Capítulo 122 - "Grilhões I"
A mata não se abria.
Cada passo exigia atenção. O chão era macio e úmido demais, coberto por raízes expostas e folhas grossas que abafavam qualquer som. O ar era pesado, carregado do cheiro de terra viva e decomposição lenta. Não havia vento forte ali dentro, apenas a respiração, o chacoalhar distante da copa e os sons constantes de criaturas invisíveis.
Naira avançava à frente, caminhando com cuidado, atenta a cada passo.
Thamir vinha logo atrás: alerta demais para parecer despreocupado, relaxado demais para quem realmente compreendia o perigo daquele lugar. Seus olhos percorriam as copas altas, onde a luz do sol mal conseguia atravessar.
— Eles já sabem que chegamos — murmurou, sem diminuir o passo.
Naira assentiu.
— Desde o segundo desvio.
Ela parou por um instante e tocou o tronco de uma árvore.
— Não avance mais — disse, erguendo a voz apenas o suficiente.
O silêncio respondeu primeiro.
Então o ar mudou.
A vegetação à frente se reorganizou. Não se abriu de forma brusca. Folhas entrelaçadas se soltaram, cipós se afastaram como dedos cautelosos, revelando um caminho que não existia segundos antes.
Duas figuras emergiram da mata.
Rumbra’th.
Altos, de pele morena marcada por veios esverdeados que pulsavam sob a luz difusa. Os olhos eram atentos, antigos. Não empunhavam armas visíveis, mas a floresta inteira parecia tensa ao redor deles.
Um dos batedores inclinou a cabeça ao reconhecer Naira.
— Sangue Livre retorna — disse, em tom grave.
Ela levou a mão ao peito, num gesto antigo.
— Não sozinha.
O olhar do batedor deslizou até Thamir. Houve um instante de avaliação. A energia ao redor dele era diferente… Instável, rápida demais.
— O trovão caminha ao seu lado? — concluiu o Rumbrath.
— Um aliado — respondeu Naira.
O caminho se fechou atrás deles assim que avançaram.
Dentro, o refúgio não se revelava de imediato. Primeiro vinham as raízes enormes, entrelaçadas como colunas naturais. Depois, a percepção de espaço escondido: clareiras invisíveis do exterior, casas moldadas sob troncos gigantes, entradas orgânicas que se confundiam com o terreno.
As árvores mais antigas inclinavam seus troncos levemente para dentro, formando abóbadas naturais que mantinham a umidade estável e o calor contido. A copa fechada filtrava a luz em tons de verde profundo, criando um crepúsculo permanente, confortável para olhos acostumados à sombra.
Entre as raízes expostas, a terra era fofa, escura, constantemente remexida por pequenos animais. Havia trilhas quase invisíveis, não abertas por pés humanos, mas por hábito. Caminhos traçados por gerações de movimentos silenciosos.
A maioria dos Rumbrath se misturava a isso sem distinção.
Alguns permaneciam imóveis por longos períodos, de costas apoiadas nos troncos, olhos fechados. A respiração lenta fazia com que folhas presas à casca de seus corpos subissem e descessem num ritmo quase imperceptível. À distância, confundiam-se completamente com o ambiente.
Aves pousavam neles sem receio.
Pequenas espécies de plumagem opaca se acomodavam nos galhos que brotavam de ombros e antebraços dos mais velhos, usando-os como poleiros seguros acima do solo. Outras se aninhavam em cavidades naturais formadas pela herança, espaços onde a casca se afastava da carne viva, aquecidos pelo calor do corpo.
Nenhum Rumbra’th as afastava.
Pequenos mamíferos circulavam livremente.
Criaturas de patas curtas e pelagem espessa atravessavam o refúgio sem pressa, subindo pelas pernas imóveis dos Rumbra’th como se fossem extensões do chão. Alguns se escondiam sob placas de casca quando algo os assustava; outros se enroscavam em raízes expostas, aquecendo-se.
Thamir observou um deles, um animal pequeno, de focinho fino, escalar o braço de um Rumbrath antigo e se acomodar no vão entre dois galhos que nasciam do ombro.
O Rumbrath não se moveu.
Nem precisava.
As casas, se podiam ser chamadas assim, não tinham portas visíveis. Eram cavidades naturais ampliadas com cuidado, protegidas por raízes grossas que funcionavam como paredes vivas. Em alguns pontos, musgos luminosos cresciam em padrões deliberados, oferecendo luz suave sem romper a penumbra.
Água escorria lentamente pelas cascas das árvores maiores, guiada por sulcos naturais até pequenos reservatórios formados entre raízes. Ali, aves bebiam lado a lado com crianças Rumbrath, sem medo.
O som do refúgio era baixo, contínuo.
Não havia conversa alta. Não havia risos soltos. Apenas murmúrios profundos, o ranger ocasional da madeira viva, o bater de asas, o farfalhar constante da copa.
Quando Naira avançava, a fauna se afastava apenas o necessário.
Ao passar por um grupo de Rumbrath jovens, que ainda não apresentavam os traços da herança, Thamir notou que moldavam pequenas figuras de terra úmida com as mãos. Um fez um pássaro de barro; outro, uma árvore em miniatura.
Quando a presença de Naira foi finalmente percebida por todos, o refúgio respondeu como um corpo único.
Veios de seiva brilharam com mais intensidade sob a casca das árvores. As aves se aquietaram.
Nada parecia construído.
Thamir diminuiu o passo.
Havia Rumbrath por todos os lados. Mais do que ele esperava… e ainda assim, menos do que imaginara.
Contou instintivamente.
Não mais que trezentos.
E isso sendo generoso.
A maioria era antiga: corpos largos, marcados pela herança que tomava forma com o tempo, pés enraizados no solo, galhos surgindo dos ombros, casca engrossando a pele. As crianças eram poucas. Os jovens, menos ainda. Talvez quarenta. Talvez menos.
— Eles estão desaparecendo — murmurou, sem perceber que falara em voz alta.
Naira não respondeu.
Ela já sabia.
A presença dela começou a se espalhar antes mesmo que alguém anunciasse sua chegada. Murmúrios surgiram, depois passos. Rumbrath antigos deixaram seus abrigos, fazendo parecer que árvores inteiras haviam ganhado vida.
Quando a reconheceram, o efeito foi imediato.
Não houve gritos. Não houve correria.
Apenas reverência. E alívio.
Mãos tocaram troncos. Veios de seiva pulsaram sob a casca das árvores. O próprio refúgio pareceu respirar mais fundo.
— Ela voltou.
— Sangue Livre voltou.
— Rompe correntes…
Naira parou no centro da maior clareira.
Por um instante, apenas observou.
Corpos marcados. Olhares atentos.
Ela inclinou a cabeça em direção à pequena multidão que se formava.
— Eu voltei.
Foi o suficiente.
Eles se abriram para ela.
Um dos mais antigos aproximou-se, apoiando-se em raízes grossas como degraus naturais.
— Vert a espera — disse. — A Árvore-Mãe está desperta.
Naira respirou fundo.
— Então é hora.
Ela avançou, e Thamir a seguiu, entrando sob um emaranhado de raízes que sustentava o enorme tronco da árvore central.
O interior era amplo, sustentado por colunas vivas que pulsavam lentamente. A luz vinha de fissuras naturais, refletida por veios luminosos sob a casca.
No centro, aguardava o líder do refúgio.
À primeira vista, parecia apenas uma árvore curvada. Antiga. Imóvel.
Então ela se ergueu.
A casca formava todo o corpo, coberta por vinhas e musgo. Pernas grossas fincaram-se no solo, fazendo o ambiente estremecer levemente.
Seus olhos encontraram os de Naira.
— Sangue Livre, sua presença é bem-vinda — disse ele, com a voz grave como madeira se chocando. — Vejo que trouxe uma besta dos raios. Pretende trazer a tempestade?
— Contra nossos inimigos — respondeu Naira. — Mas não o tema, Vert. O Filho do Trovão é um aliado. Um dos antigos.
— Um dos Originais?
— Exatamente.
Vert deu um passo em direção a Thamir, fazendo o ambiente tremer a cada movimento. Então ajoelhou-se, ficando cara a cara com ele, e estendeu a mão.
— Seja bem-vindo, Filho do Trovão.
— Obrigado, cascudo — Thamir aceitou o aperto de mão. — Então, vamos direto ao ponto? Tenho que voltar rápido.
— Thamir — disse Naira, pousando a mão em seu ombro. — Tenha respeito. Foi ele quem sustentou essa guerra contra Elandor e protegeu todos os descendentes que você viu lá fora.
Vert inclinou levemente a cabeça, emitindo um som pesado e ritmado.
— Gostei de você, Filho do Trovão.
Thamir piscou.
— Espera… isso foi uma risada?
— Foi — confirmou Naira.
Ela então voltou-se ao líder.
— Vert, isole o local. Precisamos planejar o próximo ataque. Com esse maluco do meu lado, desta vez podemos causar danos reais a Elandor.
Do lado de fora, a floresta fechou-se outra vez.
E ninguém, além deles, saberia o que estava prestes a nascer ali.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.