Capítulo 157 - "O Que Resta".
O machado atravessou a ponte num arco pesado enquanto Ian ainda descia das pilastras acima deles.
— EM CIMA ! — Aedin rugiu.
Ian atingiu a pedra da ponte em quatro apoios.
O impacto das patas na ponte rachou a estrutura do centro para as bordas em linhas que chegaram até os pés de Aedin e continuaram para o parapeito.
As caudas se abriram atrás dele num movimento instável enquanto as garras afundavam na pedra tomada de musgo.
O usuário de Ordo recuou três passos, a esfera acima das mãos pulsando com o volume acumulado, maior agora, distorcendo o ar ao redor em ondas que faziam a pedra da ponte vibrar em frequência constante.
Aedin avançou antes que Ian pudesse recuperar equilíbrio.
O machado desceu mirando o pescoço.
Ian desviou no último instante.
As garras atravessaram o ar onde Aedin estava um segundo antes.
Aedin girou junto do próprio impulso.
O cabo do machado encontrou a lateral do rosto de Ian com força suficiente para enviar o som pelo corredor inteiro.
O som foi seco.
Pesado.
Ian atravessou parte do parapeito da ponte.
Pedra caiu no rio abaixo.
Mas ele já estava se levantando outra vez.
Errado.
Os movimentos continuavam rápidos.
Mas começavam a falhar.
O braço destruído por Eldrik tremia violentamente agora. A carne regenerada abria em fissuras vermelhas a cada impacto. Sangue pingando da mandíbula em cadência que havia acelerado desde a perseguição.
As patas deixavam marcas irregulares na pedra com o próprio corpo perdendo estabilidade.
— Sua Majestade, saia da frente! — o usuário de Ordo gritou.
A esfera acima dele distorceu o ar ao redor.
Fragmentos de pedra começaram a subir da ponte.
Aedin não olhou.
— Ainda não, ele é rápido demais!
Ian avançou outra vez.
Aedin girou o corpo.
As garras atravessaram a armadura do ombro esquerdo e arrancaram metal junto de carne.
O impacto quase o derrubou.
Mesmo assim o machado veio de baixo para cima.
Uma das caudas acertou o punho de Aedin antes do golpe completar lançando o machado para o rio.
Aedin não perdeu tempo acertando socos em Ian.
Acertou o torso de Ian e o lançou contra os arcos laterais da ponte.
As quatro caudas se debateram violentamente.
O soldado à direita de Aedin ergueu o escudo.
As garras atravessaram o escudo.
O homem foi lançado contra o parapeito com força que dobrou o metal da armadura antes do corpo cair.
O segundo soldado tentou fechar pelo flanco.
Ian apareceu no ponto cego dele antes que o movimento completasse.
O som do impacto foi úmido.
O corpo atravessou o parapeito e desapareceu no rio abaixo.
Aedin não olhou.
— Mantenham a posição! — rugiu para os magos. — Não disparem ainda!
O usuário de Ordo tinha o queixo cerrado.
O nariz havia começado a sangrar — o custo de sustentar a esfera naquele volume por aquele tempo estava aparecendo no corpo.
Ian estava de pé.
Respirando pesado.
O sangue agora escorria sem parar da boca.
Ele girou.
As quatro caudas varreram a ponte em arco.
Aedin jogou o corpo para baixo.
O vento da cauda passou por cima, carregado de mana.
O terceiro soldado não abaixou a tempo.
O som que ele fez foi curto.
Aedin ficou de joelho na pedra por um segundo.
Olhou para onde o soldado havia estado.
Levantou.
Ian estava à frente.
Os olhos azuis fixos nele.
O mesmo olhar predatório que Aedin havia visto nas bestas da barreira antes do bote.
Então vieram os passos.
Aisha apareceu primeiro.
Correndo.
Lysvallis logo atrás.
Maelis.
Elenys.
Alexia.
Os olhos de Aisha encontraram Ian.
O passo falhou por um instante.
Ela já havia visto a forma Kenzaru de Ian, Imponente.
Bela de uma forma assustadora… mas agora? estava deformada, a pelagem branca estava suja de sangue e destroços. Os pelos haviam avançado pelo pescoço e pela lateral do rosto em linhas irregulares que se misturavam com o sangue seco.
As quatro caudas se moviam em órbitas que não tinham mais o ritmo constante de antes.
— Ian…?
As caudas desaceleraram e Ian rosnou.
Só por um instante.
Aedin percebeu.
Os olhos estreitaram imediatamente.
— NÃO SE APROXIMEM!
Maelis ergueu os olhos na direção da esfera de Ordo e os magos.
Viu Ian e Aedin.
E entendeu.
Eles não estavam para brincadeira.
Estavam tentando matar Ian mesmo que pudesse matar todos ali.
— Seu desgraçado… — a voz dela saiu baixa olhando para Aedin.
Alexia avançou primeiro.
Uma lança de gelo surgindo nas mãos.
— Você enlouqueceu Aedin? —
Ian atravessou a ponte num borrão branco.
As presas se fechando no abdômen de Alexia antes que qualquer um entendesse o que aconteceu. O corpo dela travou. Os olhos arregalaram.
Ian a sacudiu.
Aedin acertou o punho no lado da cabeça de Ian antes que terminasse.
O sangue desceu.
Quente.
Alexia caiu na ponte inerte.
Aisha parou abruptamente.
A respiração falhou.
Lysvallis congelou.
Ian já estava atrás de Aedin.
As garras tremendo.
Sangue escorrendo dos dedos.
— ALEXIA! —
Elenys caiu ao lado dela imediatamente. Rasgando parte do vestido e pressionando contra os ferimentos.
Os dois magos dos flancos avançaram imediatamente quando explosões de fogo atravessaram a ponte.
A estrutura inteira tremeu.
Mana alaranjada começou a escapar pelas mãos de Alexia junto do sangue e pelas feridas.
Instável.
Piscando entre os dedos tremendo enquanto ela tentava manter o próprio circuito funcionando.
Elenys pressionou mais forte o ferimento.
— Fica quieta, eu consigo—
Alexia segurou o braço dela antes.
Os olhos estavam na esfera de ordo do outro lado da ponte.
O ar afundando ao redor dela.
— Não deixa aquilo atingir ninguém…
A voz saiu fraca.
Aedin já estava avançando outra vez. Ian veio junto. Os dois colidiram no centro da ponte com violência suficiente para rachar a pedra sob os pés.
Aedin usava movimentos curtos agora, controlados. Cada golpe tentando limitar espaço.
Forçar direção. Empurrar Ian exatamente para onde ele precisava.
Ian respondia como um predador ferido. Garras. Presas. Caudas destruindo tudo que tocavam.
Mas o corpo falhava cada vez mais. A pata direita cedeu num dos avanços.
O braço regenerado abriu outra vez até o osso.
O gelo começou a surgir involuntariamente pela pele.
— Ele está morrendo… — Lysvallis sussurrou.
Aisha já estava avançando. A espada encontrou uma das caudas e desviou o ataque que teria arrancado a cabeça de Aedin.
Lysvallis surgiu logo depois. Gelo explodiu pela ponte tentando prender os movimentos de Ian.
— Ian! — Aisha gritou. — PARA!
O gelo prendeu duas caudas.
Só um segundo.
Mas Aedin viu. E usou.
Atravessou a abertura e atingiu Ian no peito com força suficiente para lançá-lo contra o centro da ponte. Lysvallis congelou as patas dele imediatamente. O gelo subiu até a cintura. As rachaduras se espalharam pela ponte inteira.
O usuário de Ordo ergueu a cabeça. A esfera acima das mãos havia crescido até o tamanho de uma carruagem.
O ar ao redor começou a afundar.
Pedras subiram da ponte.
Neve.
Sangue.
Fragmentos de mana.
Tudo começou a ser puxado lentamente na direção da esfera. O rio abaixo distorceu.
Aedin avançou puxando uma adaga da armadura.
— AGORA! — Ele rugiu se aproximando de Ian.
Aisha entrou na frente. — NÃO!
O impacto entre os dois lançou gelo pela ponte.
— Sai da frente garota! — Aedin rugiu.
— Não!
Atrás deles, Maelis percebeu o que o usuário de Ordo estava prestes a fazer. O horror atravessou o rosto dela imediatamente.
— Não…
O gelo de Lysvallis explodiu quando uma chama de Maelis o atravessou pelo flanco.
Ian ficou livre.
As quatro caudas se ergueram violentamente.
O corpo girou.
Pronto para fugir.
A ponte inteira tremeu quando toda a mana do ambiente começou a ser sugada na direção do núcleo avermelhado acima do mago.
Aedin virou. — DISPARA!
Então os gritos vieram atrás dele.
Alexia.
Elenys.
Aisha.
Ian parou.
As caudas desaceleraram. Os olhos azuis olharam por cima do ombro.
A esfera de Ordo colapsou para dentro.
O mundo afundou junto.
O som desapareceu.
A luz engoliu a ponte.
As quatro caudas desapareceram na luz primeiro.
Depois o corpo.
A última coisa que Aisha viu foram os olhos azuis.
Parados nela.

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