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    O Incidente Kümmel – Parte I


    DOZE ANOS SE PASSARAM — ele era apenas um jovem — desde que tinha testemunhado uma coroação. Na época, ele era apenas mais um aluno da Escola Militar Imperial, onde se matriculara sob o nome de Reinhard von Müsel. Encostado à parede do grandioso salão de recepções, a cerca de noventa metros de distância, mal conseguira distinguir o rosto daquele que estava sendo entronizado. Levaria quatro mil dias para reduzir essa distância a zero.

    “Por cada segundo que aquele pirralho loiro continua respirando, ele suga uma tonelada de sangue. Como um vampiro, ele nunca está satisfeito.”

    Esses eram os sentimentos daqueles que o odiavam. Ele havia passado a aceitar até mesmo as críticas mais severas com um silêncio digno. Por mais exagerados que fossem, tais comentários negativos tinham fundamento em certas verdades. Ao exercer seu poder  em meio aos horrores da guerra, Reinhard havia perdido muitos aliados, condenando ao esquecimento centenas de vezes mais inimigos ao longo do caminho.

    Seus súditos ergueram os braços e levantaram bem alto as vozes. 

    “Viva o Imperador Reinhard!”

    “Viva o Novo Império Galáctico!”

    Era 22 de junho de 799 da ES, CI ano 490 e o primeiro ano do Novo Calendário Imperial. Apenas um minuto antes, ele havia recebido uma coroa dourada sobre seus cabelos dourados para se tornar o Imperador fundador da Dinastia Lohengramm.

    Um monarca de vinte e três anos. Sua ascensão ao trono não se deveu de forma alguma à providência. Ele conquistou a posição e toda a autoridade que a acompanhava graças ao seu próprio poder engenhoso. Há quase cinco séculos, os descendentes de Rudolf, o Grande, fundador da Dinastia Goldenbaum, que haviam usurpado a Federação Galáctica de Estados e reivindicado o trono, foram expulsos após seu longo e insensato monopólio do poder. E foram necessárias trinta e oito gerações, ou 490 anos, para que a usurpação fosse retribuída com usurpação. Ninguém antes de Reinhard havia sido capaz de mudar a história dessa maneira. Era como se as estrelas tivessem exigido um alinhamento perfeito para dar origem à sua genialidade.

    Reinhard levantou-se de seu trono e respondeu ao júbilo de seus muitos súditos com um simples aceno de mão. Seus gestos incrivelmente naturais pareciam seguir uma melodia de refinamento que somente ele podia ouvir. Mas, embora sua elegância, juntamente com seus talentos comparáveis na política e na guerra, fosse insuperável em sua época, era a impressão daqueles olhos azul-gelo, enquanto examinavam a multidão, que os presentes mais recordariam. Mesmo aqueles entre seus súditos menos propensos a voos de imaginação consideravam aqueles olhos como joias do azul mais puro, forjadas em chamas ultra-quentes e depois congeladas, prontas para destruir toda a criação caso mesmo um lampejo do poder inimaginável nelas contido rompesse seu confinamento.

    Os primeiros a serem refletidos naqueles olhos foram seus oficiais militares imperiais de mais alto escalão, na primeira fila. Todos estavam vestidos para a ocasião com suas melhores roupas, uniformes pretos com detalhes em prata; eram homens jovens não muito diferentes do Imperador, homens no auge de suas vidas, soldados notórios que haviam ajudado valentemente na ascensão de seu jovem senhor.

    O Marechal Imperial Paul von Oberstein tinha trinta e oito anos. Seu cabelo meio branco fazia com que parecesse mais velho do que era. Seus dois olhos artificiais estavam conectados a um computador óptico e emitiam um brilho que nem sempre era fácil de descrever. Conhecido como um estrategista frio e perspicaz, ele havia conseguido conquistar um espaço à sombra da supremacia de Reinhard. Seja valorizado ou incompreendido, ele não via necessidade de se explicar. Ninguém entre seus colegas ou subordinados tinha antipatia por ele. Nem ninguém o desprezava, pois ninguém duvidava de suas conquistas e habilidades. Ele nunca foi do tipo que tratava seu senhor com condescendência ou media palavras por interesse próprio. No mínimo, possuía um senso de reverência que lhe servia bem em todas as situações. Ele se esforçava genuinamente para tratar todos com cortesia. Na nova dinastia, ele fora nomeado Secretário de Defesa, servindo também em um cargo ministerial como delegado militar oficial.

    O Marechal Imperial Wolfgang Mittermeier, aquele de cabelos rebeldes cor de mel e olhos cinzentos e vivazes, tinha trinta e um anos. Se fosse preciso definir, poder-se-ia dizer que era de estatura baixa, mas possuía o físico tonificado e bem proporcionado de um ginasta e dava a impressão de ser igualmente ágil. Conhecido em todo o exército pelo seu outro nome, o “Lobo da Tempestade”, era incomparável em termos de rapidez tática. Segundo todos os relatos, Mittermeier era o general mais corajoso da Marinha Imperial Galáctica e, para provar isso, havia acumulado feitos militares significativos durante a Batalha de Amritsar, três anos antes (quando entrou pela primeira vez sob o comando direto de Reinhard), a Guerra de Lippstadt, a ocupação de Phezzan, a Batalha de Rantemario e a captura do sistema estelar de Bharat. Apenas o falecido Siegfried Kircheis e, dentre aqueles que ainda estavam com eles, Oskar von Reuentahl possuíam históricos comparáveis.

    O próprio Von Reuentahl tinha trinta e dois anos, um jovem oficial alto, de cabelos castanhos escuros e traços elegantes. Mas certamente seus olhos heterocromáticos — o direito preto, o esquerdo azul — eram o mais impressionante desses traços. Junto com Mittermeier, ele era conhecido como um dos “Bastiões Gêmeos” da Marinha Imperial, um homem de capacidades ofensivas e defensivas excepcionais. No entanto, quando se tratava de vencer sem lutar, ele era um homem que pensava fora dos padrões militares. 

    Certa vez, ele recapturou a Fortaleza de Iserlohn depois que ela foi tomada pelo inimigo jurado do império, a Aliança dos Planetas Livres, e, junto com Mittermeier, subjugou a capital da Aliança, Heinessen. Essas eram apenas duas de suas muitas conquistas militares esplêndidas. Mittermeier era seu amigo há dez anos. E, no entanto, enquanto o “Lobo da Tempestade” era um bom pai de família, von Reuentahl era um notório mulherengo. Na nova dinastia, como Secretário-Geral do Quartel-General do Comando Supremo, ele supervisionava toda a Marinha Imperial como representante do Imperador e trabalhava em estreita colaboração com o próprio Imperador durante expedições oficiais.

    Além desse formidável trio, que ficou conhecido como os “Três Chefes Imperiais”, havia o Almirante Sênior Neidhart “Muralha de Ferro” Müller, elogiado pelo Marechal Yang Wen-li, da Aliança dos Planetas Livres, como “um grande general”. Havia também o Almirante Sênior Ernest Mecklinger, de trinta e seis anos, que além de militar era renomado como poeta e aquarelista; o Almirante Sênior Ulrich Kessler, de trinta e sete anos, Comissário da Polícia Militar e Comandante das Defesas da Capital; o Almirante Sênior August Samuel Wahlen; e o Almirante Sênior Fritz Josef Wittenfeld, de trinta e dois anos, um general condecorado e Comandante da Frota Schwarz Lanzenreiter.

    Entre esses viajantes estelares, abrindo caminho por entre o vaivém dos homens, encontrava-se uma única jovem: Hildegard, também chamada de Hilda, filha do Conde Franz von Mariendorf, que agora era Secretário de Estado do novo regime. Referir-se aos dois como “Fraulein Mariendorf e seu pai”, como faziam os heróis de longa data, parecia bastante adequado. Essa mulher de vinte e dois anos, que mantinha seus cabelos loiros escuros curtos e se vestia quase da mesma forma que seus colegas homens, poderia facilmente ter sido confundida com um jovem atraente e vivaz, não fosse pela maquiagem leve e pelo lenço laranja que aparecia por baixo da gola. Ela trabalhava como Secretária Imperial-Chefe do Imperador Reinhard e era tratada como uma capitã pelos militares. Ela nunca havia comandado um único soldado, mas, no que dizia respeito a Mittermeier, ela tinha coragem suficiente para comandar uma frota inteira. Mesmo enquanto Reinhard travava uma dura batalha contra Yang Wen-li no sistema estelar Vermillion, ela havia encontrado uma maneira de salvá-lo. Sozinha, Hilda abriu caminho para o sucesso ao propor a captura da capital da Aliança, Heinessen.

    Comparados às suas realizações ilustres, a maioria dos funcionários civis carecia de brilho diante do esplendor do passado, mas agora que Reinhard havia assumido o trono e conquistado o domínio total sobre o Domínio de Phezzan e a submissão da Aliança dos Planetas Livres, a hora da mudança havia chegado. Sob o jovem imperador e seu regime, a ortodoxia foi destruída, e seus progenitores garantiram que a nova ordem estabelecida em seu lugar fosse digna de lenda. O futuro os chamava.

    O Secretário de Estado, Conde Franz von Mariendorf, sentiu apenas uma satisfação modesta à medida que a cerimônia se transformava discretamente em uma festa. Embora a cerimônia refletisse a extravagância aparentemente institucionalizada e as formalidades vazias da antiga dinastia — isto é, a dinastia Goldenbaum —, nada disso era do seu agrado, apesar de ser de suas atribuições, como Secretário de Estado, supervisionar cerimônias e festivais de importância nacional. Ele queria que todas as festas e exibições formais fossem tão simples, mas completas, quanto possível.

    Havia várias razões pelas quais o Imperador deveria vê-lo com bons olhos. Uma delas era que, sendo o homem frugal que era, ele não havia feito a cerimônia mais luxuosa do que o necessário. E embora alguns falassem mal dele pelas costas, acusando-o de fingir, a maioria dos imperadores da antiga dinastia não havia respeitado os limites do proscênio.

    “Você deve estar cansado, pai”, disse uma voz suave.

    O Conde von Mariendorf virou-se e viu ali a única pessoa que poderia chamá-lo de pai. Ela lhe ofereceu uma taça de vinho.

    “De forma alguma, Hilda, estou bem. Embora, a este ritmo, com certeza vou dormir tranquilo esta noite.”

    O Conde von Mariendorf agradeceu e aceitou a taça de vinho. Brindou com a filha, apreciando o som cristalino, e saboreou lentamente o néctar carmesim na língua. 

    “Uma excelente safra. Do ano 410, eu diria.”

    Hilda tinha pouco interesse em detalhes tão inúteis e interrompeu o pai antes que ele começasse a dar-lhe uma palestra sobre os méritos do bom vinho. Hilda sempre fora indiferente aos refinamentos culturais sobre os quais uma filha de nobre deveria ter conhecimento — não apenas no que dizia respeito ao vinho, mas também a pedras preciosas e corridas de cavalos, flores e alta costura. No que lhe dizia respeito, sabendo que já havia especialistas nos assuntos de vinho e pedras preciosas, ela achava melhor deixar tais questões para os mais qualificados e saber em quais especialistas poderia confiar quando seu conhecimento fosse necessário. Ela sabia disso desde que era uma menina de menos de dez anos. Hilda era destacada por ser uma moleca e era uma pária social entre as outras filhas da nobreza com quem às vezes interagia. Em resposta às preocupações de seu pai, ela declarou com elegância melodramática que não se importava em ser feminina, preferindo, em vez disso, ler livros e passear pelos campos. Poderia-se dizer que seu atual status de secretária-chefe imperial era o ápice dessas tendências da infância. De qualquer forma, ela parecia ter nascido para ocupar seu cargo atual.

    “O que me lembra… Heinrich. Ele está com a saúde debilitada, como você sabe e não pôde comparecer à cerimônia. Mas ele esperava que Sua Majestade pudesse honrá-lo com uma visita, se possível. O que você acha? Você estaria disposta a perguntar a Sua Majestade em meu nome?”

    Ao ouvir o nome de seu primo frágil, chefe da família do Barão von Kümmel, uma leve melancolia tomou conta dos olhos animados de Hilda. Ele já havia expressado sua inveja de Reinhard. Mas não eram as habilidades de Reinhard que ele tanto desejava; era sua saúde. Ao ouvi-lo dizer isso, Hilda hesitou em repreendê-lo por um comentário tão imodesto, como normalmente teria feito. Ela conseguia compreender os sentimentos de Heinrich, a quem passara a considerar como um irmão mais novo, mas — e talvez fosse cruel dizer isso — mesmo que ele tivesse uma saúde robusta, não necessariamente teria sido capaz de realizar tanto quanto Reinhard. 

    Heinrich havia ultrapassado os limites de suas habilidades e de seu corpo há muito tempo. E assim, sem pavio para queimar, sua chama interior se transformara em um mero lampejo ao longo dos anos. Era natural que ele amaldiçoasse sua própria enfermidade e sentisse inveja da boa saúde dos outros.

    “Claro”, respondeu Hilda. “Não posso garantir nada, mas se isso significa tanto para Heinrich, vou ver o que posso fazer.”

    Tanto Hilda quanto seu pai sabiam que Heinrich não tinha muito tempo de vida. E mesmo que fosse um tanto egoísta da parte dele fazer tal pedido, quem eram eles para recusá-lo?

    E assim, foi plantada a semente para o Incidente de Kümmel, que chamaria a atenção de todos logo após a coroação do novo imperador.

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