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    Eles deixaram o prédio do GV sem olhar para trás. Estavam contra o tempo. Não havia tempo para pedir uma carruagem, usar a Aguro — a égua fantasma de Evelyn — ou qualquer tipo de planejamento elaborado. Se o despacho havia saído às 17h30, cada minuto perdido significava quilômetros de distância a mais para percorrer.

    Brigitte era a única opção possível. Com sua Bênção, ela alcançaria o terminal antes, localizar o trem de carga 417 e sinalizar a posição com um raio visível à distância. Caso não encontrasse o trem, lançaria dois raios para o céu. Assim que vissem o sinal, Niko usaria seu Portal, direto até ela. Esse era o melhor plano para uma situação tão extrema quanto essa.

    Agora, os três aguardavam sobre uma antiga ponte de pedra que atravessava um canal estreito da cidade. A estrutura arqueada permitia uma visão limpa na direção do distrito ferroviário — mesmo que estivessem a quilômetros de distância. Abaixo deles — do lado esquerdo da ponte —, havia uma feira do festival, ainda cheia. 

    Lá embaixo havia barracas coloridas, iluminadas por lanternas de papel e cordões de luz dourada. Uma música distante se misturava ao barulho constante da multidão. Era possível sentir o cheiro de comida quente — carne assada, especiarias e açúcar caramelizado —, contrastando violentamente com a tensão silenciosa na ponte.

    Para qualquer observador, aquela seria uma noite alegre. Mas para eles, isso estava longe de ser verdade.

    Gwen apoiava os cotovelos no parapeito de pedra, olhando para as luzes refletidas na água escura. Entre os clarões, pôde ver seu rosto refletido na água, em especial, os hematomas arroxeados deixados pela irmã de Valand mais cedo.

    Verificou com a língua se os dentes estavam moles, mas para a sua sorte, ainda estavam rígidos na boca como troncos de árvore.

    — …Ótimo. — murmurou, mais para si mesma do que para qualquer outro. — Pelo menos isso.

    Ficou em silêncio por alguns segundos, observando a própria imagem fragmentada pela correnteza lenta.

    — Já vi algo parecido antes. — disse de repente.

    Evelyn não respondeu, mas desviou o olhar do horizonte o suficiente para indicar que estava ouvindo.

    — No orfanato onde eu cresci. Tinha um garoto lá… quase adulto já. — Gwen fez uma pausa curta, procurando a palavra certa. — Ele falava sozinho. Brigava com pessoas que nem ao menos existiam. Às vezes ficava horas encarando a parede como se alguém estivesse do outro lado. Ele brigava com praticamente todo mundo do orfanato, mas nunca chegou a bater em ninguém. Diziam que ele tinha esquizofrenia.

    O tom era casual demais para o conteúdo, como se estivesse descrevendo o clima.

    — E ela… — continuou. — a irmã do Valand ainda parecia mais sã do que aquele garoto. Tipo, ele surtava, gritava, quebrava coisas. Ela não. Ela tratava tudo aquilo como se tudo fosse normal.

    Um grupo de pessoas passou atrás deles, conversando alto e bebendo. Nem chegaram a olhar para Evelyn, Gwen ou Niko. Parecia que eles nem existiam por um momento.

    — Um dia, um dos bebês do orfanato desapareceu.

    O som distante da música da feira pareceu mais alto por um instante, preenchendo o silêncio.

    — Disseram que foi ele. Que tinha matado a criança. — Gwen deu de ombros, embora o gesto fosse rígido demais para parecer despreocupado. — Nunca provaram nada. Nem tentaram, na verdade. A diretoria só fez uma denúncia à polícia depois da gente praticamente ameaçar as funcionárias… Às vezes eu ainda acho que foi algum dos funcionários que fez isso…

    Ela virou o rosto lentamente na direção de Evelyn.

    — Daí mataram o garoto na mesma noite. A facadas. Foram dezoito ou dezenove facadas, não lembro agora.

    Uma pausa.

    — Eles usaram um travesseiro pra abafar os gritos e gemidos de dor dele…

    O barulho da feira voltou a invadir o espaço entre as palavras. Risadas distantes, talheres batendo e uma música alegre demais para a ocasião.

    — Eu tava na parte de cima da beliche. — disse por fim, olhando diretamente para Evelyn. — Vi e ouvi tudo.

    O vento passou pela ponte, levantando levemente alguns fios do cabelo dela. Evelyn a encarou por um longo segundo. Seu olhar suavizou na mesma hora, a boca meio aberta. Ela virou os olhos para o rio e deu um suspiro alto.

    — Isso é… horrível. — respondeu, em tom baixo.

    Gwen soltou um riso curto, sem humor.

    — É. Só não foi pior do que as coisas que aconteceram na minha casa… Não, provavelmente isso foi pior mesmo.

    Silêncio outra vez.

    — Você acha que ela pode voltar ao normal? — perguntou depois, sem olhar diretamente para Evelyn.

    Evelyn demorou um pouco para responder.

    — Não sem ajuda. — disse por fim. — Se até mesmo as coisas mais pequenas precisam de um apoio, imagina as mais complicadas.

    Gwen assentiu devagar, como se já esperasse essa resposta.

    — Verdade… Espero que os deuses ajudem ela nesse caminho de dor.

    O vento noturno passou pela ponte, trazendo o cheiro doce das barracas da feira misturado ao odor úmido do canal. Por alguns segundos, nenhuma das duas falou.

    Mais atrás, Niko permanecia afastado delas, perto do centro da ponte. Imóvel. Estava com o corpo inclinado levemente para frente, como se estivesse pronto para disparar a qualquer momento. Os olhos estavam tão fixos no horizonte que doíam, ele se negava a piscar “sem motivo”. Mal ouvia a conversa das duas e, muito menos, os barulhos do festival.

    Então, de repente, sua postura mudou. Não foi um movimento grande — apenas endireitou a postura, mas sem tirar o foco, pelo contrário, estava ainda mais focado que antes, como se algo finalmente tivesse surgido exatamente onde ele esperava.

    Um clarão violeta surgiu no céu a distância — vários quilômetros à frente. O raio subiu verticalmente além dos telhados, brilhando como uma lança de luz cravada nas nuvens. Um segundo depois, o trovão ecoou pela cidade — apenas um. Brigitte havia encontrado o vagão.

    Gwen e Evelyn se viraram na mesma hora para onde estava o raio.

    — Parece que chegou nossa hora. — comentou Evelyn.

    Niko deu um suspiro audível e já estava se movendo antes do som terminar. Em dois passos rápidos, alcançou Gwen e Evelyn. Sem dizer uma palavra, encostou uma mão firme no ombro de cada uma.

    O ar ao redor deles pareceu comprimir-se. A sensação foi rápida, mas ainda se podia sentir uma forte pressão nos ouvidos, no peito e na própria pele — como se o espaço estivesse sendo dobrado à força. E então desapareceram.

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