Capítulo 158 - "Entre Ruínas".
A luz desapareceu devagar.
O som voltou antes da visão.
Primeiro o rio.
Depois pedra caindo.
Depois algo queimando ao longe.
Maelis tossiu sangue no chão da ponte enquanto tentava erguer o corpo entre os destroços.
A cabeça latejava.
A mana residual da esfera ainda vibrava no ar em ondas irregulares que faziam a pele formigar.
As pedras da ponte continuavam rangendo abaixo dos pés como se a estrutura inteira ainda estivesse decidindo se cairia ou não.
Fragmentos caíam no rio abaixo em intervalos irregulares.
A névoa começou a baixar lentamente.
E ela viu.
O centro da ponte havia desaparecido.
Uma cratera negra ocupava parte da estrutura, as bordas derretidas em linhas tortas como se a pedra tivesse sido arrancada da realidade em vez de destruída. O calor ainda subia das bordas em ondas que distorciam o ar acima da cratera.
Aisha apareceu primeiro entre a fumaça.
De joelhos.
Ofegante.
Os olhos fixos alguns metros à frente.
Maelis seguiu o olhar.
Ian estava caído.
O corpo parcialmente humano outra vez — a transição havia acontecido sem que ninguém visse, como se a forma tivesse simplesmente cedido junto com a consciência. As quatro caudas haviam desaparecido. Parte das roupas havia virado cinzas. O braço esquerdo estava queimado até acima do cotovelo, a pele fendida em fissuras vermelhas que sangravam lentamente.
Imóvel.
Aisha tentou levantar.
As pernas falharam no primeiro impulso.
Ela tentou outra vez.
Conseguiu dar um passo.
Depois outro.
— Ian…?
A voz saiu fraca.
Nenhuma resposta.
Maelis sentiu algo apertar no estômago.
Ian não estava regenerando.
O corpo simplesmente permanecia parado.
Atrás delas, um domo irregular de gelo começou a desfazer pelas laterais — derretendo de cima para baixo em fios que desciam pela pedra e escorriam pelo chão em poças que o calor residual da esfera evaporava antes de chegarem à cratera.
Lysvallis caiu de joelhos no instante em que a estrutura cedeu.
A respiração saía curta.
O nariz sangrava.
Ela havia erguido o gelo no último segundo antes do impacto da esfera.
Dentro do domo, Elenys ainda pressionava o abdômen de Alexia com as duas mãos.
Sangue escorria entre os dedos.
Mana alaranjada piscava pelas feridas abertas enquanto Alexia forçava magia de cura no próprio corpo em pulsos que chegavam cada vez mais curtos e menos estáveis.
As mãos tremiam.
Mesmo assim ela afastou o braço de Elenys lentamente.
— Eu consigo.
A voz saiu falhando.
Alexia tentou sentar.
A dor atravessou o rosto dela imediatamente — não expressão controlada, a dor chegou antes que qualquer controle pudesse alcançá-la.
Elenys segurou o ombro antes que ela caísse outra vez.
— Você perdeu sangue demais.
— Me leva até ele.
Alexia olhou na direção de Ian.
Os olhos perderam força por um instante.
Depois ela puxou ar devagar e tentou levantar de novo.
Do outro lado da ponte, Aedin ainda estava de pé.
Respirando pesado.
O ombro destruído. Sangue descendo pelo braço em fio contínuo que havia ensopado a luva e escorria pela ponta dos dedos. Os dois magos restantes haviam recuado próximos dele. O usuário de Ordo estava ajoelhado alguns metros atrás, a respiração irregular, sustentando o que havia sobrado após a esfera.
Mas Aedin continuava olhando para Ian.
Sem aliviar a postura.
Como se ainda estivesse esperando Ian levantar outra vez.
Maelis estreitou os olhos.
Algo ainda parecia errado.
Ela puxou mana devagar apesar da dor e expandiu a percepção na direção de Aedin.
Analisando fluxo. Desgaste. Quanto ele ainda conseguiria lutar naquele estado.
A mana dele estava instável. Exausta. O circuito sobrecarregado pelo uso contínuo.
Mas não era isso.
Havia outra coisa misturada no fluxo — uma irregularidade que não vinha de cansaço ou ferimento, que não tinha a textura de mana própria nem de influência elemental.
Maelis focou mais.
E viu.
Fios finos de mana roxa escapavam entre os circuitos de Aedin como raízes atravessando carne viva — pulsando no ritmo da respiração dele, aumentando de intensidade cada vez que os olhos iam para Ian.
Aisha finalmente chegou até Ian.
Caiu de joelhos ao lado dele.
As mãos tremiam quando tocaram o peito queimado.
A respiração dela falhou.
— Ian…?
Nada.
O vento atravessou a ponte destruída carregando cinzas e fumaça entre os fios brancos espalhados pelo corpo dele. Frio. Parado. O tipo de parado que não é espera.
Atrás dela, pedra se moveu.
Aisha ergueu os olhos.
Elenys e Alexia estavam se aproximando — Alexia se movendo arrastando a perna esquerda, Elenys próxima o suficiente para segurar se o corpo cedesse de novo.
Aedin deu um passo.
Só um.
Os instintos de Aisha reagiram antes da mente.
A espada saiu da bainha num movimento bruto.
— Não chega perto.
A voz saiu quebrada. Baixa.
Aedin parou.
O rosto endurecido pelo cansaço e sangue.
— Ele já morreu.
— Cala a boca.
Aisha ficou de pé.
As pernas ainda falhando pelo impacto da esfera.
— O corpo dele está saturado de Ordo — disse Aedin. — Se sua curandeira injetar mana nele vai morrer também.
Aedin abriu um sorriso curto.
— Isso precisava terminar.
A espada tremia na mão de Aisha.
Não por medo.
Raiva.
— Olha em volta.
A voz saiu baixa primeiro.
Depois explodiu pela ponte inteira.
— OLHA O QUE VOCÊ FEZ!
Os dois magos ao lado de Aedin se prepararam imediatamente.
— EU VOU TE MATAR.
Maelis avançou na mesma hora.
Fogo surgiu ao redor dela antes mesmo dos magos terminarem a formação — não cone, não arco, massa densa que saiu para frente e para os lados ao mesmo tempo, varrendo a pedra da ponte em expansão que forçou os dois a recuarem ou erguerem defesa.
Um dos magos ergueu um muro de pedra.
Tarde.
As chamas atravessaram a defesa incompleta pela lateral e explodiram contra o ombro dele. O homem foi lançado contra o parapeito. A armadura fumegava. Ele não levantou imediatamente.
O segundo mago respondeu com lanças de fogo.
Maelis desviou a primeira.
A segunda abriu um corte na lateral do braço.
A terceira quase acertou Lysvallis antes de dissolver no ar.
Lys caiu de joelhos logo depois, a respiração saindo em pulsos curtos. O gelo ao redor dos dedos rachou e desfez. Ela estava ficando sem mana, a visão já começando a falhar sendo tomada por pontos pretos.
Do outro lado da ponte, Aedin avançou.
Aisha foi junto.
A espada encontrou a adaga no centro dos destroços.
O impacto percorreu os braços dela até os ombros.
Aedin ainda era fisicamente mais forte — mesmo naquele estado, mesmo com o sangue descendo por três ferimentos diferentes, a estrutura dele havia sido construída por décadas de combate real.
Ele empurrou.
Aisha deslizou meio metro.
A abertura que surgiu foi pequena.
Aedin entrou antes que fechasse.
O cotovelo acertou a costela dela com força que tirou o ar dos pulmões de uma vez. O segundo golpe veio antes que ela recuperasse a respiração — o cabo da adaga no ombro.
Aisha dobrou, ela sentiu o osso rachar com o impacto.
O sangue desceu pelo braço.
Alexia ergueu as mãos.
A mana alaranjada saiu em fio instável que percorreu a distância e chegou no ombro de Aisha com a estabilidade de algo que foi construído por decisão quando não havia mais sobra para decisão.
O corte começou a fechar.
O ar voltou para os pulmões.
Aisha se levantou.
Aedin avançou outra vez.
Os golpes vinham diferentes agora — não força bruta, técnica refinada de quatro décadas, cada movimento buscando o ângulo que o anterior havia criado. Como alguém tentando terminar tudo antes do próprio corpo parar de responder.
Aisha bloqueou o primeiro.
Desviou o segundo por pouco.
O terceiro abriu um corte no antebraço.
O quarto pegou a lateral do rosto.
Ela recuou dois passos.
Alexia agiu antes de Aisha parar de recuar.
A mana alaranjada chegou mais forte dessa vez — não por sobra, por decisão, queimando reserva que não existia mais para manter Aisha funcional por mais um golpe.
O corte no antebraço fechou.
O da face parou de aprofundar.
Aisha avançou.
A faca de Aedin veio pelo ângulo baixo.
Ela defletiu com a espada — o impulso a colocou fora do eixo — e Aedin usou o desequilíbrio para entrar pela lateral, o joelho acertando o flanco dela antes que ela recuperasse postura.
Aisha foi ao chão outra vez.
A pedra dura e fria sob as mãos.
Gelo surgiu sob os pés de Aedin no mesmo instante.
Lysvallis.
A superfície congelou num estalo que ecoou pela ponte.
Aedin perdeu meio segundo ajustando o equilíbrio.
Tempo suficiente.
Aisha se levantou e entrou na guarda antes que ele recuperasse completamente. A espada abriu um corte no flanco da armadura — fundo, o sangue saindo rápido pelo metal.
Elenys moveu a mão junto do golpe.
A pedra abaixo de Aedin subiu torta, desequilibrando o eixo no momento em que ele tentava recuar.
A espada de Aisha passou perto demais do pescoço.
Aedin recuou dois passos.
Respirando pesado agora.
O sangue escorria do ombro, abdômen e braço esquerdo em padrões que tornavam a armadura irrelevante.
Mas os olhos continuavam fixos nela.
A mana roxa pulsou pelos circuitos dele no instante em que o rosto endureceu.
Maelis viu.
Mesmo lutando. Mesmo com fogo atravessando a ponte em explosões constantes. Mesmo com o braço latejando do corte do segundo mago.
Ela viu.
O primeiro mago lançou pedras em rotação na direção dela.
Maelis destruiu as duas primeiras com fogo. A terceira passou raspando pelo rosto — o calor dela chegou antes da pedra, mas a pedra passou perto, abrindo um corte fino na têmpora.
O segundo mago aproveitou a abertura.
Lanças de pedra atravessaram o chão.
Maelis saltou para trás. As pontas destruíram a pedra onde ela havia estado um instante antes, estilhaços alcançando o tornozelo antes de ela encontrar posição nova.
Ela respondeu com uma explosão no centro deles.
Os dois magos bloquearam juntos. A ponte inteira tremeu — uma das pedras do parapeito lateral soltou e caiu no rio com o som que chegou dois segundos depois.
Mas Maelis não estava olhando para eles.
Os olhos continuavam voltando para Aedin.
Para a mana estranha… semelhante demais à do mago mental.
Para a forma como a mana do Andarilho aumentava de intensidade cada vez que o rosto dele endureceu com raiva ou dor.
Do outro lado da ponte, o usuário de Ordo havia se levantado.
Observava em silêncio.
Os olhos alternando entre Aedin — os ferimentos acumulando, os recuos se tornando mais frequentes — e Aisha.
Os cortes dela fechando e voltando.
Alexia falhou um passo atrás da linha de combate.
O joelho quase tocou a pedra antes de ela se endireitar.
A mana alaranjada havia ficado mais pálida.
Mas as mãos continuavam erguidas.
O corte mais recente de Aisha fechou.
O usuário de Ordo ficou parado mais um segundo.
Olhando para Alexia.
Para as mãos.
Para a mana chegando em Aisha entre os golpes com a regularidade de alguém que havia decidido que ia continuar até não poder mais.
Entendeu.
Elenys percebeu o olhar mudar.
Percebeu para onde os olhos foram.
Abriu a boca.
Tarde demais.
A mana ao redor do usuário de Ordo distorceu quando ele avançou diretamente em direção a Aisha.
Elenys reagiu.
A pedra abaixo do caminho dele começou a ceder.
Mas era uma distração.
Aedin moveu a mão.
A ponte explodiu abaixo dos pés de Alexia.
Não uma explosão larga — cirúrgica, concentrada, o chão cedendo em círculo de um metro exatamente onde ela estava apoiada.
Alexia perdeu o equilíbrio no instante em que a pedra afundou.
O corpo caiu entre os destroços.
A lança de pedra surgiu logo abaixo.
Controlada pelo mago de terra.
Elenys virou.
A mana de terra foi para a formação antes que completasse.
A rocha rachou.
Os fragmentos perderam forma.
Mas o impulso não perdeu.
O som que atravessou a ponte foi curto.
Seco.
Alexia caiu torta entre os destroços.
Imóvel.
Elenys chegou primeiro.
As mãos nos ferimentos.
Expandindo a mana para se proteger de outro ataque.
— Alexia!
A voz saiu sem o controle.
— ALEXIA!
…
Lysvallis congelou.
Aisha também.
Só por um segundo.
Só um.
Mas foi suficiente.
Aedin atravessou a abertura imediatamente.
A adaga veio reta no rosto de Aisha.
Ela desviou por instinto.
O golpe abriu a lateral da testa.
Sangue desceu pelo olho.
Mesmo assim Aisha avançou mirando o pescoço de Aedin.
A raiva chegou antes da técnica.
Foi quando o chute do usuário de Ordo acertou o torso dela pelo flanco. Com força suficiente para a arrancar da ponte.
Aisha reagiu por instinto.
A mão fechou na perna dele no mesmo instante em que os dois perderam o chão.
O parapeito passou em velocidade.
O vazio apareceu atrás.
Depois o rio.
Os corpos despencaram da ponte antes que Elenys percebesse o que havia acontecido.
Os olhos dela ainda estavam presos em Alexia.
No corpo.
Na pedra coberta de sangue.
Na mana alaranjada que havia parado de pulsar.
— Alexia…?
A voz saiu baixa.
Sem conseguir aceitar o que estava vendo.
Aedin parou alguns metros à frente.
A mão passou devagar pelo próprio pescoço onde a espada de Aisha havia passado perto demais.
O olhar foi para Alexia.
Para Elenys com as mãos nos ferimentos dela.
Para as casas queimando além da estrutura da ponte — o fogo havia tomado dois quarteirões inteiros agora, a fumaça densa o suficiente para escurecer o lado leste da cidade.
Para os soldados mortos espalhados pela pedra.
Para a cratera no centro da ponte onde a esfera havia colapsado.
Para Ian imóvel perto dela.
O silêncio estranho entre os estalos do fogo.
E pela primeira vez desde o início de tudo —
Algo vacilou dentro dele.
O olhar mudou.
A mana roxa falhou por um instante nos circuitos.
Maelis viu claramente dessa vez.
Ele estava começando a recuperar o controle, mas ainda se negava a aceitar as informações.
Então vieram os passos.
Pesados.
Numerosos.
Armaduras.
Melissa surgiu no extremo da ponte junto da Guarda Real.
E parou.
Os olhos foram primeiro para Ian caído perto da cratera.
Depois para Alexia.
Depois para Elenys com as mãos no corpo dela.
Depois para Maelis e Lysvallis.
O rosto perdeu cor.
— …O que vocês fizeram?

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.