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    ​O tilintar estridente das lâminas de Haron chocando-se contra a superfície espelhada da espada de Marco cortou o ar como um chicote.

    ​À distância, Haron viu com asco os homens e mulheres que o haviam seguido caírem um a um, transformados em cascas esqueléticas e vazias. No centro do abatedouro, Isaac permanecia de pé, cercado por cadáveres ressecados.

    ​Yssa e Vell assistiam à cena boquiabertos, paralisados pelo horror e pelo milagre. O choque foi ainda maior quando Bane, cujo corpo há pouco estava à beira da morte, abriu os olhos abruptamente no chão, totalmente regenerado. Os restos chamuscados de seu ARGENTEC estavam largados ao seu lado, reduzidos a cinzas e metal retorcido.

    ​— O que… o que aconteceu? — Bane arquejou, tateando o próprio peito. — Achei que tinha sido torrado pelos raios daquela mulher…

    ​— Apenas se acalme e recue com Vell e Yssa — instruiu Isaac.

    ​Sua voz, que antes parecia ecoar de um abismo distante, finalmente voltou à normalidade com o fim da magia profana. No entanto, seu semblante estava pesado; uma culpa irreparável e sombria estampava-se em seu olhar. Era torturante para um curandeiro usar o dom da vida para ceifar almas.

    ​Mas não havia espaço para lamúrias. Isaac engoliu o próprio remorso e analisou o campo de batalha. Nem sinal de Cassian ou Helick trazendo a Pantera-Chicote. O plano original de contenção corria sério risco de ter falhado. Se quisessem sobreviver, teriam que improvisar com o que tinham. Eliminar Haron antes da iminente chegada de Celina era a prioridade absoluta.

    ​— Eu e Marco cuidaremos do Haron. Fujam agora, antes que aquela mulher apareça! — ordenou Isaac, os pés tocando o solo firme mais uma vez.

    ​No centro da clareira recém-formada, o embate entre Marco e Haron atingia o ápice da intensidade. A mata ao redor já estava chamuscada pelas fagulhas erráticas, e o solo sob suas botas fora completamente despido até a terra batida.

    ​Haron tentava sufocar o adversário com ataques sucessivos de suas garras em chamas, mas Marco movia-se com a precisão de um verdadeiro soldado de elite. Sem o fardo das costelas quebradas, a disparidade técnica entre os dois tornou-se gritante. O Soldado Copiador desviava por milímetros, contra-atacando de maneira impecável.

    ​O deboche preguiçoso sumiu do rosto de Haron. Ele agora estava sério. Perigosamente sério.

    ​Marco esquivou-se de um gancho ascendente, flexionou os joelhos e desferiu um golpe com sua espada de baixo para cima, em um arco cortante. Haron cruzou as garras à frente do peito para bloquear, mas o impacto do aço espelhado foi tão violento que o empuxo o arrancou do chão.

    ​Aproveitando a fração de segundo em que o ARGUEM do oponente estava travado, Marco girou o quadril e desferiu um soco brutal direto no meio da face de Haron.

    ​O vagalume de Blando colidiu contra o solo, rolando pelo chão nu para recuperar a postura instantaneamente. Marco, contudo, não lhe deu margem para respirar. Ele já avançava como um predador, sua lâmina espelhada repentinamente envolta por um vórtice de ventos uivantes e violentos.

    ​— Magia de Vento: Estocada de Mil Cortes! — Marco rugiu.

    ​Canalizando a técnica que copiara de Stronger em um único ponto de pressão, o soldado desferiu um estocada reta. Uma torrente pressurizada de lâminas aéreas disparou à frente, capaz de fatiar até mesmo aço temperado em milhares de pedaços.

    ​— Droga! — Haron praguejou, os olhos arregalados. Ele cruzou os braços em brasa. — Magia de Fogo: Corte Trigêmeo!

    ​O arco de chamas de Haron chocou-se de frente contra o vendaval cortante de Marco. A colisão de manas foi catastrófica. O vento oxigenou o fogo instantaneamente, expandindo a combustão em uma onda de choque térmica. Em segundos, as árvores e arbustos ao redor transformaram-se em tochas vivas, incendiando a floresta.

    ​Isaac agiu rápido, erguendo uma cúpula translúcida ao redor de si e dos sobreviventes para protegê-los do calor infernal.

    ​— Vão! Agora! — ordenou ele a Vell, Yssa, Bane e aos demais curandeiros.

    ​Pelo reflexo do incêndio, as lâminas de Haron e Marco colidiram mais uma vez, arrancando faíscas que se misturavam às cinzas flutuantes.

    ​— ISSO ESTÁ FICANDO INTERESSANTE, MARCO DE LYBERION! — Haron bradou, um sorriso insano moldando seu rosto em meio ao fogo.

    ​Concentrado, Marco não se deu ao trabalho de responder. Ele rotacionou a espada espelhada, desvencilhando-se do metal inimigo e saltando para trás para recalibrar a postura.

    ​— Magia de Ressonância… — Marco sussurrou, preparando o contra-ataque.

    ​Subitamente, seus instintos gritaram. Uma fagulha de mana inteiramente fora dos padrões e em altíssima velocidade foi detectada pelo seu radar sensorial.

    ​Antes que ele pudesse desviar, um relâmpago amarelo cortou os céus, caindo em sua direção com a força de um trovão. Porém, antes que a eletricidade o desintegrasse, uma barreira geométrica de Isaac envolveu o soldado, dissipando a voltagem no ar.

    ​Celina ThunderBlade emergiu da fumaça, sua espada faiscando e um sorriso provocante brincando em seu rosto bronzeado.

    ​— Achei que já tinha dado um jeito em você, Marco, o Copiador — zombou ela, limpando uma fagulha da bochecha.

    ​— Marco! — Isaac surgiu logo em seguida, posicionando-se ombro a ombro com o aliado. — Os outros conseguiram avançar a tempo. Agora somos só nós. Podemos ir com tudo.

    ​— Não… — Marco respondeu em um sussurro focado, os olhos fixos na fumaça à frente. — Não estamos no mesmo número.

    ​Quase como uma resposta divinizada à sua afirmação, um cometa de fogo puro riscou a copa das árvores, despencando dos céus na direção exata de Celina.

    ​A espadachim ossuiana teve seus reflexos testados no limite absoluto. Ela rotacionou seu corpo no ar, posicionando a lateral da lâmina eletrificada para bloquear o impacto direto e evitar danos letais.

    ​ A explosão de chamas arrastou Celina alguns metros para trás, os pés cavando a terra batida. Ela ergueu os olhos, sustentando com esforço o peso da manopla forjada em Diamante Negro e daquele soco incandescente que pressionava sua espada. ​

    — Então… só faltava você — Celina sibilou através dos dentes cerrados, encarando a nova oponente. — Tály, a lutadora.

    ​Envolta em chamas douradas e vibrantes, Tály abriu um sorriso largo e predatório, os punhos ainda estalando com a energia térmica do impacto.

    ​— Foi mal a demora, pessoal. Estava garantindo que o resto do grupo seguisse adiante sem empecilhos — Tály estalou o pescoço, a postura exalando pura ansiedade e antecipação. — Mas eu nunca deixaria uma briga desse nível passar.

    ​O cenário estava limpo. Os suportes haviam recuado. Agora, um combate de tudo ou nada estava prestes a incendiar o que restava daquela floresta.

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