Capítulo 191 - Revelação
O galpão do segundo andar agora já não parecia tanto um lugar feito para armazenamento. As caixas — cheias de ópio — estavam destruídas, o metal das estantes retorcido, além do surgimento de dezenas de placas de gelo espalhadas pelo chão, que transformaram o espaço em um campo de batalha irregular, onde cada passo podia significar escorregar, tropeçar ou se expor demais. O ar estava pesado com poeira, cheiro de pólvora e um frio anormal que emanava do rastro de destruição deixado por Evelyn.
Dois dos últimos capangas tentaram recuar ao mesmo tempo de Evelyn, correndo com cautela ao mesmo tempo que disparavam de forma desesperada na direção dela. Os tiros ecoaram alto sob o teto metálico.
Evelyn nem ao menos se moveu, apenas moveu a mão para cima. Uma camada de gelo se formou sob seus pés antes mesmo do primeiro impacto. Uma parede cristalina brotou do chão, absorvendo as balas com estalos secos que se espalharam como rachaduras luminosas pelo gelo. Antes que os homens pudessem ajustar a posição, a parede se fragmentou para frente, não como uma explosão, mas como uma liberação controlada de lâminas. Dezenas de fragmentos de cristal correndo em direção dos dois.
As estacas atingiram ambos quase simultaneamente. Um foi atravessado no ombro e jogado contra uma pilha de caixas, enquanto o outro teve a perna perfurada e caiu gritando, incapaz de continuar recuando.
Evelyn avançou através dos fragmentos, agora caídos, com o olhar fixo e frio, como se estivesse caminhando por um jardim congelado e não por um campo de combate. Em um gesto curto com a mão, criou um porrete de gelo. Em seguida, bateu com força a arma contra a cabeça do homem caído.
— Non! Non! Per favor espè-!
O porrete bateu contra ele, formando um silêncio ensurdecedor no local.
O último capanga no nível inferior largou a arma e levantou as mãos, tremendo, os olhos arregalados ao encarar a figura feminina e imóvel diante dele. Aos olhos do homem, aquela não era uma simples elfa, era um demônio de gelo.
Paralelamente, do alto da passarela, um corpo caiu no chão com um estrondo metálico. Brigitte aterrissou ao lado dele com a lança já em mãos, girando-a com facilidade como se fosse apenas um bastão leve. O homem mal teve tempo de reagir antes de receber um golpe lateral no abdômen que o arremessou contra uma grande caixa de madeira, onde ficou preso por um instante antes de despencar inconsciente no chão.
Ela girou a lança rapidamente e pousou com um pequeno sorriso no rosto, ajeitando a pegada na arma.
— Parece que esse era o último daqui de cima.
Evelyn nem respondeu. Seus olhos percorreram o galpão lentamente, analisando cada sombra, cada espaço entre caixas, cada ângulo morto onde alguém poderia estar escondido. Nenhum movimento. Nenhum som além do gotejar distante de água e do estalo ocasional de gelo se partindo.
A tensão não desapareceu imediatamente. Ela permaneceu no ar como eletricidade estática, esperando um novo disparo, um passo fora do lugar, qualquer sinal de que a luta ainda não havia terminado, afinal foi tão fácil… Porém, quando nada aconteceu, Evelyn relaxou apenas o suficiente para baixar levemente os ombros.
Internamente, sua mente começou a contar. Não por necessidade. Não por estratégia. Por satisfação. Ela revisitou cada queda, cada impacto, cada inimigo que abateu. Dois em baixo, três no início do galpão, um na escada, mais dois no centro do galpão… e os últimos agora. Do outro lado, Brigitte havia derrubado apenas dois — um agora e outro no primeiro andar. Apenas dois.
Um pequeno sorriso surgiu no canto dos lábios de Evelyn, quase imperceptível. Um sorriso infantil que cantava “vitória!”. Ela não disse nada. Não havia motivo para compartilhar aquilo. Era uma competição silenciosa, unilateral, algo que existia apenas para provar a si mesma que continuava útil, mesmo quando alguém tão absurdamente forte quanto Brigitte estava presente.
Atrás dela, Brigitte apoiou a lança no ombro e estalou o pescoço para o lado, olhando ao redor com expressão satisfeita.
— Bom… isso foi divertido. — comentou, respirando fundo. — Acho que limpamos tudo.
O sorriso de Evelyn não desapareceu, mas também não se ampliou. Ela apenas virou ligeiramente o rosto, o suficiente para que a outra percebesse sua expressão sem que precisasse encará-la diretamente.
Foi nesse instante, nesse instante de satisfação e orgulho que um som veio. Um disparo único, seco, cortando o silêncio como uma lâmina fina cortando papel.
O estrondo fez Brigitte ter uma reação instantânea. Seu corpo se encheu de choques e faíscas roxas, dançando ao seu redor. Olhou para a esquerda e pôde ver com nitidez a bala correndo em direção a Evelyn, bem lentamente. Antes que a amiga sofresse algum dano, se moveu, praticamente andando em alta velocidade. A mão livre se estendeu para frente e fechou-se no ar com uma precisão absurda.
O tempo voltou ao normal para a garota. O impacto do projétil foi pequeno, quase imperceptível — um tremor nos dedos. Quando abriu a mão, havia uma bala deformada presa entre os dedos, ainda quente.
O olhar dela se deslocou imediatamente para a origem do tiro. Atrás de uma pilha de caixas parcialmente destruídas estava um capanga, segurando um rifle e com os olhos arregalados ao perceber que sua última chance de eliminar as garotas havia falhado.
— M-mèrda…
Brigitte sorriu e então desapareceu no ar. Um segundo depois, reapareceu ao lado do homem, agarrando-o pela gola e pela cintura antes que ele pudesse sequer soltar um grito completo. O chão tremeu levemente quando ela aterrissou no centro do galpão com ele suspenso no ar como um boneco. A arma, sua única mísera fonte de segurança, ficou para trás.
Ela o largou de joelhos, mantendo a ponta da lança encostada nas costas dele.
— Ele tá aí, Eve. Esse foi o babaca que tentou te dar um tiro por trás. — disse, animada, quase orgulhosa. — Acho que ele tá precisando de uma liçãozinha, né? Vai lá, detona com a cara dele! — terminou, dando um soquinho para o alto.
— Non, per favor, senhora, non me fazetz ren! Jo sol segui ordens di chefa. Ela èra a… — continuou suplicando o homem, mesmo que Evelyn nitidamente não estivesse entendendo sequer uma palavra.
Evelyn observou a cena por um segundo. O sorriso de seu rosto desapareceu como se nunca tivesse existido, e seus olhos baixaram ligeiramente por uma ausência repentina de interesse. A figura ajoelhada diante dela não parecia mais um inimigo, nem mesmo uma pessoa — apenas mais uma constatação de que estava errada. Aquela não era uma vitória, era uma derrota. Uma derrota humilhante.
O homem continuava a implorar, com a voz falhando entre soluços, misturando palavras incompreensíveis e tentativas desesperadas de justificar a própria existência. O som ecoava pelo galpão quase vazio, arrastado e patético, como um animal ferido que ainda não percebeu que foi abandonado pelo resto do bando.
Evelyn deu um passo na direção dele. Brigitte endireitou os ombros imediatamente, o sorriso se alargando e a expectativa brilhando nos olhos como se estivesse prestes a assistir ao clímax de um espetáculo particularmente violento.
Mas Evelyn não parou. Ela passou pelo homem ajoelhado sem sequer olhar para ele. O frio que emanava dela deixou de existir enquanto ela atravessava o espaço entre eles como se ele fosse invisível. Os passos dela seguiram firmes na direção da grande porta dupla do outro lado do galpão.
Brigitte piscou, surpresa, com a ponta da lança ainda pressionando as costas do prisioneiro.
— …Eve?
Nenhuma resposta. A elfa continuou andando, o olhar fixo à frente, já distante — tanto fisicamente, quanto mentalmente — daquilo tudo.
O homem voltou a implorar, agora virando parcialmente a cabeça para acompanhar a única pessoa que parecia capaz de decidir seu destino. As palavras saíam rápidas demais, atropeladas pelo pânico, incompreensíveis para qualquer um ali. Brigitte fez uma careta, o entusiasmo se esvaziou tão rápido quanto surgiu.
— Sério mesmo? — murmurou, mais para si do que para ela.
Brigitte retirou a lança de suas costas. O capanga interpretou aquilo como um sinal de misericórdia, tentou se virar completamente para trás, com um sorriso no rosto. Foi o único movimento que ele conseguiu fazer.
De repente, Brigitte girou o corpo com naturalidade e desferiu um chute lateral brutal na cabeça dele. O impacto produziu um som seco e pesado, e o corpo foi lançado de lado como um saco vazio, deslizando pelo chão até parar para o canto da grande sala. Ela soltou um suspiro curto, apoiando a arma no ombro.
— Pronto. Resolvido.
Sem mais nada a fazer ali, começou a caminhar atrás de Evelyn, com passos longos para compensar a distância já criada entre as duas. Quando finalmente a alcançou, lançou um olhar de lado para o rosto impassível da elfa.
— Você tá estranha hoje, sabia? — comentou, em um tom leve que escondia uma curiosidade genuína.
Evelyn não respondeu. Seus olhos permaneceram fixos na porta dupla, como se tudo além dela fosse apenas um atraso. Brigitte deu de ombros, sabendo que não saberia a resposta daquela rabugentisse toda tão cedo.
— Bom… pelo menos a gente ganhou.
Evelyn não respondeu. A mão dela já estava na maçaneta da porta dupla antes mesmo de Brigitte terminar a frase. Girou o metal sem hesitar e empurrou com força suficiente para que as duas portas se abrissem de uma vez, batendo contra as paredes com um estrondo oco que ecoou pelo corredor.
Do outro lado, apenas viram uma cena que nenhuma das duas estava esperando: Niko estava ajoelhado perto da parede, com o corpo inclinado para frente como se tivesse sido interrompido no meio de alguma ação. Gwen estava de pé ao lado dele, ligeiramente à frente e uma das mãos fechada com força ao lado do corpo. O olhar dela subiu imediatamente para a porta.
Entre os dois, encostada na junção da parede com o chão, estava a garota. A irmã de Valand estava desmaiada, com o corpo tombado de lado como se tivesse sido largado sem cuidado. O braço estava torcido em um ângulo claramente torcido, e uma linha fina de sangue escorria de uma das narinas, descendo lentamente pelo lábio até pingar no piso.
Por um instante, ninguém disse nada. Evelyn apenas encarou. A expressão dela não mudou. Nem surpresa. Nem irritação. Nem alívio. Só aquele olhar fixo — tão morto quanto o de “Valand”. Já os olhos de Brigitte passaram rapidamente pelo cenário inteiro.
— …Eu vou assumir que vocês não ficaram quietinhos no banheiro como eu mandei. — disse Brigitte por fim, como forma de quebrar o gelo, cruzando os braços.

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