Índice de Capítulo

    A sala privativa do palácio estava silenciosa, exceto pelo som controlado das xícaras sendo recolhidas ao fundo.

    Varyn girava o vinho na taça, recostado na cadeira com a calma de sempre.

    — Então estamos de acordo… — ele dizia, olhando o mapa aberto entre ele e Aedin. — As terras do Sul junto com a Baía das Bestas vão ficar sob sua posse, mas as terras férteis ao sul ficarão sob domínio de Elandor.

    Aedin apoiou os dedos sobre a mesa.

    — As terras ao sul alimentam metade das caravanas.

    Varyn sorriu de lado.

    — Exatamente por isso ficarão comigo.

    Do lado da mesa, o escrivão mantinha a postura impecável, pena deslizando sobre o pergaminho com precisão metódica

    Sem expressão.

    Registrando cada concessão.

    Cada provocação.

    Cada pequena tensão entre os dois reis.

    — Você fala como se estivesse me fazendo um favor — Aedin disse, seco.

    — E não estou? — Varyn ergueu uma sobrancelha. — Depois de toda a confusão com Altheria e as bestas, eu diria que estou sendo até generoso garantindo a segurança de uma área produtiva.

    A mandíbula de Aedin travou por um instante.

    Antes que respondesse, a porta se abriu lentamente.

    Apenas o suficiente para anunciar a presença de um mensageiro uniformizado, postura reta, cabeça baixa em respeito.

    — Majestades.

    Ele avançou até Varyn e se inclinou oferecendo uma carta lacrada sobre as duas mãos.

    — Mensagem prioritária dos generais.

    Varyn aceitou o envelope ainda com um sorriso leve.

    — Espero que não seja mais uma cidade reclamando impostos.

    O tom saiu quase divertido.

    Ele quebrou o selo.

    Os olhos correram pelas primeiras linhas.

    E o sorriso congelou no rosto.

    O silêncio na sala mudou de forma.

    Aedin olhou para ele.

    — Problemas?

    Varyn releu o selo interno.

    Depois a assinatura.

    Os dedos apertaram a carta.

    — Esta mensagem é autêntica?

    O mensageiro manteve a cabeça baixa.

    — Confirmada pelos selos dos generais, Majestade.

    Aedin estreitou os olhos.

    — Varyn.

    O rei de Elandor soltou o ar lentamente.

    O humor leve havia sumido por completo.

    — Considerando a situação… cedo ou tarde você saberia.

    Ele ergueu a carta.

    A voz saiu firme, fria.

    — “À Coroa de Elandor. Durante a madrugada, a Guardiã Rumbra’th liderou um ataque coordenado contra as fortalezas de Sal – Reth e Kharun.”

    O olhar de Aedin endureceu.

    O escrivão continuou escrevendo.

    Sem perder um único movimento.

    Varyn prosseguiu.

    — “A ofensiva rompeu as defesas da primeira cidade em menos de uma hora. Confirmamos apoio externo de um conjurador de alto nível, ainda não identificado, capaz de realizar ataques em larga escala capaz de destruir magias defensivas”

    O silêncio apertou a sala.

    Aedin descruzou os braços devagar.

    — Guardiã..

    Varyn assentiu, os olhos ainda na carta.

    — Ela já havia atacado antes. Mas após acharmos o padrão ela não conseguiu mais passar das muralhas.

    Ele ergueu o olhar.

    — Agora destruiu duas cidades fortificadas em uma noite.

    Aedin ficou em silêncio.

    Varyn continuou a leitura.

    — “A rota principal de comércio com os nômades do deserto foi comprometida. As cidades foram completamente inutilizadas.”

    A taça de vinho foi pousada sobre a mesa sem delicadeza.

    — Aquela… — Varyn dobrou a carta lentamente olhando ao redor. — Ela atacou logística.

    O escrivão finalmente ergueu os olhos.

    Apenas por um segundo.

    O suficiente para medir o peso da informação.

    As poções.

    A rota nômade.

    Aedin falou primeiro.

    — Isso vai afetar todo o continente.

    — Vai. — Varyn respondeu seco. — Inclusive vocês.

    A frase pairou no ar.

    — Meu amigo, acho que nossa negociação vai ter que ser adiada — Aedin falou enquanto sinalizava para um dos servos que se apressou em recolher o mapa da mesa.

    — O que ? — Varyn se levantou apoiando uma das mãos na mesa — Aedin… Não me diga que pretende voltar atrás com a sua palavra.

    Aedin franziu o cenho parecendo ofendido.

    — Varyn, acho que não entendeu bem a situação — Ele se aproximou ficando frente a frente — Sua principal fonte de renda foi retirada de você, se você não resolver esse problema Elandor vai colapsar, sem dinheiro vocês não tem comida. Muito menos como defender o seu território quem dirá um território recém adquirido.

    O escrivão abaixou novamente a cabeça, escondendo um leve sorriso.

    A peça havia se movido.

    Se Naira havia atacado naquele momento…

    Se os Guardiões haviam deixado Cervalhion…

    Então o medo que Aedin já escondia só precisava de direção.

    E ele sabia exatamente para onde empurrar.

    A voz do escrivão saiu medida, respeitosa.

    — Majestades… se a Guardiã do Sul recebeu auxílio externo para derrubar duas fortalezas, é razoável considerar que outros reinos possam ser os próximos alvos.

    Aedin virou o rosto lentamente.

    O olhar endureceu.

    — Quem lhe autorizou a falar?

    O escrivão fez uma leve reverência.

    — Perdão Majestade… Apenas achei que seria prudente assumir essa possibilidade.

    O silêncio que veio depois foi pior que a notícia.

    — Deixaremos essa conversa para outro momento… — Aedin olhou para o rei de Elandor — O que me diz?

    — Concordo em adiarmos, mas essa negociação ainda terá que ocorrer.

    — Com toda certeza, Cervalhion ainda vai precisar de ajuda.

    A porta do salão se fechou atrás de Varyn com um som seco.

    O escrivão permaneceu no interior apenas o suficiente para recolher os últimos pergaminhos antes de sair por outra passagem.

    Aedin ficou sozinho por um instante.

    Os dedos ainda repousavam sobre a borda da mesa.

    Imóveis.

    Depois se afastaram devagar.

    Ele soltou o ar pelo nariz, virou-se sem dizer mais nada aos servos e deixou a sala.

    Os corredores do palácio já estavam vazios.

    As tochas nas paredes queimavam baixo, lançando sombras longas sobre as colunas de pedra.

    O som dos passos ecoou em ritmo constante enquanto ele avançava pelo corredor principal.

    Uma criada se curvou ao vê-lo passar.

    Dois guardas abriram passagem diante da escadaria interna.

    Aedin não diminuiu o passo.

    Subiu os degraus.

    Virou no corredor.

    Seguiu até a ala privada.

    A mão fechou na maçaneta da porta dos aposentos por um segundo além do necessário.

    Então ele entrou.

    O quarto estava escuro, exceto pela luz baixa das brasas ainda vivas na lareira.

    A capa foi deixada sobre a poltrona.

    O machado estava apoiado junto à parede.

    Aedin afrouxou o colarinho com um movimento seco, caminhando até a janela.

    Lá fora, parte Cervalhion dormia sob um céu sem lua.

    Ele ficou alguns segundos imóvel.

    Depois fechou as cortinas.

    A sombra junto à estante se moveu.

    Aedin virou o rosto no mesmo instante.

    A escuridão se condensou devagar até tomar a forma de um velho apoiado em uma bengala.

    — Você aparecer tão tarde e ainda nos meus aposentos não é um bom sinal..

    A bengala tocou o chão uma vez.

    — De fato Majestade

    A voz veio lisa.

    Fria.

    Sem pressa.

    Como uma verdade matemática sendo apresentada.

    Aedin ficou parado.

    — O que aconteceu?

    — O Guardião do Norte aconteceu.

    Só o nome.

    Nada além.

    Aedin fechou a mão ao lado do corpo.

    — O que tem ele?

    O velho deu um passo curto.

    — Aparentemente ele e o seu grupo foram os responsáveis pelo ataque a Elandor e ele já está se preparando para agir em Cervalhion.

    O silêncio ocupou o quarto.

    Aedin virou de frente.

    — Explique.

    — A aproximação com a Arquimaga não foi acidental. — a bengala girou levemente entre os dedos dele. — Conversas privadas. Histórias pessoais. Informações sobre os Guardiões. Padrões consistentes de confiança e hoje ele a entregou um artefato que aumenta o poder dela, acredito que seja a ultima etapa para agir.

    Aedin franziu o cenho.

    — Maelis jamais faria isso.

    — Majestade, lembre-se que estamos falando da noiva do príncipe que agiu contra a coroa no baile e após isso devido a aproximação com o Guardião.

    A frase saiu sem alteração no tom.

    Aedin deu um passo na direção dele.

    — Não esperava uma noticia dessas agora…

    O velho continuou.

    — Eu vou confirmar a extensão dessa influência esta noite.

    — Como?

    A bengala parou.

    — Extraindo a informação diretamente dela.

    Aedin olhou fixamente para a figura.

    — E eu?

    A resposta veio imediata.

    — Se prepare.

    A sombra começou a subir pelas pernas do velho.

    Dissolvendo a forma.

    — Ian não é apenas um Guardião.

    O rosto começou a desaparecer.

    — É uma ameaça estrutural a tudo.

    A última parte a sumir foi a bengala.

    O quarto voltou a ficar silencioso.

    Aedin permaneceu diante da janela.

    — Parece que vamos ter que agir antes do festival…


    O escritório da Arquimaga permanecia iluminado.

    Mapas abertos.

    Pergaminhos empilhados.

    Um chá esquecido ao lado de relatórios.

    A porta recebeu duas batidas curtas.

    — Entre.

    O escrivão entrou com uma carta lacrada nas mãos.

    Ele parou diante da mesa e estendeu o documento.

    — Senhorita Maelis.

    — Senhor Jhones, que incomum receber uma visita sua.

    — Tive que vir pessoalmente, tenho noticias nada boas. — O escrivão falou entregando a carta com selo.

    Maelis quebrou o selo e leu em silêncio.

    A mão correu até outro mapa.

    Depois outro.

    Ela puxou um relatório da pilha.

    — OK… Isso vai ser problemático, as rotas do deserto vão travar em menos de três dias.

    O escrivão permaneceu parado.

    — Os estoques de cura serão afetados?

    — Claro. — ela respondeu sem erguer os olhos. — Vou precisar redistribuir reservas e revisar consumo militar antes do amanhecer.

    Ela separou mais dois pergaminhos.

    — Obrigada por trazer isso diretamente.

    O escrivão assentiu.

    — Achei melhor não esperar o conselho.

    Maelis finalmente ergueu os olhos.

    — Fez bem.

    Ele deu um passo para trás.

    — Então não vou tomar mais o seu tempo.

    E estendeu a mão.

    — Sempre às ordens da coroa.

    Ela apertou.

    O toque foi breve.

    O homem se virou para sair.

    Antes da porta, Maelis falou:

    — Obrigada.

    Ele parou.

    Virou-se.

    — Tenha uma boa noite, Arquimaga.

    O escrivão já estava na porta.

    — Você também.

    A porta se fechou.

    O escritório voltou ao silêncio.

    Maelis puxou outro mapa para perto.

    A ponta dos dedos passou pelo bracelete antes de voltar ao trabalho.

    No corredor, o som dos passos do escrivão desapareceu na curva.

    O escritório permaneceu em silêncio por mais algum tempo.

    Maelis ergueu os olhos para o relógio ao lado da estante.

    Ela soltou o ar pelo nariz e recostou na cadeira.

    — Já passou da hora…

    A mão deslizou pelos relatórios, empilhando os últimos pergaminhos.

    O mapa do deserto foi dobrado.

    As ordens de redistribuição deixadas prontas para a manhã.

    O olhar passou de relance pelo bracelete no pulso.

    Depois pela xícara de chá já fria.

    E, por um instante, um pequeno sorriso surgiu.

    — Melhor ir descansar…

    Ela se levantou.

    A cadeira arrastou de leve no piso de pedra.

    Uma luminária foi apagada.

    Depois outra.

    O escritório mergulhou em sombras parciais, restando apenas a última chama ao lado da porta.

    Maelis levou a mão até ela.

    E soprou.

    A escuridão veio inteira.

    No mesmo instante, o chão desapareceu sob seus pés.

    O corpo reagiu antes do pensamento.

    Chamas explodiram pela mão, mas não pareciam iluminar o ambiente.

    O mundo ao redor distorceu.

    As paredes do escritório dobraram como reflexos sobre água.

    A estante se alongou.

    A mesa afundou na escuridão.

    O ar ficou espesso.

    Pesado.

    Errado.

    — Não…

    A palavra saiu junto com outra descarga de mana, uma tentativa de explodir algo e conseguir ajuda.

    Por um segundo, o contorno da sala tentou voltar.

    A porta.

    A mesa.

    As velas.

    Tudo rachou outra vez.

    O som morreu.

    O chão retornou num impacto seco sob os pés.

    Não era pedra.

    Era terra quebradiça.

    Rachada.

    Vermelha.

    Maelis ergueu o rosto.

    O céu acima era um vermelho profundo, cortado por nuvens escuras que se moviam devagar.

    Sem vento.

    Ela deu um passo para trás.

    A mão se fechou em um punho.

    — O que?

    A respiração dela encurtou.

    O corpo girou procurando qualquer saída.

    Qualquer ruído do mundo real.

    Nada.

    Só o solo rachado até onde a vista alcançava.

    E então a névoa surgiu.

    Primeiro rastejando pelas fissuras do chão.

    Depois subindo em espirais lentas.

    Cinza.

    Densa.

    Viva.

    — Bem-vinda Arquimaga Maelis.

    Maelis recuou um passo.

    — Um ataque metal?.

    A névoa avançou outro.

    — Exatamente… fico feliz que já tenha notado, isso facilita as coisas.

    A névoa começou a tomar forma.

    O contorno de um corpo.

    Braços.

    Rosto.

    Cabelos longos.

    O próprio rosto dela.

    Ainda disforme, mas ficou claro que estava espelhando ela.

    — Impressionante… — a voz saiu da fumaça, calma, quase admirada. — Mesmo sob um ataque abrupto, sua primeira reação foi contra-atacar.

    A forma avançou mais um passo.

    O próprio rosto de Maelis começava a surgir entre as espirais cinzentas.

    — Isso explica por que ele escolheu você.

    Maelis manteve a postura, os dedos ainda carregados de mana.

    — Quem é você?

    A sombra inclinou a cabeça.

    — Neste momento? Ninguém que importe.

    O solo rachado estalou sob outro passo.

    A cópia dela parou a poucos metros.

    — Então vou reduzir isso ao essencial.

    O sorriso surgiu.

    Perfeito.

    Idêntico ao dela.

    — Você me mostra o que o Guardião compartilhou… e desperta acreditando que tudo isso foi apenas um pesadelo.

    Uma pausa curta.

    O céu vermelho pareceu pulsar acima deles.

    — Ou eu separo a sua mente em camadas, uma por uma, até encontrar sozinho.

    A figura abriu levemente os braços.

    — O resultado final permanece o mesmo.

    Os olhos da cópia prenderam os dela.

    — A única variável que ainda me interessa… é quanto sofrimento você pretende adicionar ao processo.

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