Capítulo 210 - Utilidade IV
Brigitte abriu um pequeno sorriso de canto enquanto Gwen permanecia exatamente igual, sentada no banco da praça com uma das pernas cruzadas e o braço apoiado no encosto de madeira, como se a conversa estivesse acontecendo alguns metros longe demais para realmente exigir reação.
Aquilo pareceu irritar Tsugumi ainda mais. Porque Gwen nem tentou defender o próprio ponto. Nem precisava, parecia que todos confiavam mais naquela esotérica barata do que na amiga. A garota-gato cruzou os braços com força.
— Ainda acho perda de tempo. — disse, balançando lentamente a ponta do rabo atrás do corpo. — A resposta real tá no terminal, meus sentidos de gato dizem isso.
A praça permanecia calma ao redor deles, distante do centro do festival, mas não silenciosa. As lanternas penduradas entre os postes antigos balançavam suavemente acima do grupo. Niko observou Tsugumi continuar.
— A gente já sabe que eles operam lá. — insistiu ela. — Então por que ficar rodando a cidade atrás de papel inútil?
— Porque entrar num lugar sem saber o que procurar não é investigação. — respondeu Gwen, apontando para a oriental.
A voz dela saiu baixa, calma, quase fria. Cruzou os braços na sequência.
— É desespero disfarçado de ação, e nós não fazemos isso. — ela disse as três últimas palavras balançando a cabeça para a esquerda, depois para a direita, e por fim para a esquerda de novo.
O silêncio caiu rápido demais depois da frase. Tsugumi imediatamente virou o rosto na direção dela.
— E ficar rodando prédio burocrático enquanto a resposta real tá no terminal também não parece exatamente eficiente.
As orelhas felinas deram outro movimento inquieto.
— A gente já sabe onde eles operam. — continuou ela. — O dríade passou por lá. Era para o trem sair de lá. Os trabalhadores estão lá. Então por que a gente tá se afastando do lugar onde as coisas realmente acontecem?
Agora a tensão finalmente pareceu mudar de forma, e Niko percebeu isso no mesmo instante. Até então parecia só discussão de estratégia. Um plano melhor contra um plano pior. Mas aquilo já tinha passado desse ponto. O problema agora era outro.
Tsugumi acreditava em proximidade. Quanto mais perto da operação, maiores as chances de encontrar alguma coisa útil. Ver gente nervosa. Escutar conversas suspeitas. Encontrar movimentação estranha. O instinto dela funcionava assim: seguir presença, movimento, comportamento.
Gwen não. Gwen parecia pensar como alguém desmontando uma máquina. Não importava onde o trem estava, o que importava quem mantinha o trem funcionando. Quem assinava turno. Quem reorganizava escala. Quem precisava explicar ausência, carga ou mudança de rota.
As duas estavam tentando chegar no mesmo lugar, só que estavam seguindo rastros diferentes. E isso tornava a discussão pior. Porque ninguém ali estava realmente errado.
Evelyn foi quem interrompeu antes que o clima endurecesse mais. Ela continuava encostada num dos postes próximos da praça, parcialmente coberta pela sombra projetada pelas lanternas acima. Os braços cruzados, expressão cansada, observando os dois lados da discussão como alguém assistindo um erro antigo acontecer de novo.
— Só que invadir lugar grande sem direção nenhuma realmente é idiotice. — disse.
Tsugumi virou o rosto imediatamente, pronta para responder, mas Evelyn continuou antes.
— E operação ilegal quase nunca deixa a parte importante perto da parte visível.
A praça caiu em silêncio outra vez.
— Se eu quisesse esconder alguma coisa usando a ferrovia… — continuou Evelyn — eu também faria parecer que o terminal é o centro da operação.
O peso da frase veio devagar. Niko sentiu isso quase fisicamente, porque aquilo reorganizava o problema inteiro de novo. O Terminal podia não ser a origem, mas podia ser a vitrine.
Evelyn soltou o ar devagar pelo nariz antes de completar:
— Lugar onde a coisa acontece raramente é o lugar onde alguém manda… Mas não nego que realmente pode ter algo de importante ali.
Niko permaneceu em silêncio. Todos estavam certos, e aquilo era profundamente irritante. A sensação apertou alguma coisa dentro da cabeça dele de um jeito novo. Até agora, investigar significava encontrar respostas. Mas liderar um grupo era diferente. Liderar significava escolher qual possibilidade abandonar primeiro
As lanternas acima da praça balançaram outra vez com o vento noturno. O som distante do festival atravessou o silêncio do grupo como um ruído pertencente a outro mundo. Por alguns segundos, ninguém falou nada. Então Niko finalmente ergueu um pouco a cabeça.
— Então a gente faz os dois.
As palavras quebraram o silêncio imediatamente. Todo mundo virou o olhar para ele. Niko percebeu isso, mas continuou mesmo assim. O raciocínio já começava a se encaixar sozinho dentro da cabeça dele enquanto falava.
— Grupo grande chama atenção. — disse. — E a gente não tem tempo pra apostar tudo numa investigação só.
Ele começou a andar devagar enquanto organizava melhor a própria linha de pensamento.
— Se o sindicato tiver informação, ótimo. Se não tiver, o grupo do terminal continua procurando e pode encontrar algo útil. Se um lado falhar, o outro ainda pode funcionar. A gente transforma um custo em dois ganhos.
Os olhos passaram rapidamente por cada pessoa da praça. Tsugumi. Gwen. Evelyn. Brigitte Matteo…
— E honestamente… — continuou — ficar andando com oito pessoas juntas pela cidade inteira já tá começando a chamar atenção demais.
— Finalmente alguém falou isso. — comentou Evelyn imediatamente.
Tsugumi franziu a testa na mesma hora.
— Então a gente formou um grupo grande desses pra desmontar ele no final?
A pergunta saiu mais rápida do que agressiva. Quase indignada.
Niko abriu a boca para responder. Mas parou no meio. Levou lentamente a mão até o queixo enquanto realmente pensava na pergunta pela primeira vez. Porque… Era uma boa pergunta.
Os olhos dele se perderam por alguns segundos nas pedras irregulares da praça enquanto tentava organizar uma resposta minimamente convincente. O grupo inteiro ficou olhando pra ele em silêncio, esperando alguma explicação elaborada surgir.
Niko pensou. Pensou mais um pouco. Então deu um pequeno dar de ombros.
— …É o mais lógico.
Gabe soltou uma risada curta pelo nariz imediatamente. Tsugumi fez uma expressão de absoluta descrença.
— Uau. Que liderança inspiradora.
— Eu faço o que posso.
Ele percebeu uma coisa estranha no meio da própria explicação: estava começando a soar mais confiante do que realmente se sentia. Como se organizar os pensamentos em voz alta obrigasse a mente dele a acompanhar o ritmo. Talvez liderança fosse isso. Parecer que sabia o que estava fazendo alguns segundos antes de descobrir se realmente sabia.
Continuou em seguida:
— A divisão vai ser-
— A Trupe dos Cervídeos vai pro sindicato! — anunciou Brigitte de repente, cortando Niko no meio da frase.
O grupo inteiro virou o rosto para ela, alguns confusos e outros só atentos. Brigitte ergueu levemente o queixo, completamente séria.
— O quê? É um nome bom.
— Isso é um nome oficial agora? — perguntou Gabe.
— É sim, porque eu decidi que é.
— Isso definitivamente não é como nomes oficiais funcionam. — respondeu Matteo.
— Funciona pra mim. — respondeu a luminar, dando de ombros.

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