Capítulo 209 - Utilidade III
Brigitte soltou um pequeno suspiro antes de se aproximar de um dos bancos da praça e se jogar ao lado de Gwen sem qualquer elegância. O banco rangeu baixo sob o peso das duas.
— Hum, essa é uma boa pergunta. — respondeu a luminar.
Matteo preferiu o outro banco logo à frente, sentando com cuidado enquanto ajustava o casaco escuro sobre os joelhos. Assim que parou de andar, levou o punho fechado até a boca e tossiu discretamente duas vezes.
Niko permaneceu de pé perto do banco, com os olhos perdidos em algum ponto além da fonte no centro da praça enquanto o raciocínio continuava se reorganizando dentro da cabeça dele e as ideias ganhavam forma.
— A gente precisa é de algum lugar com registro interno. — disse Matteo, ajustando os óculos enquanto observava a praça ao redor. — Algo administrativo e burocrático, que tenha as informações que precisamos.
— A prefeitura? — sugeriu Gabe imediatamente.
— Não. Tem informação demais. — respondeu Niko antes mesmo de perceber que estava falando.
O grupo virou o olhar para ele, mas o pensamento já tinha avançado. Logo em seguida, explicou o raciocínio.
— Prefeitura registra praticamente tudo da cidade. Transporte, comércio, impostos, obras públicas, licenças, manutenção… — disse enquanto passava lentamente o olhar pelas lanternas penduradas acima da praça. — Se a gente for pra lá, vai acabar preso num monte de documento sem relação nenhuma com o tráfico sapiente.
Ele fez uma pequena pausa, organizando melhor a própria linha de pensamento conforme falava.
— O que a gente precisa não é de toda a informação. É de informação concentrada em menos espaço. Um lugar pequeno o suficiente pra esconder lixo sem chamar atenção.
A palavra saiu naturalmente. Lixo. O mesmo termo voltou à mente junto da imagem dos corpos afundando no rio escuro poucas horas atrás. O saco deslizando pela água. O som abafado do impacto. Operação grande demais sempre produzia descarte. Sempre.
— Junta comercial talvez? — sugeriu Jakob.
— Ainda é muito grande. — respondeu Gwen imediatamente.
— Arquivo ferroviário? — tentou Matteo outra vez.
Niko balançou a cabeça em negativa antes mesmo da frase terminar completamente.
— Também não.
A resposta veio mais rápida dessa vez.
— Arquivo ferroviário guarda décadas de registro. — explicou. — Linhas antigas, carga, manutenção, rota, funcionário aposentado, documentos mortos… provavelmente tem papel suficiente lá pra passar uma semana inteira procurando sem chegar em nada.
Ele cruzou lentamente os braços.
— Além disso, arquivo é feito pra armazenar informação. Não pra operar coisa ilegal. Se alguém tá movendo tráfico sapiente usando a ferrovia, então precisa de um lugar que lide com gente de confiança e boa organização… alguma coisa que continue funcionando paralelamente à superfície.
Niko ficou em silêncio enquanto escutava as sugestões cruzando a praça. Os olhos passaram distraidamente pelas janelas dos prédios ao redor, acompanhando os reflexos tremidos de lanternas no vidro.
O pensamento continuava afundando mais fundo. Criminosos escondiam rastros, isso era o esperado. Mas burocratas… burocratas criavam rastros automaticamente. Escala de trabalho. Assinatura. Entrada. Saída. Falta. Transporte. Justificativa. Horário. Quanto maior a instituição, mais papel ela produzia. E papel significava informação. Precisavam de informação, não geral, mas concentrada.
Aquele fato reorganizou completamente a investigação. Não precisavam encontrar criminosos primeiro. Precisavam encontrar o sistema que sustentava os criminosos.
Brigitte foi a que chegou nessa conclusão primeiro e quem finalmente interrompeu a sequência de sugestões.
— Um sindicato… — sugeriu ela, tirando a mão do queixo e virando o rosto para o grupo. — A gente pode no Sindicato dos Ferroviários de Daurlúcia.
Ela se levantou logo depois, já mais animada com a própria linha de raciocínio. A ponta da lança bateu de leve no banco enquanto começava a gesticular.
— Faz sentido, vai. Sindicato controla trabalhador. Trabalhador gera papel. Muito papel. — disse, apontando os dedos enquanto organizava a lógica em voz alta. — Escala, turno, falta, troca de horário, reclamação, afastamento, pagamento…
Os olhos dela começaram a ganhar aquele brilho específico de alguém percebendo que a própria ideia realmente era boa.
— E o Sindicato Ferroviário costuma ser um inferno burocrático. Um monte de sala, um monte de documento, um monte de gente escondendo coisa dos outros.
— Sem contar que metade deles provavelmente odeia a própria administração ferroviária. — comentou Evelyn do lado da praça. — Gente ressentida fala demais quando encontra alguém fazendo a pergunta certa.
Brigitte imediatamente apontou para ela.
— Exatamente! E duas coisas: uma, os sindicatos foram legalizados recentemente em Luminara, ou seja, os documentos vão ser recentes também. Segundo, sindicato grande sempre acaba envolvido em coisa suspeita. Corrupção, propina, pressão política, greve comprada…
Ela abriu um pequeno sorriso convencido.
— É o lugar perfeito!
A praça caiu em silêncio por alguns segundos depois da declaração dela. Não um silêncio vazio, mas um silêncio de raciocínio. O grupo começou a reorganizar mentalmente a ideia, procurando falhas quase por instinto. Niko percebeu isso nos pequenos movimentos: Matteo ajustando os óculos outra vez enquanto pensava; Jakob estreitando os olhos; Gabe inclinando levemente a cabeça como alguém tentando desmontar uma estrutura peça por peça.
— Mas sindicato não fecha essa hora? — perguntou Gabe primeiro.
Brigitte respondeu quase imediatamente:
— Administração principal talvez. Mas lugar sindical nunca fica realmente vazio durante festival, ainda mais perto de operação ferroviária grande. Sempre tem vigia, funcionário noturno ou alguém fumando e reclamando da vida em algum corredor.
— Ainda parece muito grande. — comentou Jakob.
— Não tanto quanto prefeitura. — rebateu Brigitte. — E diferente da prefeitura, o sindicato concentra exatamente o tipo de informação que a gente quer.
Ela ergueu a mão, contando nos dedos.
— Trabalhador atual. Turno atual. Escala atual. Gente trabalhando agora.
Matteo inclinou levemente o corpo pra frente no banco.
— Mas se tiver envolvimento criminoso, eles podem esconder os registros.
— Sim. — respondeu Brigitte sem hesitar. — Mas esconder coisa dentro de burocracia é diferente de apagar coisa completamente. Sempre sobra rastro. Principalmente documentos recentes. É bem difícil de apagar completamente eles.
A resposta veio rápida demais pra parecer improvisada. Ela realmente entendia como instituições funcionavam.
Niko percebeu isso enquanto observava a discussão continuar. Brigitte falava com uma confiança diferente agora — menos dramática, menos impulsiva. Parecia alguém confortável naquele tipo específico de raciocínio. Quase irritantemente confortável.
— Além disso… — continuou ela — sindicato não funciona só na base de papel. Funciona na base de gente trocando informação. E isso é muito mais fácil de explorar.
Gabe abriu a boca de novo, provavelmente tentando encontrar outro problema, mas Gwen falou antes.
— É uma boa ideia irmos pra lá.
A frase entrou na conversa com tanta naturalidade que interrompeu o resto imediatamente. Tsugumi virou o rosto na direção dela na mesma hora.
— Huh?
A surpresa foi genuína, porque até então Gwen só estava analisando, mas, de repente, concordou em algo. Niko sentiu a própria linha de raciocínio se fechar quase instantaneamente depois disso. A resistência que ainda existia na cabeça dele simplesmente desapareceu.
Se Gwen estava concordando tão rápido, então provavelmente ela já tinha passado por todas aquelas possibilidades muito antes do resto.
— Se a Gwen falou, então a gente vai pra lá. — respondeu ele quase de prontidão.
Tsugumi ficou olhando de um para o outro por um segundo inteiro. Depois estreitou os olhos.
— Legal saber que as decisões agora são aprovadas pelo Conselho da Gwen.

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