Capítulo 19 — Aliança Forçada
Do outro lado da ilha, árvores começam a tremer, e pássaros voam aos montes, assustados. Um som se amplifica, como se passos pesados fossem dados e, na verdade, são pisadas fortes contra o solo.
Uma grande mão encosta em uma árvore, nos revelando um gigante com pouco mais de quatro metros de altura, cabelos bagunçados, músculos à mostra, uma tanga tampando a virilha e um capacete protegendo a cabeça.
No ombro do gigante, uma pequenina garota está sentada, quase como um grão, entre os grandes músculos. Roupas leves a cobrem por completo, um par de asas finas enfeita suas costas, e um brilho pontilha ao redor dela, enquanto mexe alegremente as perninhas.
— Ruou! Vai mais rápido, vamos ficar para trás assim — diz a Fada, com voz manhosa.
— Estou indo o mais rápido que posso. Mas não sei bem por onde começar a procurar a Relíquia — afirma o gigante, falando devagar.
— Vou lá em cima para ver para onde devemos ir.
Ela voa rapidamente para cima das árvores. Com a mãozinha esticada na testa, observa os quatro cantos. Ao longe, vê poeira subir. Ela desce, pousando sobre o ombro do gigante.
— Vamos para lá — aponta, animada. — Tem uma movimentação, podemos achar uma pista.
— Está bom.
Os pesados passos retornam, mas uma rajada de vento atinge sua cabeça, como uma rocha arremessada. Ele coloca a mão na cabeça.
— Isso parece familiar.
— Você está bem? De onde veio isso? — pergunta Galeia, preocupada.
Saindo de trás das árvores, surge uma mulher de roupas largas, cabelos longos cor-de-rosa e batom destacado nos lábios. Ela coloca um dedo sobre a boca.
— Olha, se não é o gigante idiota e a fadinha metida. — A Feiticeira estala os dedos.
— Miranda! Por que atacou assim do nada? Covarde. — Galeia estica os braços e as pernas.
— Estamos na provação. Reduzir o número de competidores faz parte da prova.
— Riiiih! Esse seu jeito me irrita.
— Olha que fofo. Parece até um Gnomo.
— Não me insulte. Mamãe me falou para ficar longe dos Gnomos.
— Ei, não é essa a questão.
O gigante levanta os punhos.
— Se vamos lutar, vamos logo.
Do meio dos arbustos, uma dupla inusitada aparece: Chamina, uma garota sorridente, de cabelos vermelhos e olhar afiado. Ao seu lado, Deprey, um garoto de cabelos azuis e expressão depressiva.
— Olha só, estão em reunião e nem nos chamaram? — diz Chamina, piscando um de seus olhos.
— Irmã, isso não parece uma reunião — afirma Deprey, meio acuado.
— A dupla de imbecis chegou, não faz diferença. Vou derrubar todos. — Miranda levanta uma de suas pernas.
Ao pisar novamente, se move como se estivesse dançando.
— No ritmo de meus passos, o mundo obedece, com o levantar de minhas pernas, o vento endurece.
Estoca diversas vezes o ar com a ponta de seus pés. Espinhos de ar voam na direção de seus adversários. As árvores trincam e o solo é perfurado.
Deprey reage, protegendo a si e sua irmã com um bloqueio de gelo.
O gigante coloca a mão na frente da pequena fada, protegendo-a.
Chamina rapidamente se move, saltando rumo à feiticeira.
— Se é assim que quer jogar.
Punhos junto à cintura. Uma onda de calor envolve seus punhos. Socos consecutivos são desferidos. Miranda desvia por pouco, dando lugar ao solo queimado.
As duas se encaram.
Subitamente, Ruou aparece próximo às duas, com o soco armado. Seus punhos tocam o chão, provocando um estrondo descomunal. Ambas desviam, recuando para lados opostos.
— Tsi — Miranda estrala a língua. — Gigantes são lentos, mas, com essa fadinha o teletransportando, se tornam uma combinação perigosa.
Ruou persegue seus adversários. Seus socos derrubam árvores e mudam o ambiente, tornando a silenciosa floresta um caos de estrondos. A fada o teleporta constantemente, deixando essa batalha imprevisível.
Miranda cai na mira do soco.
— O giro constante fortalece o corpo e me mantém vigilante.
Rotaciona rapidamente no próprio eixo. Seu corpo brilha. O giro bloqueia o ataque. O recuo arremessa Ruou para trás, derrubando-o.
— Ruou, por que não usou ressonância? — A fada estica o corpo, brava.
— Ah! Esqueci.
— Esqueci o caramba. Levanta e leva isso a sério.
Os gêmeos observam e se preparam para atacar.
— Irmã, estou sentindo um calafrio — diz Deprey.
— Você sempre está com calafrios, larga de frescura e vamos lutar. — Ela dá um leve tapa nas costas dele.
— Não, esse é diferente. — Ele se encolhe. — Coisa ruim vem aí.
O ar afunda. Todos sentem. Uma sede de sangue toma o ambiente.
— Isso é problema — afirma Miranda.
Um homem encapuzado se aproxima, andando calmamente. Todos voltam sua atenção para ele.
Por puro instinto, Ruou ataca.
Seus punhos crescem, travam e se endurecem. O soco se aproxima da nova ameaça, que habilmente desvia.
Em sua mão, aparece um chicote translúcido, que se enrola no pescoço do gigante. Com um simples puxão, ele é derrubado.
— Uma besta furiosa, seria um bom pet — diz o encapuzado.
No ponto cego, Chamina se aproxima. Com as palmas das mãos abertas, prepara-se para golpear.
O calor envolve as palmas de suas mãos. Assim que se posiciona para uni-las, o encapuzado envolve o punho dela com o chicote e a levanta no ar.
A descida é rápida, fazendo-a se chocar contra o chão.
— Irmã! — grita Deprey.
Posicionando as mãos, cristais de gelo se formam no ar.
São arremessados, mas em vão. O encapuzado chicoteia o ar em todas as direções, destruindo todos os cristais de gelo.
Galeia teleporta os caídos para perto de Miranda.
— Ei! Feiticeira, teremos que lutar juntos.
— Lutar? O que eu queria era escapar daqui, mas esse cara não seria fácil.
Deprey se aproxima e vê como está sua irmã. Ajuda-a a levantar.
— Não… quero colaborar… com você, mas qual é o plano? — diz Chamina, com dificuldade.
— Fadinha, quantos teleportes ainda consegue usar? — pergunta Miranda.
— Tenho energia sobrando apenas para mais um.
— Ruou, consegue ficar de pé?
O gigante se levanta, passando a mão no pescoço.
— Muito bem, o plano é o seguinte…
Curiosamente, o encapuzado aguarda que eles discutam o plano. Por debaixo de seu capuz, seu sorriso é nítido.
Posicionados e prontos para o combate, começam a se mover.
— Me movo como pêndulo, em balançar sem corda seu mundo fica trêmulo.
Miranda salta para a frente do encapuzado e, com as pontas dos pés, se move de um lado para o outro como se dançasse balé.
Na visão do encapuzado, tudo ao seu redor parece se mover. Para se proteger, chicoteia as direções ao redor, esperando aquele efeito passar.
Um grande punho vem rápido em sua direção. Ainda desorientado, por instinto, estica seu chicote e o segura com as duas mãos, evitando ser atingido diretamente, mas é lançado ao ar.
Mais à frente, os gêmeos aguardavam esse momento, com as mãos dadas e estendidas à frente, calor e frio se mesclam.
À volta do encapuzado, o ar se move violentamente, rotacionando em alta velocidade. Preso dentro daquelas lâminas de vento, ele se empolga, recuperando os sentidos.
Começa a rotacionar seu chicote para o lado oposto do vento, anulando aquele furacão por completo.
De volta ao chão, ele olha ao redor. O grupo não estava mais lá. Balança a cabeça, rindo.
— Divertido. Quero muito caçá-los. Mas para a sorte deles, no momento minha presa é outra.

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