Capítulo 159 - Cessar Fogo.
O corpo bateu na água primeiro.
Fria.
Violenta.
O impacto arrancou o ar dos pulmões e apagou o som da cidade por um segundo inteiro. Tudo virou espuma, correnteza e pressão. A espada escapou meio palmo da mão antes de ser puxada de volta pelo peso do braço, e a luz cinzenta acima da superfície virou uma mancha distante, quebrada pelo rio em movimento.
O usuário de Ordo mergulhou junto dela, mais lento do que antes, mas ainda forte o bastante para agarrar o tornozelo de Aisha e travá-la numa curva da corrente.
Ela girou junto da água, bateu o ombro numa pedra submersa e soltou uma rajada de bolhas pela boca.
O homem tentou subir primeiro.
Aisha o puxou de volta.
As pernas se chocaram sob a água, a corrente desviando o golpe e deformando tudo. O Ordo ao redor dele ainda criava resistência no fluxo, pequenas distorções na água que quebravam a corrente de forma errada, como se o rio se recusasse a seguir uma única direção perto dele.
Aisha cravou o punho no rosto do homem.
O golpe foi amortecido pela água, mas suficiente para afrouxar o agarrão.
Ela subiu primeiro, rasgando a superfície com uma respiração que queimou por dentro.
O ar entrou com violência.
Ela tossiu água.
O homem surgiu alguns metros à frente, engolido pela corrente, o rosto pálido e o cabelo colado na testa sangrando em fios finos.
Aisha ajustou a espada na mão.
Os dois foram arrastados pelo rio na mesma direção, rodando entre pedras e espuma até a margem mais próxima.
Aisha atingiu a margem primeiro.
As mãos afundaram na lama e pedra molhada enquanto ela se arrastava para fora da correnteza em movimentos pesados, quase sem coordenação.
Água escorria das roupas em fios contínuos.
O peito subia rápido demais.
O gosto de sangue ainda estava na boca.
Atrás dela, o rio continuava rugindo contra os pilares destruídos da ponte.
O usuário de Ordo surgiu logo depois alguns metros à esquerda, saindo da água apoiado numa pedra maior próxima da margem.
Mais lento agora.
A respiração irregular.
Mas ainda de pé.
Aisha se levantou primeiro.
As pernas vacilaram.
Ela firmou os pés na lama.
O homem observou.
A água escorria da roupa negra dele enquanto a mana de Ordo ainda distorcia o ar ao redor do corpo em pequenas pulsações irregulares.
Fraca.
Mas presente.
O vento trouxe fumaça da cidade.
Acima deles, Cervalhion queimava.
Partes da ponte ainda caíam no rio em blocos isolados, o som chegando atrasado junto da correnteza.
O usuário de Ordo cuspiu sangue na água ao lado.
Depois voltou os olhos para Aisha.
— Você devia ter fugido quando caiu.
Aisha não respondeu.
A mão apertou a espada com mais força.
O homem observou isso.
Depois olhou rapidamente para a ponte rio acima.
Distante.
Fumaça subindo entre as estruturas quebradas.
— Seu Guardião já morreu.
Aisha avançou antes que ele terminasse.
O homem recuou dois passos e lançou uma rajada de Ordo pelo flanco.
Ela desviou.
A mana passou raspando pelo ombro e destruiu parte da parede atrás dela em pedaços que caíram no rio.
A lama explodiu sob os pés dela
Ele recuou outros dois passos, reposicionou, lançou outra rajada pelo ângulo oposto.
Aisha ergueu a espada.
O impacto atravessou os braços até os ombros.
Ela deslizou meio metro na lama.
O homem não veio.
Manteve distância.
Recuando meio passo sempre que ela tentava entrar.
Fazendo Aisha perseguir explosões em vez de alcançar o corpo dele.
Lutava com distância que ainda tinha.
Aisha parou.
Olhou para o espaço entre os dois.
Quatro metros.
Três vezes ela havia tentado fechar essa distância.
Três vezes ele havia criado ângulo antes que chegasse.
O Ordo era mais fraco agora, mas ainda era suficiente para travar qualquer avanço direto antes que ela chegasse à distância certa.
Ela olhou para o chão cheio de rochas
Aisha abaixou a postura.
O homem ergueu a mão, antecipando o avanço.
Ela arremessou a espada.
Não no torso.
No ombro esquerdo — alto, visivelmente errado, o tipo de lançamento que qualquer lutador experiente leria como descoordenado.
Ele desviou para a direita.
Um passo lateral, instintivo, limpando o ângulo da lâmina.
A pedra chegou pelo lado que ele havia criado.
Acertou a têmpora com um estalo seco.
O homem tropeçou.
A mana colapsou em pulso único.
Aisha já estava em movimento.
Dois passos.
A espada foi recolhida da margem antes que ele recuperasse o equilíbrio.
O terceiro passo fechou a distância completamente.
O punho veio primeiro.
Depois a espada perfurou o abdome.
O homem caiu de costas na lama com o impacto dos dois ao mesmo tempo, a respiração saindo em golpe curto, os joelhos cedendo antes que o restante do corpo decidisse o que fazer.
Aisha foi junto.
A espada cravou na margem ao lado da cabeça dele.
O punho desceu.
O primeiro soco acertou a boca.
O segundo esmagou o nariz.
O homem tentou erguer mana.
Ela pegou a cabeça dele pelos cabelos e bateu contra uma pedra da margem.
Uma vez.
Outra.
A luz vermelha falhou entre os dedos dele.
Aisha não parou.
— VOCÊ MATOU ELE!
O grito saiu quebrado.
Ela acertou outra pedra no rosto dele.
Sangue atravessou a lama.
O usuário de Ordo tentou afastá-la com o braço.
Aisha desviou e acertou o cotovelo dele com uma pedra maior.
O som do osso quebrando veio abafado pela correnteza.
Ela bateu de novo.
E outra.
Sem ritmo.
Sem técnica.
Só raiva.
Cada respiração dela se tornou um grito de ódio.
Ela continuou.
Até os gritos virarem lagrimas.
Até o corpo parar de reagir.
Até não existir mais resistência.
Até o rosto virar sangue, lama e fragmentos de pedra e ossos misturados sob os braços dela.
O silêncio voltou aos poucos.
Só o rio.
Só o fogo distante da cidade.
Aisha ficou parada sobre ele tentando respirar.
As mãos tremiam.
O sangue escorria entre os dedos.
Então as pernas falharam.
Ela caiu deitada ao lado do corpo.
O ar saiu quebrado.
Os ombros começaram a tremer antes mesmo de ela perceber.
Aisha levou as duas mãos ao rosto coberto de sangue.
E desabou.
A dor vazia esmagando o peito enquanto a fumaça de Cervalhion subia atrás dela em direção ao céu escuro.
A espada estava caída alguns metros atrás.
Aisha ergueu os olhos devagar.
Respirou fundo uma vez.
Depois se levantou.
Pegou a espada.
E começou a correr de volta para a ponte.
A ponte estava quieta de uma forma que não tinha estado em horas.
Maelis estava ajoelhada ao lado de Ian.
A mão no peito dele.
Os olhos cerrados.
A primeira lágrima desceu sem que ela percebesse — nublando a visão por um segundo antes de ela piscar e forçar a percepção de volta.
Lysvallis estava alguns metros atrás.
De joelhos na pedra.
O gelo ao redor dos dedos havia se desfeito completamente.
— Ele… já se foi..
A voz saiu baixa.
— Cala a boca, Lys.
Maelis não desviou o olhar do peito de Ian.
— Deve ter um jeito.
Lysvallis não respondeu.
Elenys estava ao lado do corpo de Alexia.
As mãos no chão.
Não pressionando mais.
Só ali.
Aedin estava alguns metros atrás com os dois magos restantes.
Os olhos em Ian.
Na destruição ao redor.
Melissa ficou parada no centro da ponte.
Ian.
Alexia.
Elenys.
Os corpos dos soldados espalhados pela pedra.
As casas queimando além das estruturas laterais da ponte.
A cratera no centro onde a esfera havia colapsado.
— Você lançou a esfera de Ordo aqui.
Não era pergunta.
Aedin endureceu o rosto.
— Era necessário.
Melissa olhou em volta devagar.
— Necessário.
A palavra saiu vazia.
— Ele estava corrompido — Aedin disse. — Você não viu o que ele se tornou.
— E essas pessoas?
Melissa apontou para os corpos.
— Também estavam?
Aedin abriu a boca.
Nenhuma resposta saiu.
Maelis ergueu os olhos.
— A mana de Aedin está contaminada.
Melissa virou imediatamente.
— O quê?
— Tem alguém interferindo na mana dele há horas.
Os olhos de Maelis foram para Aedin.
— Eu consigo ver claramente agora.
Aedin franziu a testa.
— Que absurdo—
A mana roxa pulsou no mesmo instante.
Forte.
Visível por menos de um segundo nos circuitos dele.
Melissa viu.
Os olhos arregalaram levemente.
Aedin percebeu o olhar dela mudar.
Ele deu meio passo para trás.
A mão apertou a própria têmpora.
As memórias vieram em fragmentos.
A voz do conselheiro.
As ordens.
A certeza que havia estado lá durante toda a perseguição.
Os sonhos.
Ian no chão da rua.
Os chutes.
Alexia.
O disparo da esfera mesmo sabendo quem estava próximo.
— Ele falou a verdade…?
A voz saiu baixa.
Quase para si mesmo.
Melissa avançou um passo.
— Aedin—
— Eu matei pessoas do meu próprio reino?
O olhar dele percorreu os corpos espalhados.
As casas queimando.
A ponte destruída.
— Eu…
O vento mudou.
Quente.
Cinzas atravessaram a ponte vindas da direção da rua destruída.
Passos chegaram do extremo oposto ao de Melissa.
Pesados.
Lentos.
Kael surgiu entre a fumaça com a lança apoiada no ombro e uma pequena sacola amarrada ao cabo.
As roupas queimadas em vários pontos.
O rosto coberto de cinzas.
Nenhum ferimento grave visível.
Os olhos vermelhos varreram a ponte inteira em silêncio.
Ian.
Alexia.
Aedin.
Melissa.
Depois voltaram para Ian.
E pararam.
Aedin sentiu o estômago cair.
Dan estava morto.
Precisava estar.
Kael não chegaria vivo se Dan estivesse vivo.
Dan estava morto.
Os soldados estavam mortos.
Alexia estava morta.
E Ian—
Aedin virou o rosto para o corpo imóvel próximo da cratera.
O braço carbonizado.
As fissuras vermelhas que ainda percorriam a pele.
A ausência completa de movimento no peito.
— Não.
A mana roxa pulsou violentamente.
Depois falhou.
Como circuito queimando de dentro para fora.
Aedin cambaleou um passo.
Kael passou por Melissa sem olhar para ela.
Ajoelhou ao lado de Ian.
As mãos percorreram o peito queimado rápido em avaliação.
Ficou parado por um segundo.
Os olhos no peito de Ian.
No braço carbonizado.
Nas fissuras.
Na ausência completa de mana no ambiente ao redor do corpo.
Lysvallis ergueu os olhos.
— Não tem mais mana. Nem o mínimo.
Maelis se aproximou ajoelhando ao lado de Kael.
— Eu vou injetar a minha. Deve bastar para tentar reanimar.
— Você tem pouca — Lys disse. — O coice te mataria junto.
— E o que você propõe, Lys? Desistir?
Aedin deu um passo.
— Ele já está morto. Nenhum ser vivo sobrevive sem mana. É inútil.
— VOCÊS PODEM CALAR A BOCA?
A voz de Kael atravessou a ponte.
Sem ironia.
Ninguém respondeu.
Kael olhou para as próprias mãos por um segundo.
Depois posicionou as duas palmas no centro do peito de Ian.
E começou a comprimir.
Pressão.
Ritmo.
As mãos descendo e subindo no peito de Ian com força e cadência, não como técnica de combate, não como uso de mana, só o gesto físico e bruto de alguém forçando um coração a bater.
Lysvallis ficou olhando.
— O que você está fazendo?
Kael não respondeu.
Continuou.
Maelis ficou parada.
Os olhos no peito de Ian.
No movimento das mãos de Kael.
No rosto de Kael — sem expressão, concentrado, o tipo de foco que não desperdiça nada em mais nada além do que está fazendo.
Os magos de Aedin trocaram um olhar.
Melissa ficou onde estava.
Aedin também.
A mana roxa continuava saindo dos circuitos dele em fios finos que dissipavam na fumaça da ponte.
Ninguém falou.
O som rio abaixo cortado pelo estalar do fogo nas casas ao redor.
Kael não desacelerou o ritmo.
Lysvallis desviou o olhar.
— É inútil — disse ela baixo.
As mãos de Kael não pararam.
Maelis não saiu do lugar.
Os olhos continuavam no peito de Ian.
Esperando.
Trinta segundos.
Um minuto.
A cadência não mudou.
Não acelerou.
Não diminuiu.
Kael comprimia como alguém que havia decidido que ia continuar até acontecer ou até não haver mais nada para continuar.
Então o peito de Ian subiu.
Pequeno.
Irregular.
Mas subiu.
Kael parou imediatamente.
Ficou com as mãos no peito esperando.
O peito desceu.
Subiu de novo.
Mais firme dessa vez.
Maelis soltou o ar que havia preso sem perceber.
Kael ficou parado mais um segundo com as mãos ainda no peito de Ian — sentindo o ritmo, verificando, confirmando antes de acreditar completamente.
Depois abriu a sacola.
As poções saíram uma a uma.
Ele virou a primeira no canto da boca de Ian devagar.
A segunda foi para os ferimentos do braço.
A terceira ele estendeu para Lysvallis sem olhar.
Ela ficou com ela na mão por um segundo.
Olhando para Kael.
Para Ian.
Para o peito que continuava subindo e descendo.
Depois abriu.
Passos vieram da margem.
Aisha apareceu no extremo da ponte.
Encharcada.
Coberta de sangue e lama.
A espada na mão.
Os olhos varrendo a ponte de uma extremidade à outra em menos de um segundo.
Ian.
Kael ficou de pé.
Vareu a ponte com o olhar.
Aedin.
Melissa.
Os magos.
Os soldados da Guarda Real.
Maelis.
Elenys ao lado do corpo de Alexia.
Lysvallis ajoelhada com a poção na mão.
— Precisamos sair daqui.
A voz saiu igual a de sempre.
Sem peso extra.
Kael ergueu Ian nos braços.
— Lysvallis, Elenys e Maelis, vocês vêm comigo.
Os olhos passaram por Melissa.
Depois por Aedin.
— E organize essa cidade antes que ela desabe junto do resto.
Ele começou a caminhar.
Então parou por meio segundo.
— Nós ainda vamos terminar essa conversa.

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