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    Com dificuldade, apoiou-se na parede e conseguiu ficar de pé, as pernas ainda tremiam como se pudessem falhar a qualquer momento. Niko não tentou ajudá-la — apenas permaneceu pronto caso caísse. Ela deu um passo hesitante até a porta. Outro e mais outro.

    A mão livre alcançou a maçaneta, parando ali por um instante, como se tivesse esquecido completamente o que fazer em seguida. Respirou fundo e girou.

    Abriu apenas uma fresta e espiou para dentro. Então, como se todos os maus sentimentos tivessem fugido do corpo, os olhos dela se iluminaram quando olhou para dentro. Era um alívio quase infantil.

    — Irmãozão!

    E sem esperar qualquer resposta, abriu a porta completamente. Os quatro deram um passo à frente, antes que percebessem, um forte cheiro saiu do cômodo. Um cheiro pesado, extremamente doce e, principalmente, podre. Um odor denso de decomposição avançada que parecia grudar na garganta e no fundo do nariz ao mesmo tempo. Brigitte levou a mão à boca no reflexo, com os olhos arregalados com o horror do que viu no quarto.

    — Ah, merda…

    Lá dentro, atrás da mesa, sentado como se estivesse apenas trabalhando tarde demais, estava um cadáver — ou o que restava dele. A irmã de Valand chamou o corpo de “irmãozão”, logo aquele só poderia ser…

    — Valand…? — comentou Niko, com a voz quase nem saindo, de íris contraídas, completamente chocado.

    A carne do corpo havia desaparecido em grande parte, deixando ossos amarelos parcialmente cobertos por tecido escuro e nojento. Os restos de pele continuavam grudados ao crânio e ao maxilar em manchas secas. Moscas zuniam ao redor, algumas levantando voo ao serem perturbadas pela abertura da porta, enquanto outras permaneciam sobre a mesa, sobre a cadeira, sobre o próprio cadáver. Além disso, pequenas larvas se moviam pelo próprio Valand, invisíveis à distância, mas claras naquele movimento pegajoso.

    Seria um escritório comum — livros, armários, uma mesa central e papéis organizados — se não fosse por aquilo. A garota entrou primeiro, sem hesitação.

    — Oi, irmãozão! — disse, com uma alegria genuína demais para aquele lugar. — Demorei porque tive um dia meio estranho hoje.

    O silêncio atrás dela era absoluto. Ela virou parcialmente o rosto, apontando com a cabeça para o grupo parado na porta.

    — Esses aqui? Ah… são pessoas que eu conheci hoje!

    Ninguém respondeu. Não havia nada para ser dito. Niko permaneceu imóvel ao lado da porta, com os olhos fixos na cena por trás da mesa, como se o cérebro ainda estivesse tentando entender se aquilo era real ou não. Gwen parecia incapaz até de piscar. Já a apatia anterior de Evelyn foi substituída por uma feição de puro nojo.

    Brigitte levou a mão à boca com força, os dedos pressionando os lábios em uma tentativa desesperada de segurar o reflexo que subia pela garganta. O cheiro era insuportável agora que estavam mais perto — quente, doce e pútrido ao mesmo tempo.

    — …Ah, pelos Anjos… — murmurou através da mão, virando o rosto para o lado e respirando pela boca, sem sucesso.

    A garota, alheia à reação deles, deu um passo para o lado da mesa e segurou o braço ferido pelo bom.

    — Ah, e-eles fizeram isso sim com o meu braço… — disse, olhando para o gelo como se só agora tivesse lembrado daquilo. — M-mas não fica bravo, irmão! Foi um acidente…

    O tom era quase infantil. Apaziguador. Como uma criança tentando explicar um arranhão ao pai.

    — Eu também fiz uma coisa meio feia antes, então eu e eles estamos quites, né?

    O zumbido das moscas preencheu o espaço entre as frases. Gwen deu um passo à frente sem perceber que estava se movendo.

    — Que porra é essa…?

    A voz saiu rouca, baixa demais, como se falar alto pudesse tornar aquilo mais real. Ela passou a mão pelos cabelos com força, puxando alguns fios sem notar.

    — O-o qu- com- ahn?… — balançou a cabeça, olhando alternadamente entre a garota e o cadáver. — Isso é algum tipo de piada?

    A irmã de Valand inclinou a cabeça, confusa com o tom.

    — Hm? Não… por quê?

    Gwen avançou mais um passo.

    — Porque ELE TÁ MORTO!

    O grito reverberou nas paredes do escritório, assustando até as moscas, que se dispersaram em um pequeno turbilhão antes de voltar a pousar. A garota piscou várias vezes, como se tentasse processar algo muito complicado.

    — C-como assim…? N-não… meu irmão não tá…

    A mão dela deslizou carinhosamente pelo ombro do cadáver, ignorando completamente a textura rígida e irregular sob os dedos.

    — Ele tá ali.

    Apontou para o rosto parcialmente descarnado com um sorriso pequeno, incerto, como se estivesse apresentando alguém tímido.

    — Eu sei que ele não tá tão ativo, andando pela sala, mas ele tá só cansado…

    Gwen atravessou a distância restante em dois passos. Agarrou a garota pelos ombros.

    — OLHA PRA ISSO! — sacudiu-a, forçando seu rosto na direção da cadeira. — OLHA DIREITO!

    A cabeça da garota balançou sem resistência, os olhos arregalados mais pelo susto do movimento do que pela visão do corpo.

    — E-eu tô olhando…

    — ISSO NÃO RESPIRA! ISSO NÃO SE MEXE! ISSO-TÁ-MORTO! — disse pausadamente, rangendo os dentes forte.

    — Ele tá só dormindo… Ou descansando…

    A resposta veio trêmula, mas firme, como se estivesse repetindo algo aprendido muitas vezes.

    — Às vezes ele fica assim por bastante tempo…

    Gwen congelou no meio do movimento. Os dedos apertaram ainda mais os ombros dela, os nós dos dedos ficando brancos.

    — …Você tá brincando comigo.

    Nenhuma resposta. A garota apenas a encarou de volta, confusa, quase assustada com a intensidade da reação.

    Algo mudou no olhar de Gwen. Seus olhos percorreram o rosto da garota, não procurando mais ameaça… mas compreensão. A raiva incessante que tinha antes foi substituída por um olhar — mesmo que curto — de pena. Ela não parecia estar mentindo. Ela parecia realmente acreditar que o irmão estava vivo. Aquilo poderia ser mais uma mentira, claro, mas parecia ser honesto demais para que ela não demonstrasse nenhuma emoção.

    — …Você… — a voz falhou, baixa demais, perdida entre incredulidade e cansaço.

    Niko deu um passo à frente. Nem rápido, nem agressivo, apenas suficiente para cessar a violência da garota. Colocou a mão sobre o antebraço de Gwen.

    — Chega.

    Ela não soltou. Os olhos ainda estavam presos na garota, como se procurassem desesperadamente por qualquer sinal de lucidez. Quando não encontrou nada, a tensão em seus ombros desmoronou de uma vez. Os dedos abriram. Ela recuou um passo, depois outro, como se precisasse de distância física para respirar.

    A garota permaneceu parada onde estava, esfregando os ombros com cuidado, ainda sem entender completamente o que havia acontecido.

    — Eu… fiz algo errado…? — perguntou, hesitante, olhando entre eles e o cadáver como se esperasse que alguém explicasse as regras do jogo.

    Gwen passou as mãos pelo rosto com força, como se tentasse apagar a própria expressão.

    — A gente não tem tempo pra isso… — disse por fim, seca, mas sem a agressividade anterior. — Só pega o que a gente veio buscar e pronto.

    A irmã de Valand piscou algumas vezes, como se finalmente lembrasse de algo importante.

    — Ah! Verdade!

    Ela se virou imediatamente para a mesa, animada demais para alguém naquela situação.

    — Vocês queriam encontrar a pessoa vendida como escrava, né? Isso tem nos arquivos daqui.

    E, como se nada tivesse acontecido, começou a abrir as gavetas da mesa, empurrando papéis para o lado — tudo enquanto o corpo do irmão permanecia ali, a centímetros de distância, observando-os com os olhos vazios.

    As gavetas rangiam ao abrir, o som áspero ecoando no silêncio pesado da sala. Pastas grossas, envelopes lacrados e folhas soltas eram retirados e recolocados sem muita ordem, como alguém que sabia exatamente o que procurava e não via necessidade de cuidado.

    — Hm… não é esse… nem esse… — murmurava, falando mais para si mesma do que para os outros. — Irmãozão, você mudou a organização de novo?

    Parou por um segundo, inclinando a cabeça como se escutasse uma resposta.

    — Ah… verdade. Faz sentido.

    Continuou a busca. Depois de alguns segundos, ela puxou uma pasta mais fina, de capa amarelada, e abriu rapidamente.

    — Ah! Achei. Esses foram todos os registros da semana. O registro do carinha que vocês querem encontrar com certeza tá aqui!

    Virou-se para eles com um pequeno sorriso, orgulhoso demais para a situação.

    — Qual é o código da pessoa mesmo?

    — C.397.D. — respondeu Niko imediatamente, sem hesitar.

    Ela folheou algumas páginas, com os dedos manchados de poeira e tinta antiga deixando marcas nas bordas.

    — C… C… C… aqui.

    Parou. Os olhos se moveram da folha para o nada por um instante, como se estivesse confirmando mentalmente.

    — Tá aqui. Foi despachada hoje.

    Niko deu um passo à frente.

    — Pra onde?

    — Terminal Via Áurea. — respondeu, como se estivesse lendo uma lista de compras. — Plataforma três… trem de carga 417… vagão de transporte selado… destino final ainda não definido.

    Passou o dedo pela linha seguinte, ainda mantendo a concentração.

    — Horário… dezessete e trinta.

    Brigitte deu dois passos rápidos à frente e arrancou a pasta de arquivos das mãos da garota.

    — EI!

    Os olhos da luminar percorreram o documento com a mesma rapidez de quando lutava. As sobrancelhas se juntaram por um instante, depois relaxaram.

    — …É. — murmurou, devolvendo a pasta sem cerimônia. — Ela não tá mentindo.

    Enquanto Evelyn ouvia o horário de despacho do trem, se lembrou de que o céu já estava escurecendo quando haviam chegado à sede do GV. Contando a invasão, o resgate de Gwen e Niko, o combate com os capangas… eles estavam ali há pelo menos vinte minutos. Talvez mais. Pelo menos meia hora atrasados.

    Ela voltou o olhar para Gwen.

    — Gwen, que hora são?

    A resposta veio quase imediatamente. Gwen já puxava o relógio de bolso do colete, os movimentos secos, automáticos. A tampa abriu com um estalo metálico que soou alto demais no silêncio da sala.

    O ponteiro menor estava avançado bem além da metade superior do mostrador, enquanto o maior descansava pouco depois da marca das vinte minutos. Gwen não disse nada por um segundo.

    — …São dezoito e vinte e três.

    Brigitte franziu o cenho, tirando os olhos do papel e voltando-os para a esotérica.

    — Espera… isso quer dizer que… 

    — Quer dizer que já foi. — Gwen fechou o relógio com força demais. — Faz quase uma hora.

    A tensão na sala mudou de forma instantânea. Não era mais horror ou incredulidade daquele lugar, era uma urgência necessária. Niko virou-se imediatamente para a porta.

    — Ainda podemos alcançar se o trem não tiver saído da zona urbana.

    — Mesmo se tiver saído eu ainda consigo alcançar. — completou Brigitte, já se movendo para a porta.

    Evelyn foi a segunda a correr em direção a saída, depois Niko e, finalmente, Gwen. A irmã de Valand inclinou a cabeça, surpresa com a mudança repentina.

    — Vocês já vão?

    Naquela altura, todos já estavam no corredor, virando a intercessão. Com exceção de todo o grupo, Brigitte se manteve atrás, além de que foi a única que pareceu ouvir a irmã de Valand

    — Sim. Ah, e obrigada pelos arquivos! — disse Brigitte por cima do ombro, colocando as mãos ao redor da boca para ampliar a voz e sem diminuir o ritmo.

    A garota abriu a boca, como se quisesse acrescentar algo, mas desistiu quando a garota saiu de sua vista. Por fim, acabou apenas olhando para o irmão.

    — Acho que eles estão com pressa hoje… — comentou, em tom baixo.

    Nenhuma resposta veio. O corpo continuava lá, imóvel e sem vida. Ela assentiu para si mesma, satisfeita.

    — É… eu também ficaria.

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