim Vestrak.

    — Conselheiros. Priorizem a segurança dos cidadãos e minimizem os danos à cidade. Considerando que eles já ultrapassaram a Região Pálpebra e chegaram ao Limbo Escleral, precisamos impedir que mais estruturas sejam destruídas.

    Sua voz atravessou todo o ambiente.

    — Quanto a mim e aos Guardiões…

    Seu olhar percorreu a formação até repousar sobre Akun Veritas e Vidar Valdaskar.

    — Nós cuidaremos dos Jötnar até termos mais informações sobre a situação.

    Ergueu uma única mão e, instantaneamente, todos assumiram posição.

    — VÃO!

    BOOOOM!

    O chão cedeu sob dezenas de investidas simultâneas.

    Sem ficar para trás, as quatro silhuetas centrais dispararam pela avenida principal em velocidade absurda. O líder de cabelos azul-escuros, os dois Guardiões e Louie transformaram-se em borrões que deixavam rastros chamuscados pelo caminho.

    Ao longe, sombras aladas cortavam o céu noturno enquanto a fuligem manchava a paisagem.

    “Jötnar…”

    Os olhos de Louie estavam cravados no local do combate.

    “Que tipo de inimigos vocês são?”

    No topo do templo, apenas Takua observava a partida, os dedos cerrados sobre o corrimão.

    — Tomem cuidado…

    Sua visão acompanhou os vultos se afastando ao longe.

    — …todos vocês.

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