Capítulo 207 - Utilidade
O som do rio foi ficando para trás aos poucos, sendo aos poucos substituído por algo mais urbano — vozes, passos, uma música distante, o eco irregular de uma cidade que ainda se recusava a dormir. Daurlúcia voltava a existir ao redor deles, mas não da mesma forma. Havia uma distância estranha entre o grupo e tudo aquilo, como se ainda estivessem presos nas docas.
Niko não olhava para nada em específico enquanto caminhava. O foco estava sempre um pouco à frente, um ponto inexistente que só servia para manter o movimento, nada além disso. Ele já tinha feito tudo o que podia nas docas, não fazia sentido revisitar aquilo. Mas também não fazia sentido ignorar completamente as informações que recebeu lá.
O problema não era o que eles descobriram. Era a informação que destruíram sem nem mesmo perceber. O mesmo pensamento de antes voltou com força total. Giuseppe. O despacho. O sistema inteiro dependendo de uma única pessoa. Uma única pessoa que não poderia fornecer qualquer tipo de ajuda.
Aquilo era… ineficiente. Uma onda de irritação veio antes da conclusão se fechar completamente. Não era explosiva, nem visível — era mais densa e acumulada. Azar. Tinha sido puro azar acertar exatamente o ponto que sustentava o sistema inteiro. Um único elemento crítico, removido antes mesmo de se parecer útil.
Ele travou o maxilar por um instante. Mas a raiva não passou ali. A imagem de Gwen surgiu logo depois, junto com aquela confiança absurda na própria sorte, quase irritante — e ainda assim, consistente. Ele se lembrou de todas as coincidências que aconteceram hoje.
Niko soltou a tensão devagar, redirecionando o raciocínio. Se havia algo ali que ele não controlava, então não valia a pena insistir. Ele decidiu confiar naquilo — que se assemelhava a uma promessa em sua mente — e seguir.
Ele soltou um pequeno sopro pelo nariz, quase imperceptível, enquanto desviava de um grupo de pessoas atravessando a rua à frente. O grupo ria, segurando copos de cerveja. Havia muita luz, muito barulho. O contraste era incômodo. Nada daquilo combinava com o que ainda estava em andamento.
A conclusão era mais do que óbvia, mesmo assim, Niko precisava revisá-la. Se o transporte dependia de uma autorização direta, então havia uma limitação clara. Essa autorização dependia do Giuseppe. Sem Giuseppe, não havia despacho. Sem despacho, não havia saída da cidade. Na prática, isso não resolvia nada. Mas redefinia o espaço, opções e prioridades. Não era completamente inútil.
— Então o dríade ainda tá aqui. — disse, sem olhar para trás.
A frase não foi exatamente direcionada a alguém. Mais uma conclusão em voz alta do que uma pergunta. Ainda assim, alguém respondeu.
— Urgh, sim né? — disse Gwen, logo atrás, relativamente confusa. — Foi o que a gente concluiu lá atrás.
Niko virou o olhar para a garota, depois para o nada. Precisava pensar. O garoto ainda estava na cidade. Já tinham a confirmação exata disso — o mais esperado inclusive. Isso transformava o problema em outra coisa. Agora não era mais sobre perseguir algo em movimento. Era sobre encontrar algo escondido.
O grupo continuou andando, agora entrando em uma rua mais movimentada. Barracas improvisadas ocupavam parte da calçada, lanternas penduradas em cordas criavam um caminho irregular de luz amarelada, e o cheiro de comida quente começava a substituir o gosto metálico que ainda estava no fundo da garganta.
Niko ignorou quase tudo. O pensamento já estava alguns passos à frente de novo. Se o dríade não saiu, então o plano falhou. Se o plano falhou, alguém vai corrigir. E quando corrigirem, vai acontecer rápido. Tinham que ser mais rápidos então.
— A gente precisa encontrar quem operava o trem. — disse.
Agora a frase veio mais direta. Brigitte inclinou levemente a cabeça ao lado dele.
— Quer dizer, os operários?
— Sim. A gente precisa encontrar todos. — respondeu Niko. — Maquinista, equipe, qualquer um envolvido.
— Tá, mas pra quê? — perguntou Gabe.
— Pra descobrir quem vai assumir o resto da operação agora. — respondeu Gwen, antes que Niko precisasse. — Se o envio dos sapientes deu errado, os operários do trem vão querer se desfazer dos sapientes rapidinhos.
Gwen estreitou o olhar, mantendo um semblante mais sério.
— E eles podem fazer isso vendendo, como aconteceria antes, ou… — a esotérica se virou para o albocerno. seu rosto ainda com o restante dos ferimentos. Em seguida ergueu a mão, estendeu o polegar e passou-o na garganta. — Espero que sigam com a primeira opção.
Niko sentiu o ar travar no peito por um segundo. O gesto de Gwen fez o cenário ganhar contornos muito mais sombrios. Suas íris se estreitaram, demonstrando sua ansiedade. Ele não esperava que o descarte fosse ser tão… definitivo. Quando finalmente soltou o ar, foi de forma pesada, carregada por uma urgência renovada.
— Então… quer dizer que a gente vai ter que voltar para o terminal ferroviário? — perguntou Brigitte, tentando coçar um ponto impossível de alcançar no seu gesso.
Niko balançou a cabeça logo após ela terminar.
— Não.
A resposta veio imediata, sem espaço para dúvida, como se a ideia nem tivesse sido considerada de verdade. Niko nem desacelerou o passo enquanto falava, mas algo na forma como disse aquilo fez o grupo acompanhar sem questionar de imediato.
— Voltar lá agora é inútil.
A rua à frente estreitava levemente, as lanternas ficando mais espaçadas e o fluxo de pessoas diminuindo conforme se afastavam da parte mais ativa do festival.
— A gente já foi lá uma vez, ir uma segunda vez seria mais perigoso nessa altura do campeonato. Afinal a gente não tem mais desculpas pra voltar. — continuou. — E se aquele pai de família tiver decidido expor a gente aí que vai ser realmente uma decisão horrível voltar pro terminal.
O grupo seguiu por mais alguns passos sem responder de imediato. O som da cidade ainda existia ao redor, mas mais distante agora, como se tivesse sido empurrado para trás junto com o rio. A lógica fazia sentido. Simples demais, até. E exatamente por isso, difícil de contestar.
— Eu não fui. — disse Tsugumi.
A frase entrou no meio do silêncio sem esforço, direta o suficiente para puxar a atenção de volta. Niko virou levemente o rosto na direção dela, sem parar de andar.
— No terminal. — continuou ela. — Nem eu, nem o Gabe, o Matteo ou o Jakob estivemos lá.
Uma pausa curta, só o suficiente para encaixar a ideia.
— Então eles não nós conhecem.
O raciocínio era simples. Limpo. Funcional. Ela levantou levemente a mão, como se estivesse apontando algo invisível ao redor.
— Além disso, a minha Alma funciona melhor em lugares assim. — disse. — Aposto que o terminal tá cheio de espaço pra se esconder.
O olhar dela permaneceu à frente, mas a intenção já estava clara.
— Eu entro. Ninguém me vê. Vejo o que precisa ver e saio. Simples assim.
Silêncio. Ela não tentou vender a ideia. Só apresentou.
— Então… — completou, finalmente virando um pouco o rosto para o grupo — a gente pode ir pro terminal?

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