Capítulo 32: —
Poucos minutos depois, os dois atravessavam um corredor muito diferente daquele da primeira aula.
As paredes de pedra clara deram lugar a estruturas metálicas reforçadas. Grandes portas ocupavam os dois lados do corredor e, acima delas, números e símbolos estavam gravados em placas negras.
Quanto mais avançavam, menos o lugar parecia uma escola.
E mais parecia uma instalação militar.
— Eu não gosto disso — murmurou Blaidd.
Vance não teve tempo de responder.
As portas à frente se abriram.
O ambiente além era enorme.
O teto se erguia dezenas de metros acima deles. Fileiras de plataformas ocupavam parte do salão e diversas máquinas estavam espalhadas pelo local. Algumas lembravam equipamentos médicos. Outras pareciam ter sido construídas para desmontar pessoas.
Os alunos da turma já começavam a ocupar o espaço.
Marcus Mori estava parado no centro do salão com a mesma pasta de antes.
Quando todos finalmente chegaram, ele bateu uma vez na prancheta.
O som ecoou pelo ambiente.
— Muito bem.
O professor observou a turma.
— Agora que vocês já ouviram duas horas de teoria, chegou a parte que realmente interessa.
A reação foi imediata.
A atenção da sala inteira pareceu despertar ao mesmo tempo.
Marcus sorriu.
— Hoje vamos descobrir o que vocês realmente são.
O silêncio tomou conta do local.
— Tamanho de Fluxor, capacidade total, densidade, físico e o mais importante, caminhos.
— E algumas outras informações que vocês provavelmente passarão os próximos meses comparando uns com os outros.
Algumas risadas nervosas surgiram.
Marcus apontou para uma série de plataformas circulares posicionadas ao fundo.
— Vocês passarão por uma sequência de avaliações.
Ele fechou a pasta.
— E antes que alguém pergunte…
Seu olhar passou pela turma.
— Sim.
— Os resultados ficarão registrados nos arquivos da Academia.
Diversos alunos endireitaram a postura.
— Relaxem.
Marcus fechou a pasta.
— Não vou anunciar os resultados em voz alta.
— Ainda.
Algumas risadas nervosas surgiram.
Marcus apontou para as máquinas espalhadas pelo salão.
— A primeira etapa é simples.
Seu dedo indicou uma série de plataformas metálicas circulares.
— Capacidade física.
…
O salão mudou de ritmo.
Não foi imediato, mas perceptível.
As primeiras horas foram engolidas por uma sequência de chamadas, luzes e comandos curtos de Marcus Mori. Um por um, os alunos subiam nas plataformas, enfrentavam pressão, resistência, explosões de carga física e ajustes que pareciam testar não só o corpo, mas a forma como o Fluxor respondia sob estresse.
Vance perdeu a noção de tempo depois do terceiro teste.
Primeiro veio a capacidade física, depois tamanho de Fluxor, capacidade total e densidade.
A cada etapa, o salão parecia ficar mais silencioso.
Quando Vance percebeu, já era quase como se todos estivessem esperando o próximo nome aparecer não por curiosidade… mas por tensão.
E então o fluxo parou.
Marcus Mori bateu a prancheta uma única vez.
— Última etapa.
O salão inteiro pareceu prender a respiração.
— Caminhos.
Um leve murmúrio se espalhou.
Esse era diferente.
Ninguém fazia piada agora.
Marcus caminhou até uma estrutura isolada no fundo do salão. Uma espécie de cápsula vertical, coberta por linhas finas de energia pulsante.
— Entrem um por um.
Ele olhou para a turma.
Silêncio.
— Isso é a parte que vocês vão lembrar pelo resto da vida.
O primeiro aluno entrou.
A cápsula fechou.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
Então, o ar vibrou.
Linhas de luz começaram a se desenhar no vidro interno, formando padrões impossíveis de ler completamente à distância. Alguns pareciam círculos quebrados. Outros, ramificações como raízes. Outros ainda… nada que fizesse sentido imediato.
Quando a cápsula abriu, o aluno saiu em silêncio.
O rosto pálido.
Um funcionário da Academia entregou um papel dobrado.
E o processo continuou.
Aluno após aluno.
Até que finalmente…
— Vance Morren.
Ele sentiu o peso do nome como se fosse mais sério do que antes.
Blaidd deu um leve toque no ombro dele.
— Se der errado, pelo menos não é público — murmurou.
— Isso não ajuda — respondeu Vance.
A porta se fechou atrás dele com um som curto, metálico, e imediatamente o mundo pareceu perder qualquer tipo de contorno. Não havia mais vozes do lado de fora, nem ecos distantes do salão — só um silêncio tão uniforme que deixava até a respiração dele estranha, como se o ar dentro da cápsula tivesse sido separado do resto da Academia.
Vance ficou parado, esperando algum tipo de reação. Um brilho, uma vibração, qualquer sinal de que algo estava acontecendo. Mas a escuridão permaneceu exatamente como estava, lisa e imóvel, sem pontos de referência, sem profundidade, sem resposta. Era o tipo de vazio que não parecia ativo nem passivo — apenas indiferente.
Ele tentou sentir o Fluxor como tinha sido ensinado, buscando aquela sensação interna que os outros descreviam durante os testes. Mas, em vez de um retorno, encontrou algo que parecia… ausência. Não uma falha clara, nem um bloqueio visível. Era mais simples e mais desconfortável do que isso: como se, ao olhar para dentro, não houvesse nada para ser observado.
O tempo passou sem que ele conseguisse medir quanto.
Nenhuma luz surgiu.
Nenhuma linha se formou.
Nenhuma pressão mudou.
A cápsula permanecia imóvel, como se tivesse sido ativada e imediatamente esquecido dele.
Vance franziu levemente o cenho, quase esperando que aquilo fosse algum tipo de atraso do sistema, um erro pequeno que logo se corrigiria. Mas não havia correção vindo. Não havia tentativa. Apenas o mesmo vazio constante.
Foi só isso.
Silêncio e escuridão.
E a ausência completa de qualquer caminho se formando diante dele.
A porta da cápsula se abriu com a mesma precisão fria de sempre. O som metálico ecoou de forma breve, quase educada demais para o que tinha acabado de acontecer, e Vance deu um passo para fora sem pressa, embora não houvesse realmente uma escolha consciente nisso. O salão o recebeu de volta sem mudança aparente.
Ao redor, a Academia continuava. Chamadas eram feitas em sequência, máquinas eram reajustadas, nomes respondiam ao som da prancheta de Marcus Mori. Mas, para Vance, tudo parecia acontecer um pouco mais longe do que deveria. As vozes não chegavam inteiras, os movimentos não pareciam totalmente conectados entre si, e até mesmo os olhares que passavam por ele tinham uma neutralidade estranha, como se algo já tivesse sido decidido a respeito dele sem precisar de confirmação adicional. Não era rejeição aberta. Era mais parecido com um arquivamento silencioso.
Um funcionário se aproximou.
Não havia hesitação nos passos, nem qualquer traço de curiosidade no rosto. Ele apenas parou diante de Vance no tempo exato necessário para cumprir o protocolo, segurando um papel dobrado entre os dedos. Sem dizer nada, apenas estendeu a folha.
Vance pegou.
As linhas impressas eram organizadas, limpas, objetivas. Não havia explicação, nem contexto, nem tentativa de suavizar o que estava ali.
Físico: —
Tamanho de Fluxor: —
Densidade: —
Capacidade: —
Caminho: —

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