“Mãe, aconteceu alguma coisa!” Oliver chegou em casa ofegante, depois de correr o caminho inteiro.

    Eliandris pôde ver o medo emanando de sua alma.

    “O que aconteceu?”

    “Um homem, vestido de preto, queria me matar. Eu tenho certeza disso. Ele também tinha um cajado, então deve ser um mago. Eu senti… senti que ele poderia me matar se quisesse.” Oliver explicou em desespero. Os sentimentos de um elfo da alma em relação às outras pessoas normalmente estavam corretos.

    “Será que minha família finalmente nos encontrou?” Esse foi o primeiro pensamento que passou pela mente de Eliandris.

    “Filho… ele era um elfo?”

    “Não consegui ver as orelhas dele. Ele usava um capuz, mas acho que não era.” Oliver tinha uma intuição aguçada. Ele sentia que Victor não era um elfo.

    “Se ele não é um elfo mandado pela minha família, então conhece os elfos da alma. Não estamos seguros aqui.” Eliandris confiava no filho. Sabia que a intuição dele estava no mesmo nível da sua e precisaria tomar uma decisão rapidamente.

    “Você acha que Archibald conseguiria vencer esse homem?” Era uma pergunta estranha, mas Eliandris queria usar a intuição do filho para realizar o próprio julgamento.

    A pergunta pegou Oliver de surpresa, e ele precisou pensar um pouco antes de responder.

    “É difícil dizer, mas aquele homem era aterrorizante. Sinto que Mestre Archibald não venceria em combate.” A intuição de Oliver deu a resposta que Eliandris queria ouvir.

    “Vamos embora da vila”, Eliandris declarou sem hesitar.

    “O quê?” Oliver olhou assustado para a mãe. Aquela era uma decisão repentina demais.

    “Filho, eu nunca te contei minha história direito, mas as pessoas que conhecem a existência de um elfo da alma não são comuns. Se ele olhou para você com intenção de matar, é só questão de tempo até tentar de verdade. Precisamos ficar seguros. Temos que ir embora.” Eliandris explicou da melhor forma que pôde. Ela jamais havia contado a Oliver por que os elfos da alma eram considerados ‘amaldiçoados’ pela própria raça e vistos como ‘perigosos’ ou ‘abominações’ pelas demais.

    Oliver apenas concordou. Se sua mãe havia tomado aquela decisão, então provavelmente estava certa.

    Eliandris puxou um baú de debaixo da cama. Dentro dele havia uma rapieira, uma velha armadura de couro, duas poções de cura e um pergaminho, cuja superfície era coberta por inscrições antigas e densas.

    Oliver observou aquilo em silêncio. Não costumava olhar embaixo da cama, então nunca havia percebido que existia um baú ali desde que Eliandris o resgatara da floresta junto com Grim.

    Quando viu o conteúdo, arregalou os olhos. Só uma poção de cura já era um item extremamente caro, mas ali haviam duas.

    “Mãe, o que é esse baú?”

    “Mais tarde eu te conto. Por enquanto, só saiba que nunca fui verdadeiramente uma plebeia. Estive me escondendo para tentar nos manter em segurança. Agora que nossas vidas podem estar ameaçadas, já não faz sentido continuar me escondendo sem fazer nada.” Eliandris começou a vestir a armadura leve.

    Era uma armadura de couro comum, mas, assim que foi equipada, runas estranhas surgiram sobre ela e brilharam levemente em um tom avermelhado, desaparecendo logo em seguida.

    A rapieira guardada no baú era bem adornada e também possuía runas. Dessa vez, elas estavam visíveis por toda a espada. Acenderam-se em um brilho alaranjado e incendiaram a lâmina.

    “O que é isso?” Oliver olhou para o fenômeno, ainda incrédulo e confuso. “Como assim ‘nunca fui verdadeiramente plebeia’? Eu literalmente cresci num bordel.”

    Oliver não entendeu imediatamente o que a mãe quis dizer com tudo aquilo, mas ela passou a transmitir uma sensação estranha de perigo. Como uma lâmina embainhada que acabara de ser sacada.

    Eliandris vestiu um manto preto e entregou outro a Oliver.

    “Vista-se, meu filho. Vamos tentar passar despercebidos.”

    Oliver ainda usava o manto que Archibald lhe entregara na cerimônia de batismo. Ele o retirou imediatamente e vestiu o manto preto.

    Os dois saíram de casa.

    “Para onde vamos?”, Oliver perguntou.

    “Primeiro, avisar Erina. Eu também gostaria de avisar Grim, mas isso não vai ser possível.” Eliandris respondeu, tomando a dianteira.

    Ela pegou uma trouxa que havia preparado meticulosamente para o caso de esse dia chegar. A rapieira estava embainhada em sua cintura, e o manto preto escondia qualquer sinal dela.

    Oliver e Eliandris seguiram para o bordel.

    Naquela hora da tarde, Erina provavelmente estaria ali. Ao abrirem a porta, encontraram a cornídea sentada em um canto, jogando Regnum com um mago de meia-idade. Era Archibald.

    “Que tal bater antes de entrar?” Erina disse, descontente ao vê-los adentrar o quarto sem cerimônia.

    Também não era tão estranho ver Archibald ali à tarde. Nas manhãs em que Oliver e Jonathan tinham aulas juntos, o homem costumava passar para ver sua amada.

    Archibald olhou para Oliver e Eliandris, ambos de capuz preto, e franziu a testa.

    “O que está acontecendo?”, ele perguntou.

    “É uma longa história, mas estamos indo embora da cidade. Foi tudo muito repentino, mas espero que vocês vivam bem.” Eliandris se curvou diante de Erina e Archibald.

    Erina a havia ajudado desde que chegara a Corval e podia ser considerada sua melhor amiga, superando inúmeras amizades que Eliandris tivera ao longo de suas centenas de anos de vida. Archibald, por sua vez, era o mestre de Oliver. Um homem que ajudara tanto seu filho não merecia menos do que seu respeito e sua mais profunda gratidão.

    Erina entendeu imediatamente o que estava acontecendo. Sabia muito bem da situação de Eliandris e não conseguiu deixar de perguntar:

    “É realmente tão urgente assim? Archibald pode resolver isso para você.” Erina sugeria que poderia convencê-lo a eliminar o perseguidor de Eliandris.

    Eliandris apenas balançou a cabeça.

    “É demais, até para ele. Ninguém precisa arriscar a própria vida por nós. Estamos partindo.”

    Archibald compreendeu apenas parte da situação. Ainda tinha dúvidas, mas entendeu o essencial: Eliandris estava diante de um problema gigantesco e precisava partir imediatamente, ou sua vida estaria ameaçada.

    “Eu realmente não posso ajudar? Pode contar comigo. Odiaria perder um discípulo tão talentoso quanto Oliver. Eu realmente gostaria de guiá-lo até o 2º ciclo e, logo em seguida, indicá-lo a um professor apropriado de magia de relâmpago na torre mágica.” Archibald falava com sinceridade. Por fora, podia parecer impiedoso, frio e impaciente, mas, com as pessoas próximas, mostrava uma personalidade completamente diferente.

    “Realmente não há nada que possa ser feito. Ainda assim, agradeço por cuidar do meu filho durante todo esse tempo. Se ele progrediu tanto na magia, foi graças à sua ajuda.” Eliandris continuou curvada, agradecendo o homem com ainda mais profundidade.

    “Mestre Archibald, obrigado por tudo. Sou profundamente grato ao senhor. Tia Erina, eu também te agradeço imensamente. Você foi a única amiga de verdade que tive na vila durante todos esses anos.” Oliver seguiu o exemplo da mãe e agradeceu a Erina e Archibald do fundo do coração, com as palavras mais sinceras que conseguiu encontrar.

    Nem Erina nem Archibald tentaram impedi-los. Erina, no entanto, deixou algumas lágrimas caírem e abraçou os dois com força.

    “Por favor, cuidem-se e fiquem bem.”

    Depois de se despedirem, caminharam em direção à saída da cidade, seguindo para o lado oposto de onde Oliver havia encontrado Victor e Alexander.

    Ao se aproximarem da saída, depararam-se com uma cena estranha.

    Havia pessoas paradas, como se uma linha imaginária as dividisse, tanto no fluxo de entrada quanto no de saída da cidade. Parecia haver algum tipo de comoção acontecendo ali.

    “O que está acontecendo?” Eliandris se aproximou para enxergar melhor e, então, finalmente percebeu.

    As pessoas que queriam entrar e as que queriam sair estavam interrompidas por um motivo muito simples.

    Uma barreira de força translúcida bloqueava a passagem.

    Ao encostar nela, Oliver percebeu que se tratava de uma espécie de domo. Aparentemente, a barreira cobria a cidade inteira.

    Eliandris e Oliver estavam presos e não poderiam sair da vila.

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