CAPÍTULO 01 - O PILAR
Num salão sem janelas, onde a luz parecia ter medo de existir, um elfo pálido de cabelos brancos e olhos verdes repousava num trono feito de ossos. À sua frente, dez pessoas ajoelhadas mantinham a cabeça baixa.
A voz dele não subiu, mas dominou o ambiente mesmo assim.
“Hoje começamos a conquista, encontraremos o Criador e eu falarei com ele pessoalmente.” Ele deixou o silêncio apertar por um instante. “Vocês serão os precursores, atravessarão para um mundo primitivo, onde não existe mana. Vão domá-lo e provar a superioridade da Ordem do Véu Negro.”
Os ajoelhados não se moveram, alguns tremiam, outros fingiam não tremer.
“Eu já concluí o feitiço.” O elfo inclinou-se levemente. “Agora só falta o preço.”
Ele ergueu a mão.
“Morram por mim, morram por Sethrion”
Um pilar de energia verde desceu do alto como uma lança, atravessando o teto do palácio sem quebrar pedra nenhuma, atravessando a matéria. O brilho envolveu os dez de uma vez. Houve um instante de silêncio absoluto, como se o mundo segurasse a respiração.
Quando a luz se esvaiu, não havia corpos, apenas a ausência. Todos haviam morrido e nem mesmo uma gota de sangue ficou para trás.
“Começou…” murmurou o elfo. Um sorriso quase imperceptível puxou seus lábios. “Em breve… muito em breve, o meu desejo será realizado.”
…
Marcus era militar, mas antes disso foi engenheiro eletricista. No exército, seu trabalho era consertar e projetar sistemas elétricos.
Ele servia numa base nos Estados Unidos, no deserto da Califórnia. Naquele momento, discutia sobre extraterrestres com o amigo Kyle, um texano musculoso, alto e loiro, que era um dos médicos da base. Kiara, sua namorada, apenas apreciava a discussão dos dois.
“Cara, eu tô te falando, é simplesmente impossível homens terem feito aquilo. Eu vi com meus próprios olhos. O círculo no meio da plantação era absurdo, sobrenatural!” exclamou Kyle, tentando convencer Marcus de que alienígenas existiam.
“E eu tô te dizendo parceiro, foi só um velho com muito tempo e uma foice!” retrucou Marcus, não acreditando em seu amigo.
Kiara permanecia em silêncio, apenas ouvindo e apreciando a discussão. Ela era uma soldado que atuava no reparo e manutenção de armas da base, além de cuidar do inventário e participar de treinamentos com armamentos diferenciados. Aqueles momentos de descontração entre os turnos eram o que alegrava seu dia.
“E como você explica a área 51? Hein! Você não pode! Certeza que eles já capturaram um extraterrestre e estão lá dissecando ele nesse exato momento!” argumentou Kyle.
“Por que você não pede transferência pra lá então? Aí você descobre de uma vez por todas e pode contar pra gente.” respondeu Marcus.
“É impossível, eu já não posso mais ficar longe de vocês, você e Kiara já são minha família! Não se esqueçam de me chamar para o casamento e já adianto que quero ser padrinho.” respondeu Kyle com bom humor.
Essa discussão amigável acabou quando algo estranho aconteceu no céu. Kiara foi a primeira a reparar.
“V-vocês estão vendo isso?” perguntou, incrédula. A voz vacilou um pouco.
“Minha nossa! O que diabos é isso?” respondeu Kyle, olhando para o céu.
Marcus acompanhou o olhar dos dois. A menos de uma milha de distância, um ponto de luz verde e doentia se materializou na realidade e rapidamente se expandiu num pilar, perfurando as nuvens.
“Que merda é essa?” Marcus perguntou, incrédulo.
Logo uma sirene tocou e a base virou um caos controlado. Todos os militares foram para suas posições. Marcus, Kiara e Kyle correram para o pátio externo para observar melhor. A temperatura do deserto caiu vários graus, fazendo os pelos do braço de Marcus se arrepiarem.
O pilar começou a se expandir. Antes tinha a largura de um carro, mas rapidamente cresceu até a de um prédio, e sua velocidade de crescimento não pareceu desacelerar.
O pilar continuava crescendo em silêncio absoluto, engolindo a areia, os cactos, os alvos de treino. Tudo que era devorado por ele, não podia ser mais visto.
A artilharia da base, posicionada para exercícios, abriu fogo. Marcus viu os canhões automáticos dispararem em direção à luz.
As explosões atingiram a parede de luz verde e… nada.
Sem fogo, sem destroços. Os projéteis simplesmente deixavam de existir no momento em que tocavam a luz. O pilar não respondia, não atacava, não se defendia, apenas continuava aumentando de tamanho, imponente, imparável, inescapável.
“Temos que sair daqui!” Kiara agarrou o braço de Marcus. “Agora!”
Eles correram, mas a situação era impiedosa. O pilar se expandia exponencialmente, logo ele ocupava metade da visão de Marcus, eclipsando o céu.
Marcus olhou para trás enquanto corria. Viu a torre de controle ser engolida, junto com todos que estavam nela. Não houve som de concreto quebrando, nem gritos de dor. A torre simplesmente foi varrida da realidade, substituída pelo verde.
“Não vai dar tempo.” A mente de Marcus calculou velocidade e distância em uma fração de segundo. O resultado era ruim. Seja o que fosse aquele pilar de luz verde, ele os alcançaria. Não havia chance de fuga.
A parede de luz alcançou os alojamentos. Alcançou o pátio.
“Kiara!!” Marcus gritou, estendendo a mão para ela.
Eles pararam.
Não havia para onde correr. O pilar agora parecia uma parede verde, uma muralha que devorava o mundo em silêncio. Em um piscar de olhos, ela já não estava mais “lá fora”. Estava perto demais. Tão perto que a luz pintava o chão sob os pés deles, tão perto que o ar ficou pesado, e a próxima batida do coração de Marcus pareceu tempo suficiente para alcançá-los.
Kiara segurou a mão dele com força, os olhos cheios de lágrimas, mas sem desviar o olhar. Kyle estava ao lado, paralisado, murmurando uma oração aprendida na infância, no Texas.
“Eu te amo” Marcus conseguiu dizer.
A luz os tocou.
Marcus esperou o pior, dor excruciante, calor intenso, mas não encontrou nada disso. O tempo e o espaço haviam cessado, tinham parado de existir. Ao redor, ele percebeu o silêncio. Marcus não existia mais.
…
Morto.
Marcus estava morto.
O pilar havia apagado sua existência e a de todos os demais de forma indolor.
Olhando ao redor, percebeu inúmeras esferas de luz, cada uma do tamanho de uma bola de baseball. Olhando para si mesmo, percebeu que também era uma dessas esferas, sem corpo, apenas uma massa de energia.
Todas as esferas seguiam um fluxo, uma corrente que as arrastava para um lugar misterioso, como um rio infinito. Seguiam sem rumo, até que algo mudou novamente.
Os pensamentos de Marcus estavam nublados. Ele não parecia ter a mesma capacidade de raciocínio de quando estava vivo, mas ainda percebia tudo ao redor. Uma força invisível e antinatural passou a puxar todas as esferas de luz para fora do trajeto natural.
Todas foram puxadas sem exceção. No entanto, algumas colapsaram e deixaram de existir. Marcus sentiu a força puxando-o e sentiu dor. Tentou resistir com todas as forças, mas era impossível. Continuou sendo puxado, enquanto mais esferas de luz colapsavam ao redor.
No fim, cerca de dez esferas de luz eram puxadas em direção a um corredor escuro.
Em contraste, dez esferas de escuridão, roxas, densas e vazias, saíram desse corredor, como se fossem expulsas, seguindo o caminho inverso. Enquanto Marcus percebia que estava sendo puxado, as esferas de escuridão eram empurradas.
Ao chegar ao fim do corredor, Marcus viu uma luz. Ao atravessá-la, sentiu algo diferente.
Frio.
Essa foi a primeira sensação, um frio úmido e cortante.
Depois, o cheiro. Não era óleo nem pólvora, como estava acostumado. Era cheiro de palha velha, mofo e algo doce e enjoativo, como perfume barato.
Marcus tentou abrir os olhos. A luz feriu suas retinas. Tentou falar, perguntar onde estava, chamar por Kyle ou Kiara.
Mas o que saiu de sua garganta não foram palavras.
Foi um som agudo, estridente e patético.
“Uaaah!”
Ele parou, chocado. Tentou mover o braço. Um membro gordo, curto e descoordenado passou diante de sua visão turva, mãos minúsculas, dedos que mal obedeciam a seus comandos.
O pânico, puro e primitivo, tomou conta dele, ele não podia falar, não entendia o que estava acontecendo.
“Shhh… shhh, meu pequeno…” sussurrou uma voz feminina. Era melódica, suave, mas carregada de profunda exaustão. Marcus não entendeu uma única palavra, parecia outra língua.
Ele sentiu-se ser erguido, o mundo girou e se estabilizou, sua visão começou a focar lentamente.
Ele olhava para um rosto, uma mulher. Bonita, mas com uma beleza cansada, olheiras profundas sob olhos amarelos amendoados. A pele era pálida, quase translúcida.
Mas não foi isso que fez a mente de Marcus travar.
Foi o cabelo dela.
Uma cascata de fios de um roxo vibrante, uma cor inexistente de forma natural. E, ao afastar uma mecha daquele cabelo roxo, ele viu.
A orelha.
Não era redonda. Era longa, fina, terminando em uma ponta elegante que se movia levemente enquanto ela falava.
Não era só a aparência dela que o confundia.
De algum jeito, cores estranhas emanavam do corpo da mulher. Marcus viu primeiro um amarelo fraco e quente, que surgia sempre que ela o olhava. Logo depois vinham manchas de roxo, pesadas, e um laranja inquieto que tremia nas bordas, como se não conseguisse parar no lugar.
Às vezes, as cores se misturavam e viravam um turbilhão difícil de acompanhar. Em outras, uma única tonalidade dominava e fazia o resto recuar, como se aquela cor tivesse tomado conta dela por completo.
Marcus olhou para as orelhas pontudas, para o cabelo roxo e depois para o teto de madeira podre do lugar onde estava.
“Por que uma e-girl estranha fazendo cosplay de elfo está me segurando? Não… o principal problema é que eu caibo no colo dela?” pensou, perplexo.
Ele não acreditava no que estava acontecendo, mas aquela era sua realidade inegável.
“Eu… eu … eu renasci?” pensou perplexo.
Enquanto pensamentos assim passavam por sua mente, ele chorava, inconformado. Sua vida anterior havia chegado ao fim. Lembrava-se dos entes queridos deixados para trás, dos amigos, da namorada Kiara, de Kyle, dos pais e da irmã.
Era inevitável chorar.
Provavelmente, ele jamais os veria novamente.

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