Índice de Capítulo

    A areia afundava sob os pés a cada passo.

    O vento soprava forte entre as dunas, levantando pequenas espirais douradas que batiam contra o rosto e se prendiam ao tecido gasto que Maelis usava sobre a cabeça.

    Mesmo dentro da memória, o cansaço daquela travessia ainda parecia real.

    A garganta seca.

    Os lábios rachados.

    O peso do sol acumulado na pele.

    À frente, a caravana avançava em fila lenta, desenhando um corte escuro sobre o dourado do deserto.

    Dromedários carregavam baús, tecidos enrolados, odres de água e caixas amarradas por cordas grossas.

    Os homens da tribo caminhavam como se aquele calor não os atingisse.

    Acostumados.

    Maelis ergueu os olhos e viu o líder diminuir o ritmo até ficar ao lado dela.

    O homem tinha os ombros largos, a barba curta coberta por areia fina e a khopesh curva presa à cintura.

    A lâmina semicoberta deixava ver linhas avermelhadas pulsando fraco pelo metal.

    Runas de fogo.

    Naquela época, ela havia achado aquilo fascinante.

    — Você ainda está respirando errado — ele comentou, sem desviar os olhos do horizonte.

    Maelis franziu o cenho.

    — Respirando?

    Ele soltou um pequeno riso.

    — Andar no deserto é como estar em uma luta, você precisa controlar a sua respiração.

    A frase saiu como se fosse um ensinamento antigo.

    — Se você tenta lutar contra ele, ele rouba sua água, seu ar e suas pernas.

    Ele levou a mão até o próprio peito.

    — Respire de forma controlada e pise onde os da frente estão pisando.

    Maelis tentou imitar.

    Inspirou.

    Expirou.

    O corpo pareceu responder melhor.

    O homem assentiu.

    — Viu?

    Ela ficou alguns segundos em silêncio antes de perguntar:

    — Você sempre viveu aqui?

    A pergunta arrancou um sorriso lateral dele.

    — Sempre não. Ninguém vive sempre em lugar nenhum.

    A mão dele repousou sobre o cabo da khopesh.

    — Mas nasci no deserto. Meu povo vive entre oásis, ruínas e rotas que os reinos do norte nem sabem que existem.

    Maelis olhou para a espada.

    — E isso?

    Ele percebeu o olhar.

    Puxou a lâmina alguns centímetros.

    A curva do metal brilhou dourada, e as runas vermelhas pulsaram como brasa viva.

    — Nosso povo não luta como os soldados da sua terra.

    Ele ergueu a arma o suficiente para que ela visse melhor as inscrições.

    — Vocês lançam magia para fora.

    A ponta da khopesh brilhou em calor.

    — Nós colocamos a magia dentro da arma.

    A runa percorreu toda a lâmina num fluxo contínuo.

    — Assim a lâmina faz parte do feitiço.

    Ele tornou a guardar a espada.

    — Cansa menos. Mata mais rápido.

    Os olhos de Maelis acompanharam o movimento com fascínio genuíno.

    Naquele ponto da vida, aquilo parecia outro mundo.

    Outra possibilidade.

    Outra vida.

    O líder olhou de volta para ela.

    — Seu pai sabia lutar?

    A pergunta veio simples.

    Maelis desviou os olhos para a areia.

    — Sabia caçar.

    A resposta saiu baixa.

    O homem assentiu sem insistir.

    Depois apontou à frente.

    — Então observe.

    Ela ergueu o rosto.

    No topo da próxima duna, o horizonte mudou.

    Primeiro vieram as palmeiras.

    Depois o brilho azul da água.

    E então a cidade.

    Maelis parou sem perceber.

    Estruturas de pedra clara erguidas ao redor do grande olho d’água.

    Pontes suspensas ligando construções.

    Terraços.

    Torres baixas.

    Mercados cobertos por tecidos coloridos.

    Fumaça de cozinhas subindo ao céu dourado.

    Era grande demais.

    Vivo demais.

    Impossível para algo existir no meio daquele vazio.

    — Isso… — a voz dela saiu quase num sussurro — é o Oásis?

    O líder sorriu.

    — Isso é Al-Zafir.

    Uma pausa curta.

    — O coração do deserto.

    O vento passou entre eles.

    Quanto mais a caravana se aproximava, mais Maelis percebia que Al-Zafir era muito maior do que parecera do alto da duna.

    As construções circulares de pedra clara se espalhavam ao redor do grande espelho d’água central.

    Pontes estreitas ligavam telhados e passarelas.

    Tecidos coloridos balançavam presos entre postes altos.

    O cheiro de especiarias, couro e comida quente se misturava ao ar seco do deserto.

    Pessoas cruzavam as ruas em mantos claros, comerciantes gritavam ofertas em dialetos que ela não conhecia, e ao redor do lago crianças corriam entre barris de água e pequenas embarcações rasas.

    Era uma cidade viva.

    Improvável.

    Bonita demais para ter nascido no meio da areia.

    O líder percebeu o modo como ela olhava ao redor.

    — Impressionante na primeira vez, não é?

    Maelis assentiu sem conseguir esconder o fascínio.

    — Eu nunca imaginei algo assim.

    Ele soltou um pequeno riso.

    — Nem deveria. Os reinos acham que o deserto é só morte.

    A mão dele fez um gesto amplo, indicando a cidade.

    — Mas aqui a água vale mais que ouro. Tudo gira em torno dela.

    Maelis acompanhou com os olhos o grande olho d’água no centro.

    — E todo mundo divide?

    — As tribos dividem o oásis. — ele explicou enquanto guiava a montaria entre as ruas. — Água, comércio, rotas, informação. Quem controla o fluxo sobrevive.

    A frase ficou na mente dela.

    Controle do fluxo.

    Mesmo anos depois, ainda havia algo naquela lógica que fazia sentido.

    A caravana desacelerou ao entrar na área interna da cidade.

    Guardas armados com lanças curvas e braceletes de bronze observavam a passagem.

    O líder ergueu a mão para Maelis.

    — Desça.

    Ela obedeceu.

    Os pés tocaram a pedra lisa e quente.

    Por um momento, tudo o que ela conseguiu fazer foi olhar.

    As estruturas ao redor do lago eram mais refinadas do que o restante da cidade.

    Escadarias largas.

    Pilares entalhados.

    Varandas cobertas por véus finos que dançavam com o vento.

    No alto, um palácio baixo de pedra dourada dominava a margem do oásis.

    O líder percebeu o olhar dela.

    — A residência do xeique.

    Maelis franziu a testa.

    — Xeique?

    Ele assentiu.

    — Cada grande oásis tem um governante. Aqui, ele protege as rotas, a água e os acordos entre as tribos.

    A explicação pareceu natural.

    Coerente, mas Maelis sabia o que viria.

    Naquela lembrança a criança não teve motivos para desconfiar.

    — Posso ver mais de perto? — ela perguntou.

    O homem sorriu.

    — Vá.

    A mão dele apontou para uma escadaria lateral.

    — Só não se afaste demais.

    Maelis assentiu e subiu os degraus de pedra quase sem sentir o cansaço.

    Do terraço superior, a visão da cidade era ainda mais absurda.

    Mercadores.

    Animais.

    Fontes menores.

    Tecidos coloridos estendidos entre torres.

    Oásis e cidade se misturando como se o deserto tivesse decidido esconder um segredo no próprio coração.

    Ela avançou pelas ruas, fascinada com a estrutura, até ter dificuldade de retornar a caravana.

    Foi então que ouviu vozes do outro lado de uma parede baixa.

    A do líder.

    — Os demais seguem para o setor externo.

    Outra voz respondeu.

    Mais grave.

    — Quantos?

    — Sete. Mas tenho uma dessa vez que o xeique vai gostar, uma jovem de cabelo de fogo, do outro lado do continente.

    Maelis parou sem respirar.

    A voz grave tornou a falar.

    — E onde ela está?

    A resposta veio logo depois.

    — Vai para os aposentos internos.

    O sangue gelou.

    O Lider continuou.

    — O xeique pediu alguém jovem.

    A voz do guarda soltou um ruído de aprovação.

    — Boa escolha.

    Uma pausa.

    — Ela é bonita. Vai valer bem mais do que os outros.

    O mundo pareceu afunilar.

    O som do mercado abaixo se distanciou.

    A água do oásis.

    As vozes.

    O vento.

    Tudo ficou estranho.

    Errado.

    A mente dela tentou negar primeiro. se a Maelis adulta conseguisse abarcaria aquela jovem.

    Mas aquilo… era só uma memoria de muito tempo atrás.

    Não.

    Ela não podia fazer isso.

    A voz do líder, tão calma, atravessou a parede outra vez.

    — Os demais podem seguir para as tendas de serviço.

    Não restava dúvida.

    Ela havia sido vendida.

    Maelis recuou um passo.

    Depois outro.

    O corpo da lembrança tremia.

    Mas a Maelis real já pensava mais rápido.

    A primeira âncora ainda não havia surgido.

    Precisava sobreviver.

    Precisava encontrar um ponto de peso antes que o intruso entendesse a lógica da memória.

    Um guarda apareceu na base da escadaria.

    — Ei!

    Ela virou no mesmo instante.

    O primeiro grito veio atrás dela.

    — Parem a garota!

    Maelis não olhou para trás.

    Os pés bateram forte na pedra quente da escadaria enquanto ela descia os degraus quase tropeçando.

    À esquerda, comerciantes puxaram suas mercadorias para o lado.

    Uma mulher gritou ao vê-la passar.

    Um homem tentou segurar seu braço.

    Ela se esquivou por instinto e mergulhou na primeira viela estreita que encontrou.

    O coração martelava tão forte que abafava o resto do mundo.

    Oásis.

    A Cidade da esperança…

    Tudo tinha virado uma armadilha.

    A voz do líder ainda ecoava na cabeça.

    Ela vai para os aposentos internos.

    A sensação era pior do que medo.

    As lagrimas começaram a brotar sem aviso, turvando a visão junto com a sensação gélida no peito.

    Passos metálicos soaram atrás dela.

    Guardas.

    Mais rápidos do que deveriam.

    Maelis virou o corpo no corredor estreito e avistou uma sequência de caixas empilhadas ao lado de um muro baixo.

    Sem pensar, subiu na primeira.

    A madeira rangeu.

    A segunda deslizou.

    Ela usou o impulso para agarrar a borda de uma sacada.

    Os dedos escorregaram por um segundo na pedra lisa.

    Depois firmaram.

    Puxou o próprio corpo para cima.

    — Lá em cima!

    O grito veio da rua.

    Maelis correu pelo terraço, saltou para o telhado vizinho e quase perdeu o equilíbrio ao tocar a superfície inclinada de argila.

    A cidade se abriu abaixo dela.

    Pontes.

    Mercados.

    Escadarias.

    Guardas se espalhando como peças num tabuleiro.

    Ela respirou fundo uma única vez.

    Precisava sair do campo de visão.

    Os olhos correram pelos telhados em busca de uma rota.

    Foi então que sentiu.

    Uma vibração diferente no fundo da lembrança.

    Sutil.

    Mas profunda.

    A mana respondeu antes mesmo do pensamento.

    Uma casa.

    Não muito distante.

    Velha.

    Silenciosa.

    Mais pesada do que as demais.

    A primeira âncora.

    O coração dela acelerou de outro jeito.

    Não por medo.

    Por estratégia.

    A Maelis real reconheceu no mesmo instante o valor daquele ponto.

    Se firmasse a presença ali, conseguiria segurar parte da memória mesmo que o Andarilho entendesse o padrão.

    Ela espalhou mana por baixo dos telhados enquanto continuava correndo.

    Discreta.

    Rastejando pelas paredes de pedra.

    A âncora pulsou mais forte.

    À frente, uma passagem estreita ligava dois telhados.

    Maelis saltou.

    O pé tocou a borda.

    A telha cedeu.

    O corpo despencou.

    Caindo de ombro sobre um piso coberto por tapetes, rolando entre almofadas e pergaminhos espalhados.

    O impacto roubou o ar.

    Por um segundo, tudo ficou parado.

    O cheiro veio primeiro.

    Tinta.

    Papel.

    Canela.

    Óleo queimado.

    Livros.

    Muitos livros empoeirados.

    A mana dela afundou no lugar como raízes.

    Firmou.

    A primeira âncora foi presa.

    Guardas passaram correndo do lado de fora.

    A porta se abriu antes que ela conseguisse levantar.

    Uma voz masculina preencheu o cômodo.

    Calma.

    Sem surpresa.

    — Que estrago você fez no meu telhado garota.

    Maelis ergueu os olhos.

    Um homem jovem estava parado à entrada do outro aposento.

    Pouco mais de vinte anos.

    Roupas simples, mas bem cuidadas.

    As mangas dobradas até os antebraços.

    Um livro ainda aberto em uma das mãos.

    Os olhos estavam fixos nela.

    Atentos demais.

    Como se observassem mais do que a cena.

    Ele inclinou levemente a cabeça.

    — E, pelo que ouvi lá fora… imagino que não tenha sido um acidente.

    Maelis tentou se erguer rápido demais e a tontura a fez apoiar a mão no chão.

    — Eles vão me vender.

    A frase saiu antes que pudesse pensar,

    O homem a observou por um segundo longo.

    Passos soaram do lado de fora.

    Guardas se aproximando.

    O jovem fechou o livro devagar.

    Levantou a mão livre.

    Uma runa azul brilhou entre os dedos.

    O som dos passos do lado de fora desviou.

    Como se a presença deles tivesse sido empurrada para outro corredor.

    Silêncio.

    Ele voltou a olhar para ela.

    — Então acho que você entrou na casa certa.

    Maelis franziu a testa.

    — Vai me entregar?

    O canto da boca dele ergueu num quase sorriso.

    — Se fosse entregar, já teria aberto a porta.

    Os olhos dele desceram por um segundo até a mão dela ainda apoiada no chão.

    A mana residual ainda vibrava no ambiente.

    Ele percebeu.

    Claro que percebeu.

    — Essa energia… — ele disse, agora mais interessado — você sente isso há quanto tempo?

    Maelis hesitou.

    — Eu não sei do que está falando.

    O homem fechou o livro e caminhou até a mesa.

    — Sabe, sim.

    Ele pousou o volume entre frascos e pergaminhos.

    — E se correu até aqui sem perceber, então talvez o deserto tenha acabado de lhe entregar algo mais valioso do que liberdade.

    Finalmente ele voltou o rosto para ela.

    A voz saiu precisa.

    Quase gentil.

    — Me diga, garota… você quer aprender magia?

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