Índice de Capítulo

    O som de alguma música distante atravessou a rua naquele instante — um instrumento de corda, provavelmente. Difícil saber exatamente qual no meio de tantas vozes, passos e barracas iluminadas. Mesmo assim, nada daquilo parecia realmente alcançar o grupo.

    Niko permaneceu em silêncio por alguns segundos enquanto continuava andando. A ideia fazia sentido e esse era justamente o problema. Ela parecia boa rápido demais.

    O terminal continuava sendo o ponto mais lógico da operação inteira. Era onde o transporte acontecia. Onde os trabalhadores circulavam. Onde alguma coisa inevitavelmente precisaria acontecer caso tentassem mover o dríade de novo. E Tsugumi tinha razão sobre outra coisa também: ela provavelmente conseguiria entrar sem dificuldade. Ela era pequena, silenciosa e ainda tinha a Alma da família Zamiro — capaz de se esconder entre as sombras e manipular a escuridão.

    Niko conseguia imaginar perfeitamente a garota desaparecendo entre estruturas metálicas, vagões e plataformas sem deixar sequer o som dos passos para trás. A ideia funcionava tão bem visualmente que quase parecia inevitável concordar com ela… Mas havia algumas falhas perceptíveis.

    — Não resolve. — disse Gwen antes dele.

    A resposta veio calma, imediata, sem agressividade. Ela nem sequer olhou diretamente para Tsugumi enquanto falava. Os olhos permaneciam passando pelas ruas, observando pessoas cruzando na direção oposta enquanto desviava casualmente de um homem carregando três canecas de cerveja ao mesmo tempo. Tsugumi virou o rosto devagar.

    — Hm?

    Gwen soltou um pequeno suspiro pelo nariz antes de continuar.

    — Você conseguir entrar não significa que a missão vai automaticamente funcionar.

    Não houve julgamento na voz dela. Nem provocação. Só uma análise seca e lógica do plano.

    — O problema não é infiltração. O problema é a informação.

    As lanternas penduradas acima da rua balançaram levemente com o vento noturno. Pequenos reflexos dourados atravessaram o rosto do grupo conforme caminhavam. Niko permaneceu ouvindo em silêncio.

    — O terminal é enorme. — continuou Gwen. — Mesmo se você entrar sem ser vista… vai procurar o quê exatamente?

    Tsugumi abriu a boca, mas não respondeu imediatamente. Gwen continuou antes que ela precisasse tentar.

    — A gente não tem nomes dos trabalhadores desse turno. Não tem setor. Não sabe quais funcionários participam disso. Não conhece escala de trabalho, uniforme, rosto, cargo, nada.

    Ela ergueu uma mão, contando nos dedos sem realmente olhar para eles.

    — Você pode passar horas escondida naquele lugar e ainda sair sem descobrir absolutamente nada útil.

    Niko permaneceu em silêncio enquanto escutava. Mais cedo, eles também entraram no terminal completamente perdidos. Sem nomes. Sem rosto. Sem direção. E ainda assim encontraram o canal que precisavam. Tudo por causa de um simples “arrepio”.

    Por um instante, Niko quase sugeriu que ela podia simplesmente ir junto com Tsugumi, guiá-la até a verdade. Se o terminal realmente escondia alguma coisa importante, talvez aquela sorte absurda dela puxasse o grupo na direção certa outra vez. Talvez bastasse isso.

    Mas o pensamento morreu quase no mesmo instante em que surgiu. Gwen estava insistindo demais contra aquela ideia. E ela não parecia alguém evitando risco. Parecia alguém que genuinamente acreditava que não havia nada útil lá.

    A garota-gato estreitou os olhos de leve. Não parecia ofendida. Parecia irritada. Irritada porque entendia as fragilidades do seu plano — algo que aparentemente odiava admitir.

    — Eu conseguiria achar alguma coisa. — respondeu mesmo assim, cruzando os braços. — Gente criminosa sempre parece suspeita… Eu já conheci vários criminosos também. Sei reconhecê-los…

    — Ah, claro. — Gabe se intrometeu imediatamente. — Você reconhece criminosos tão bem que confundiu o dono de uma kebaberia com um traficante.

    Tsugumi virou a cabeça na mesma hora, com uma expressão entre assustada e incrédula.

    — Aquilo foi UM erro!

    — Um erro? — repetiu Gabe, já começando a rir. — Você entrou na cozinha do cara pela janela!

    — Porque tinha fumaça verde saindo lá de dentro!

    — Era tempero!

    — NÃO ERA UM TEMPERO NORMAL!

    Evelyn soltou um pequeno som pelo nariz. Quase uma risada.

    — Ah, é verdade. — comentou, finalmente entrando na conversa. — Você também amarrou o entregador.

    — Ele tava fugindo!

    — Ele tava indo fazer entrega. — corrigiu Matteo.

    — E você gritou “PEGUEM O COMPARSA!” pra uma senhora com duas sacolas. — completou Gabe, claramente feliz demais em revisitar aquilo.

    Tsugumi apontou imediatamente para ele.

    — Ela tava olhando estranho pra mim!

    — Por que será, hein?!

    Jakob começou a rir baixo do lado deles enquanto Tsugumi parecia entrar em combustão lenta.

    — Tá, mas vocês esqueceram da parte em que realmente tinha um criminoso lá! — rebateu ela, defensiva.

    — Tinha. — respondeu Evelyn. — Três ruas depois. — exibindo o número “três” com os dedos e esbanjando um grande sorriso.

    — DETALHES!

    — Você causou uma perseguição de quarenta minutos por causa de kebab. — continuou Gabe.

    — E incendiou um carrinho de frutas. — acrescentou Jakob.

    — O incêndio foi acidental!

    — O terceiro incêndio também foi? — perguntou Matteo.

    — PAREM COM ISSO!

    As orelhas dela estavam completamente abaixadas agora, girando o rosto, agitada de irritação enquanto o resto do grupo começava a rir junto. Até Brigitte precisou virar o rosto por um instante para esconder o sorriso.

    — Honestamente, ainda acho que o vendedor queria me matar. — insistiu Tsugumi.

    — Na verdade, ele queria te cobrar por todo aquele estrago. — respondeu Gabe.

    — É praticamente a mesma coisa!

    — Você devia ter visto a cara dele quando ela voltou no dia seguinte disfarçada pra pedir desculpas. — disse Evelyn.

    Tsugumi congelou, as orelhas de gato subiram até os céus.

    — Você prometeu nunca mencionar isso de novo.

    — Ah não, isso eu preciso ouvir. — disse Brigitte imediatamente.

    Gabe colocou a mão no peito, já sem conseguir segurar a própria risada.

    — Ela colou um bigode falso.

    O silêncio durou exatamente meio segundo, então Tsugumi explodiu:

    — AAAAAAHHHHHH!! PAREM DE FALAR DESSA HISTÓRIA!!

    A explosão dramática da garota atravessou a rua inteira. Algumas pessoas viraram o rosto imediatamente, enquanto o resto do grupo finalmente começou a rir sem tentar esconder. Gabe já estava apoiado no próprio joelho, claramente satisfeito demais consigo mesmo. Jakob soltava risadas curtas pelo nariz. Até Matteo tinha desistido de manter a compostura completamente neutra.

    Evelyn foi a única cuja reação quase passou despercebida. Mas Niko viu. Viu o pequeno sorriso surgindo no canto da boca dela antes que desaparecesse outra vez. Aquilo chamou sua atenção mais do que deveria. Não exatamente o sorriso. O contexto.

    Era estranho observar Evelyn daquele jeito — no meio de pessoas que claramente conheciam versões dela que ele ainda não conhecia. Havia uma familiaridade diferente ali. Menos cautelosa. Menos afiada. Como se perto daquele grupo partes antigas dela simplesmente… voltassem a existir sem esforço. Ele não sabia exatamente o que pensar disso ainda.

    O grupo continuou andando entre as ruas iluminadas até que o movimento começou a diminuir aos poucos. As barracas ficaram mais espaçadas. A música mais distante. O fluxo de pessoas já não empurrava mais umas contra as outras o tempo inteiro. A avenida principal se abriu devagar até desembocar numa pequena praça circular cercada por árvores baixas e postes antigos de ferro escurecido. Ali o festival parecia menor. Ainda existia, mas de longe.

    Algumas lanternas estavam entre os galhos acima deles, iluminando o chão de pedra com a luz dourada. Dois músicos tocavam perto de uma fonte seca no centro da praça, sem muita plateia além de um casal bêbado sentado perto dali. O vento carregava cheiro de álcool, fumaça e o resto distante do rio.

    O grupo desacelerou quase naturalmente. Como se todos tivessem percebido ao mesmo tempo que precisavam de alguns segundos sem multidão ao redor.

    Gwen foi a primeira a abandonar completamente o movimento. Aproximou-se de um dos bancos da praça e se sentou sem cerimônia, apoiando o braço no encosto de metal enquanto cruzava uma perna sobre a outra.

    — De qualquer jeito, a gente não vai pro terminal. — disse.

    Tsugumi soltou um pequeno som pelo nariz, desviando o olhar para frente outra vez. As orelhas felinas deram um movimento curto, inquieto. Ela odiava aquilo. Não exatamente ser simplesmente contrariada. Mas perceber que o impulso dela tinha falhas.

    Niko conhecia aquela sensação bem demais. Porque continuar parado pensando enquanto tempo corria também parecia errado.

    Gabe foi o primeiro a quebrar o silêncio logo depois, apoiando as mãos na cintura enquanto olhava de Gwen para o resto do grupo.

    — Se a gente não vai pro terminal, pra onde a gente vai então?

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota